3º Domingo do Tempo Comum

3º Domingo do Tempo Comum

A PRIMEIRA LEITURA da Missa1 narra com grande emoção o regresso do Povo escolhido para a Judéia depois de tantos anos de desterro na Babilônia.

Já em solo judaico, um dos sacerdotes, Esdras, explica ao povo o conteúdo da Lei que tinham esquecido naqueles anos transcorridos em “terras estranhas”. Leu o livro sagradodesde o amanhecer até o meio-dia, e todos de pé seguiam a leitura com atenção, e o povo inteiro chorava. É um pranto em que se misturam naqueles homens a alegria de reconhecerem novamente a Lei de Deus e a tristeza de perceberem que o seu antigo esquecimento da Lei fora a causa de que tivessem sido desterrados.

Quando nos reunimos para participar na Santa Missa, escutamos de pé, em atitude vigilante, a Boa Nova que o Evangelho nunca deixa de nos trazer. Devemos ouvi-lo com uma disposição atenta, humilde e agradecida, porque sabemos que o Senhor se dirige a cada um de nós em particular. “Devemos ouvir o Evangelho – diz Santo Agostinho – como se o Senhor estivesse presente e nos falasse. Não devemos dizer: «Felizes aqueles que puderam vê-lo». Porque muitos dos que o viram crucificaram-no; e muitos dos que não o viram creram nele. As mesmas palavras que saíam da boca do Senhor foram escritas, guardadas e conservadas para nós”2.

Só se ama o que se conhece. Por isso, muitos cristãos reservam todos os dias alguns minutos para lerem e meditarem o Evangelho, e assim chegam espontaneamente a um conhecimento profundo e à contemplação de Jesus Cristo. O Evangelho ensina-nos a ver Cristo tal como os Apóstolos o viram, a observar as suas reações, o seu modo de comportar-se, as suas palavras sempre cheias de sabedoria e de autoridade; mostra-nos Jesus ora compadecido perante a desgraça, ora santamente irado, sempre compreensivo com os pecadores, firme diante dos fariseus que falsificavam a religião, cheio de paciência com os discípulos que por vezes não entendiam o sentido das suas palavras.

Seria muito difícil amar a Cristo, conhecê-lo de verdade, se não se escutasse freqüentemente a Palavra de Deus, se não se lesse o Evangelho com atenção, todos os dias. Essa leitura – bastam cinco minutos diários – alimenta a nossa piedade.

Ao terminar a leitura da Sagrada Escritura, o sacerdote diz: Palavra do Senhor. E todos os fiéis respondem: Glória a Vós, Senhor. E como é que lhe damos glória? O Senhor não se contenta com o mero assentimento às suas palavras: quer também um louvor com obras. Não podemos arriscar-nos a esquecer a lei de Deus, a permitir que os ensinamentos do Evangelho estejam em nós como verdades difusas e inoperantes, ou conhecidas apenas superficialmente; isso representaria para a nossa vida um desterro muito mais amargo que o da Babilônia. O grande inimigo de Deus no mundo é a ignorância, “que é a causa e a raiz de todos os males que envenenam os povos e perturbam muitas almas”3. E se essa ignorância diz respeito à pessoa de Cristo e à doutrina por Ele anunciada, a nossa vida não terá eixo em torno do qual girar.

II. NA MISSA DE HOJE, lemos o começo do Evangelho de São Lucas4, em que o Evangelista nos diz ter resolvido passar a vida de Cristo a escrito para que conhecêssemos a solidez dos ensinamentos que recebemos.

A obrigação de conhecer profundamente a doutrina de Jesus – cada um de acordo com as circunstâncias da sua vida – estende-se a todos e dura enquanto prosseguir a nossa caminhada sobre a terra. “O crescimento da fé e da vida cristã necessita de um esforço decidido e de um exercício permanente da liberdade pessoal, sobretudo no ambiente adverso em que vivemos. Este esforço começa com a estima pela fé, encarada como o valor mais importante da nossa vida. A partir dessa estima, nasce o interesse por conhecer e praticar tudo o que está contido na fé em Deus e nas exigências do seguimento de Cristo, no contexto complexo e variável da vida real de cada dia”5.

Nunca devemos considerar-nos suficientemente formados, nunca devemos conformar-nos com o conhecimento de Jesus Cristo e dos seus ensinamentos que já possuímos. O amor pede que se conheçam sempre mais coisas da pessoa amada. Na vida profissional, um médico, um arquiteto, um advogado, se querem ser bons profissionais, nunca dão por concluídos os seus estudos ao saírem da Faculdade; estão sempre em contínua formação. Com o cristão acontece o mesmo. Pode-se aplicar-lhe também aquela frase de Santo Agostinho: “Disseste basta? Pereceste”6.

