4º Domingo da Páscoa

4º Domingo da Páscoa

RESSUSCITOU O BOM PASTOR que deu a vida pelas suas ovelhas e se dignou morrer pelo seu rebanho. Aleluia”.

A liturgia deste domingo é dominada pela figura do Bom Pastor que, pelo seu sacrifício, devolveu a vida às ovelhas e as reconduziu ao redil. Quando São Pedro, no meio das primeiras perseguições aos cristãos, lhes escrever para firmá-los na fé, recordar-lhes-á o que Cristo sofreu por eles: Por suas chagas fomos curados. Porque éreis como ovelhas desgarradas; mas agora retornastes ao Pastor e guarda das vossas almas2. Por isso a Igreja inteira se enche de júbilo pela ressurreição de Jesus Cristo3 e pede a Deus Pai que “o débil rebanho do vosso Filho tenha parte na admirável vitória do seu Pastor”4.

Os primeiros cristãos manifestaram uma entranhada predileção pela imagem do Bom Pastor, testemunhada em inúmeras pinturas murais, relevos, desenhos em epitáfios, mosaicos e esculturas, nas catacumbas e nos mais veneráveis edifícios da Antigüidade. A liturgia deste domingo convida-nos a meditar na misericordiosa ternura do nosso Salvador, para que reconheçamos os direitos que Ele adquiriu sobre cada um de nós com a sua morte. É também uma boa ocasião para considerarmos na nossa oração pessoal o nosso amor pelos bons pastores que o Senhor deixou para nos guiarem e guardarem em seu nome.

O Antigo Testamento alude muitas vezes ao Messias como o bom pastor que alimentará, regerá e governará o povo de Deus, freqüentemente abandonado e disperso. Essas profecias cumprem-se em Jesus com características novas. Ele é o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas e que estabelece pastores para que continuem a sua missão. Em contraste com os ladrões, que andam atrás dos seus interesses e deitam a perder o rebanho, Jesus é a porta da salvação5, que permite encontrar pastagens abundantes a quem a transponha6. Existe uma terna relação pessoal entre Jesus, o Bom Pastor, e as suas ovelhas: Ele as chama a cada uma pelo seu nome, caminha à frente delas, e as ovelhas o seguem porque conhecem a sua voz… Ele é o pastor único que forma um só rebanho7, protegido pelo amor do Pai8. É o pastor supremo9.

Na sua última aparição, pouco antes da Ascensão, Cristo ressuscitado constitui Pedro como pastor do seu rebanho10, como guia da Igreja. Cumpre-se então a promessa que fizera pouco antes da Paixão: Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos11. A seguir, profetiza-lhe que, como bom pastor, também ele morrerá pelo seu rebanho.

Cristo confia em Pedro, apesar da tríplice negação do Apóstolo. Apenas lhe pergunta, também por três vezes, se o ama. O Senhor não tem inconveniente em confiar a sua Igreja a um homem com fraquezas, mas que se arrepende e ama com atos. Pedro entristeceu-se porque lhe perguntou pela terceira vez se o amava, e respondeu-lhe: Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta as minha ovelhas.

Estas palavras de Jesus a Pedro – apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas – indicam que a missão de Pedro será a de guardar todo o rebanho do Senhor sem exceção. E apascentar equivale a dirigir e governar. Pedro é constituído pastor e guia de toda a Igreja. Como diz o Concílio Vaticano II, Jesus Cristo “colocou à frente dos demais Apóstolos o bem-aventurado Pedro e nele instituiu o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade de fé e comunhão”12. Onde está Pedro, aí está a Igreja de Cristo. Junto dele, sabemos com certeza qual o caminho que conduz à salvação.

II. O EDIFÍCIO DA IGREJA estará assentado até o fim dos tempos sobre o primado de Pedro, a rocha. A figura de Pedro cresce assim de maneira incomensurável, porque, antes de partir, Cristo, que é realmente o alicerce da Igreja13, deixa Pedro no seu lugar. Daí que os seus sucessores venham a receber mais tarde o nome de Vigário de Cristo, quer dizer, aquele que faz as vezes de Cristo.

Pedro é e será sempre o firme esteio da Igreja em face de todas as tempestades que a envolveram e a envolverão através dos séculos. A base de sustentação que lhe proporciona e a vigilância que exerce sobre ela como bom Pastor são a garantia de que sairá sempre vitoriosa de todas as provas e tentações. Pedro morrerá uns anos mais tarde, mas, quanto ao seu ofício de pastor supremo, “é necessário que dure eternamente por obra do Senhor, para perpétua saúde e bem perene da Igreja, que, estabelecida sobre a rocha, deve permanecer firme até a consumação dos séculos”14.

O amor ao Papa remonta aos próprios começos da Igreja. Os Atos dos Apóstolos15narram a comovedora atitude manifestada pelos primeiros cristãos quando São Pedro é aprisionado por Herodes Agripa, que tenciona matá-lo depois da festa da Páscoa: A Igreja rezava incessantemente por ele a Deus. “Observai os sentimentos dos fiéis para com o seu pastor, diz São João Crisóstomo. Não recorrem a distúrbios nem à rebeldia, mas à oração, que é um remédio invencível. Não dizem: como somos homens sem poder algum, é inútil que oremos por ele. Rezavam por amor e não pensavam nada de semelhante”16.

