3º Domingo da Quaresma

3º Domingo da Quaresma

Todos os atos da vida de Cristo são redentores, mas a redenção do gênero humano culmina na Cruz, para a qual o Senhor orienta toda a sua vida na terra: Tenho que receber um batismo, e como me sinto ansioso até que se cumpra!1, dirá aos seus discípulos a caminho de Jerusalém. Revela-lhes as ânsias irreprimíveis de dar a sua vida por nós, e dá-nos exemplo do seu amor à vontade do Pai morrendo na Cruz. E é na Cruz que a alma alcança a plenitude da identificação com Cristo. Este é o sentido mais profundo que têm os atos de mortificação e penitência.

Para sermos discípulos do Senhor, temos de seguir o seu conselho: Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me2. Não é possível seguir o Senhor sem a Cruz. As palavras de Jesus Cristo têm plena vigência em todos os tempos, uma vez que foram dirigidas a todos os homens, pois quem não carrega a sua cruz e me segue – diz-nos Ele a cada um – não pode ser meu discípulo3.

Carregar a cruz – aceitar a dor e as contrariedades que Deus permite para nossa purificação, cumprir com esforço os deveres próprios, assumir voluntariamente a mortificação cristã – é condição indispensável para seguir o Mestre.

“Que seria de um Evangelho, de um cristianismo sem Cruz, sem dor, sem o sacrifício da dor?, perguntava-se Paulo VI. Seria um Evangelho, um cristianismo sem Redenção, sem Salvação, da qual – devemos reconhecê-lo com plena sinceridade – temos necessidade absoluta. O Senhor salvou-nos por meio da Cruz; com a sua morte, devolveu-nos a esperança, o direito à Vida…”4 Seria um cristianismo desvirtuado que não serviria para alcançar o Céu, pois “o mundo não pode salvar-se senão por meio da Cruz de Cristo”5.

Unidas ao Senhor, a mortificação voluntária e as mortificações passivas adquirem o seu sentido mais profundo. Não são atos dirigidos primariamente à nossa perfeição, ou uma maneira de suportarmos com paciência as contrariedades desta vida, mas participação no mistério divino da Redenção.

Aos olhos de alguns, a mortificação pode não passar de loucura ou insensatez, de um resíduo de outras épocas que não combinam com os avanços e o nível cultural do nosso tempo; como também pode ser pedra de escândalo para aqueles que vivem esquecidos de Deus. Mas nenhuma dessas atitudes deve surpreender-nos: São Paulo escrevia que a Cruz é escândalo para os judeus, loucura para os gentios6. E mesmo os cristãos, na medida em que perdem o sentido sobrenatural das suas vidas, não conseguem entender que só possamos seguir o Senhor através de uma vida de sacrifício, junto da Cruz.

Os próprios Apóstolos, que seguem o Senhor quando é aclamado pelas multidões, ainda que o amassem profundamente e estivessem dispostos a dar a vida por Ele, não o seguem até o Calvário, pois ainda eram fracos por não terem recebido o Espírito Santo. Há uma diferença muito grande entre seguir o Senhor quando isso não exige muito, e identificar-se plenamente com Ele através das tribulações, pequenas e grandes, de uma vida sacrificada.

O cristão que vive fugindo sistematicamente do sacrifício, que se revolta com a dor, afasta-se também da santidade e da felicidade, que se encontra muito perto da Cruz, muito perto de Cristo Redentor. “Se não te mortificas, nunca serás alma de oração”7. E Santa Teresa ensina: “Pensar que (o Senhor) admite na sua amizade gente regalada e sem trabalhos é disparate”8.

II. O SENHOR PEDE a cada cristão que o siga de perto, e para isso é necessário acompanhá-lo até o Calvário. Nunca deveríamos esquecer estas palavras: Quem não toma a sua cruz e me segue não é digno de mim9. Muito tempo antes de padecer na Cruz, Jesus já tinha dito aos seus seguidores que teriam de carregá-la.

Há um paradoxo na mortificação, um mistério, que só se pode compreender quando há amor: por trás da aparente morte, encontra-se a Vida; e aquele que, dominado pelo egoísmo, procura conservar a vida para si, esse acaba por perdê-la: Aquele que quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e aquele que a perder por minha causa achá-la-á10. Para podermos dar fruto, amando a Deus e ajudando os outros de uma maneira efetiva, é necessário que nos abramos ao sacrifício. Não há colheita sem plantio: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só; mas se morre, produz muito fruto11. Para sermos sobrenaturalmente eficazes, devemos morrer mediante a contínua mortificação, esquecendo-nos completamente da nossa comodidade e do nosso egoísmo. “Não queres ser grão de trigo, morrer pela mortificação e dar espigas bem graúdas? – Que Jesus abençoe o teu trigal!”12

Devemos perder o medo ao sacrifício, à mortificação voluntária, pois quem quer a Cruz para cada um de nós é um Pai que nos ama e que sabe o que mais nos convém. O Senhor quer sempre o melhor para nós: Vinde a mim todos os que estais fatigados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis paz para as vossas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu peso leve13. Ao lado de Cristo, as tribulações e penas não oprimem, não pesam, e, pelo contrário, levam a alma a orar, a ver a Deus nos acontecimentos da vida.