A qualidade do instrumento pode melhorar, desenvolver novas possibilidades, e nós somos instrumentos nas mãos de Deus, e todos os dias podemos amar um pouco mais e ser mais exemplares. Não o conseguiremos se a nossa inteligência não receber continuamente o alimento da doutrina sadia. “Não sei quantas vezes me disseram – comenta um autor dos nossos dias – que um velho irlandês que só saiba rezar o terço pode ser mais santo do que eu com todos os meus estudos. É bem possível que seja assim; e, pelo próprio bem desse homem, espero que seja assim. No entanto, se o único motivo para se fazer tal afirmação é que ele sabe menos teologia do que eu, então essa razão não me convence e não o convence. Não o convence porque todos os velhos irlandeses devotos do terço e do Santíssimo Sacramento que eu conheci […] estavam desejosos de conhecer a sua fé mais a fundo. Não me convence porque, se é evidente que um homem ignorante pode ser virtuoso, é evidente também que a ignorância não é uma virtude. Houve mártires que não teriam sido capazes de anunciar corretamente a doutrina da Igreja, apesar de o martírio ser a máxima prova de amor. No entanto, se tivessem conhecido mais a Deus, o seu amor teria sido maior”7.

A chamada “fé do carvoeiro” (eu creio em tudo, ainda que não saiba de que se trata) não é suficiente para o cristão que, no meio do mundo, encontra cada vez maior confusão e falta de luz a respeito da doutrina de Jesus Cristo e dos problemas éticos, novos e velhos, com que tropeça no exercício da sua profissão, na vida familiar, no ambiente que o rodeia.

O cristão deve conhecer bem os argumentos necessários para enfrentar os ataques dos inimigos da fé, e deve saber apresentá-los de forma atraente (não se ganha nada com a intemperança, a discussão e o mau-humor), com clareza (sem atenuar o que não pode ser atenuado) e com precisão (sem dúvidas nem hesitações).

A “fé do carvoeiro” talvez possa salvar o carvoeiro, mas, nos outros cristãos, a ignorância do conteúdo da fé significa geralmente falta de fé, desleixo, desamor: “Freqüentemente, a ignorância é filha da preguiça”, diz São João Crisóstomo8. Na luta contra a incredulidade, é muito importante ter um conhecimento preciso e completo da teologia católica. Por isso “qualquer criança bem instruída no Catecismo é, sem sabê-lo, um autêntico missionário”9. Que valor damos à cultura religiosa, ao preenchimento das nossas lacunas, ao esclarecimento das dúvidas junto de quem nos pode elucidar? Como já vimos, não se ama aquilo que não se conhece. E se não conhecemos bem o Senhor e os seus ensinamentos, então não o amamos.

III. A BOA FORMAÇÃO exige tempo e constância. A continuidade ajuda a compreender e a assimilar, a tornar vida própria a doutrina que chega à nossa inteligência. Para isso devemos antes de mais nada esforçar-nos por manter livres e desimpedidos os canais por onde circula a sã doutrina. Devemos dedicar, portanto, o maior interesse à nossa formação e persuadir-nos da importância transcendental da prática da leitura espiritual, de acordo com um plano bem orientado, de modo que o seu conteúdo vá sedimentando na nossa alma.

Já se disse que, para curar um doente, basta ser médico; não é necessário contrair a mesma doença. Ninguém deve ser “tão ingênuo a ponto de pensar que, para adquirir formação teológica, seja necessário ingerir todo o tipo de beberagens…, ainda que estejam envenenadas. Isto é de senso comum, não apenas de senso sobrenatural; e a experiência de cada um pode corroborar nesse sentido com muitos exemplos”10. Por isso, pedir conselho à hora de selecionar as leituras é uma parte importante da virtude da prudência, de modo muito particular se se trata de livros teológicos ou filosóficos que possam afetar essencialmente a nossa formação e a nossa fé. Como é importante acertar na leitura de um livro! Mas essa importância aumenta quando se trata de livros que se destinam especificamente à formação da nossa alma.

Se formos constantes nessa preocupação, se cuidarmos de todos os meios pelos quais nos chega a boa doutrina (leitura espiritual, retiros, círculos de estudo, palestras de formação, direção espiritual…), adquiriremos quase sem o percebermos uma grande riqueza interior, que integraremos pouco a pouco na nossa vida.

Além disso, no que diz respeito aos outros, estaremos então na situação de um lavrador que possui um alforje repleto de sementes, e se encontra diante de um campo já preparado para receber a semeadura, pois aquilo que recebemos é útil para a nossa alma e para transmiti-lo aos outros. A semente perde-se quando não há o cuidado de fazê-la frutificar, e o mundo é um sulco imenso em que Cristo quer que semeemos a sua doutrina.

(1) Ne 8, 2-6; 8-10; (2) Santo Agostinho, Tratado sobre o Evangelho de São João, 30; (3) João XXIII, Enc. Ad Petri cathedram, 29-VI-1959; (4) Lc 1, 1-14; 4, 14-21; (5) Conferência Episcopal Espanhola, Testemunhas do Deus vivo, 28-VI-1985, 29; (6) Santo Agostinho, Sermão 169, 18; (7) F. J. Sheed, Teologia para todos, Palabra, Madrid, 1977, págs. 15-16; (8) São João Crisóstomo, em Catena Aurea, vol. III, pág. 78; (9) Card. J. H. Newman,Sermão na inauguração do Seminário de S. Bernardo, 3-X-1873; (10) cfr. P. Rodríguez, Fe y vida de fé, pág. 162.