Devemos rezar muito pelo Papa e pelas suas intenções, pois ele carrega sobre os seus ombros com o grave peso da Igreja. Talvez possamos fazê-lo com as palavras desta oração litúrgica: Dominus conservet eum, et vivificet eum, et beatum faciat eum in terra, et non tradat eum in animam inimicorum eius: Que o Senhor o guarde, e lhe dê vida, e o faça feliz na terra, e não o entregue às mãos dos seus inimigos17. Em todos os lugares do mundo, sobe diariamente a Deus um clamor de oração da Igreja inteira, que reza “com ele e por ele”. Não se celebra nenhuma Missa sem que se mencione o seu nome e peçamos pela sua pessoa e intenções. E será também muito do agrado do Senhor que nos lembremos ao longo do dia de oferecer pelo seu Vigário aqui na terra as nossas orações, as nossas horas de trabalho ou de estudo e algum pequeno sacrifício.

“Obrigado, meu Deus, pelo amor ao Papa que puseste em meu coração”18. Oxalá possamos fazer nossas estas palavras todos os dias, cada vez com mais motivo. O amor e veneração pelo Romano Pontífice é um dos grandes dons que o Senhor nos deixou.

III. A PAR DA NOSSA ORAÇÃO, devemos manifestar também amor e respeito por aquele que faz as vezes de Cristo na terra. “O amor ao Romano Pontífice deve ser em nós uma formosa paixão, porque nele nós vemos Cristo”19. Por isso, “não podemos ceder à tentação, demasiado fácil, de contrapor um Papa a outro, para depositar a nossa confiança naquele cujos atos estejam mais de acordo com as nossas tendências pessoais. Não podemos ser daqueles que lamentam o Papa de ontem ou esperam o de amanhã para se dispensarem de obedecer ao chefe de hoje. Quando se lêem os textos do cerimonial da coroação dos Pontífices, é possível observar que ninguém confere ao eleito pelo Conclave os poderes da sua dignidade: o sucessor de Pedro recebe esses poderes diretamente de Cristo. Quando falamos do Sumo Pontífice, devemos banir do nosso vocabulário termos procedentes das assembléias parlamentares ou das polêmicas jornalísticas, e não devemos deixar aos estranhos à nossa fé o cuidado de nos revelarem o prestígio que possui no mundo o Chefe da cristandade”20.

E não haverá respeito e amor verdadeiro ao Papa se não houver uma obediência fiel, interna e externa, aos seus ensinamentos e à sua doutrina. Os bons filhos escutam com veneração mesmo os simples conselhos do Pai comum e procuram pô-los sinceramente em prática.

No Papa devemos, pois, ver aquele que está no lugar de Cristo no mundo: o “doce Cristo na terra”, como costumava chamá-lo Santa Catarina de Sena; e amá-lo e escutá-lo, porque na sua voz está a verdade. Faremos com que as suas palavras cheguem a todos os cantos do mundo, sem deformações, para que – tal como em relação a Cristo, quando andava na terra – muitos desorientados pela ignorância e pelo erro descubram a verdade e muitos aflitos recobrem a esperança. Dar a conhecer os ensinamentos pontifícios é parte da tarefa apostólica do cristão.

Podem aplicar-se ao Papa aquelas palavras de Jesus: Quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer21. Sem essa união, todos os frutos seriam aparentes e vazios e, em muitos casos, amargos e prejudiciais a todo o Corpo Místico de Cristo. Pelo contrário, se estivermos muito unidos ao Papa, não nos faltarão motivos, diante da tarefa apostólica que nos espera, para o otimismo que se refletem nestas palavras: “Com alegria te abençôo, meu filho, por essa fé na tua missão de apóstolo que te levou a escrever: «Não há dúvida; o futuro é garantido, apesar de nós talvez. Mas é preciso que formemos uma só coisa com a Cabeça – `ut omnes unum sint!’ –, pela oração e pelo sacrifício»”22.

(1) Antífona da comunhão da Missa do quarto domingo do Tempo Pascal; (2) 1 Pe 2, 25; (3) Oração coleta da Missa do quarto domingo do Tempo Pascal; (4) ib.; (5) cfr. Jo 10, 10; (6) cfr. Jo 10, 9-10; (7) cfr. Jo 10, 16; (8) cfr. Jo 10, 29; (9) 1 Pe 5, 4; (10) cfr. Jo 21, 15-17; (11) Lc 22, 32; (12) Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 18; (13) 1 Cor 3, 11; (14) Conc. Vat. I, Const. Pastor aeternus, cap. 2; (15) cfr. At 12, 1-2; (16) São João Crisóstomo, Hom. sobre os Atos dos Apóstolos, 26; (17) Enchiridium indulgentiarum, 1986, n. 39. Oração pro Pontifice; (18) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 573; (19) Josemaría Escrivá, Homilia Lealdade à Igreja, 4-VI-1972; (20) J. Chevrot, Simão Pedro, págs. 78-79; (21) Jo 15, 5; (22) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 968.