Pela mortificação, elevamo-nos até o Senhor; sem ela, ficamos grudados à terra. Pelo sacrifício voluntário, pela dor oferecida e assumida com paciência, simplicidade e amor, unimo-nos firmemente ao Senhor. “É como se Ele nos disesse: vós todos que andais atormentados, aflitos e sobrecarregados com o fardo das vossas preocupações e apetites, deixai-os, vinde a mim, e eu vos recrearei, e encontrareis para as vossas almas o descanso que os vossos apetites vos tiram”14.

III. PARA NOS DECIDIRMOS a viver com generosidade a mortificação, convém que compreendamos bem as razões que lhe dão sentido: quando nos custa ser mais mortificados, é porque ainda não descobrimos ou não entendemos a fundo esse sentido.

Os motivos que impelem o cristão a ter uma vida mortificada são vários. O primeiro é esse que considerávamos anteriormente: o desejo de nos identificarmos com o Senhor e de segui-lo nas suas ânsias de redimir por meio da Cruz, oferecendo-se a Si mesmo em sacrifício ao Pai. A nossa mortificação tem assim os mesmos fins da Paixão de Cristo e da Santa Missa, e traduz-se numa união cada vez mais plena com a vontade de Deus.

Mas a mortificação é também meio de progredir nas virtudes. No diálogo que precede o Prefácio da Missa, o sacerdote levanta as mãos ao céu enquanto diz: Corações ao alto, e o povo fiel responde: O nosso coração está em Deus. O nosso coração deve estar permanentemente voltado para Deus, deve estar cheio de amor e com a esperança sempre posta no seu Senhor. É necessário, pois, que não esteja agarrado e preso às coisas da terra, que se vá purificando cada vez mais. E isto não é possível sem penitência, sem a contínua mortificação, que é “meio de progredir”15. Sem ela, a alma enreda-se nas mil coisas pelas quais os sentidos tendem a espalhar-se: apegos, impurezas, aburguesamento, desejos imoderados de conforto… A mortificação liberta-nos de muitos laços e capacita-nos para o amor.

A mortificação é meio indispensável de apostolado: “A ação nada vale sem a oração; a oração valoriza-se com o sacrifício”16. Estaríamos enganados se quiséssemos atrair os outros para Deus sem apoiar essa ação numa oração intensa, e se essa oração não fosse reforçada pela mortificação alegremente oferecida. Foi por isso que se afirmou de mil maneiras diferentes que a vida interior, manifestada especialmente na oração e na mortificação, é a alma de todo o apostolado17.

Não esqueçamos, finalmente, que a mortificação serve também de reparação pelas nossas faltas passadas, pequenas ou grandes. Em muitas orações, a Igreja nos faz pedir ao Senhor que nos ajude a corrigir a vida passada: “Emendationem vitae, spatium verae paenitentiae… tribuat nobis omnipotens et misericors Dominus”: que o Senhor onipotente e misericordioso nos conceda a emenda da nossa vida e um tempo de verdadeira penitência18. Deste modo, pela mortificação, até mesmo as faltas passadas se convertem em fonte de nova vida. “Enterra com a penitência, no fosso profundo que a tua humildade abrir, as tuas negligências, ofensas e pecados. – Assim enterra o lavrador, ao pé da árvore que os produziu, frutos apodrecidos, ramos secos e folhas caducas. – E o que era estéril, melhor, o que era prejudicial, contribui eficazmente para uma nova fecundidade. Aprende a tirar das quedas, impulso; da morte, vida”19.

Peçamos vivamente ao Senhor que, a partir de agora, saibamos aproveitar melhor a nossa vida: “Quando recordares a tua vida passada, passada sem pena nem glória, considera quanto tempo tens perdido e como o podes recuperar: com penitência e com maior entrega”20. E, quando alguma coisa nos custar, virá à nossa mente algum destes pensamentos que nos moverão à mortificação generosa: “Motivos para a penitência? Desagravo, reparação, petição, ação de graças; meio para progredir…; por ti, por mim, pelos outros, pela tua família, pelo teu país, pela Igreja… E mil motivos mais”21.

(1) Cfr. Lc 12, 50; (2) Mt 16, 24; (3) Lc 14, 27; (4) Paulo VI, Alocução, 24-III-1967; (5) São Leão Magno, Sermão 51; (6) 1 Cor 1, 23; (7) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 172; (8) Santa Teresa, Caminho de perfeição, 18, 2; (9) Mt 10, 38; (10) Mt 16, 24 e segs.; (11) Jo 12, 24-25; (12) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 199; (13) Mt 11, 28-30; (14) São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo, I, 7, 4; (15) cfr. Josemaría Escrivá, Caminho, n. 232; (16) Josemaría Escrivá, op. cit., n. 81; (17) cfr. J. B. Chautard, El alma de todo apostolado, 5ª ed., Palabra, Madrid, 1978; (18) Missal Romano,fórmula da intenção da Missa; (19) Josemaría Escrivá, op. cit., n. 211; (20) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 996; (21) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 232