5º Domingo do tempo comum – Mar adentro: fé e obediência no apostolado

5º Domingo do tempo comum – Mar adentro: fé e obediência no apostolado

Narra São Lucas que Jesus estava junto do lago de Genesaré e a multidão comprimia-se à sua volta de tal forma que lhe faltava espaço para pregar. Subiu então a uma barca e mandou que a afastassem um pouco da margem para poder falar à multidão.

A barca da qual o Senhor prega é a barca de Pedro, que já conhecia Jesus e o tinha acompanhado em alguma das suas viagens. Cristo entra na sua barca intencionalmente. É mais um pormenor pelo qual o Senhor se vai introduzindo aos poucos na vida do futuro Apóstolo e preparando a sua entrega definitiva aos planos divinos, exatamente como em qualquer vocação, como em qualquer alma que Deus deseja atrair a si para sempre. Muitas graças definitivas tiveram uma longa história, uma preparação profunda por parte de Deus; uma preparação tão discreta e amorosa que, às vezes, se poderia confundi-la com acontecimentos naturais ou com meras coincidências2.

Terminada a pregação, Jesus diz a Pedro que prepare os remos e que navegue mar adentro. Ora, aquele dia não tinha sido bom. Jesus havia encontrado Pedro e os seus ajudantes lavando as redes, depois de uma noite de trabalho infrutífero. Deviam estar cansados, pois era um trabalho duro. As redes, de 400 a 500 metros – formadas por um sistema que constituía como que uma cortina de três malhas de três redes menores –, deviam ser lançadas ao fundo do lago; o trabalho exigia pelo menos quatro homens para lidar com cada rede.

Pedro diz ao Senhor que tinham estado trabalhando toda a noite e que não tinham conseguido nada. “A resposta de Simão parece razoável. Costumam pescar a essas horas e, precisamente naquela ocasião, a noite tinha sido infrutífera. Para que haviam de pescar de dia? Mas Pedro tem fé: Porém, sobre a tua palavra, lançarei a rede (Lc 5, 5). Resolve proceder como Cristo lhe sugeriu; compromete-se a trabalhar, fiado na Palavra do Senhor”3.

Apesar do cansaço, apesar de a ordem de pescar ter partido de quem não era homem do mar, e ter-se dirigido a uns pescadores que sabiam da inoportunidade da hora para essa tarefa e da ausência de peixes, tomam as redes nas mãos. Agora por pura confiança no Mestre, cuja autoridade e poder Pedro já conhecia. Pedro confia e obedece.

Em toda a ação apostólica, há dois requisitos indispensáveis: a fé e a obediência. De nada serviriam o esforço, os meios humanos, as noites em claro, se estivessem desligados do querer divino… Sem obediência, tudo é inútil diante de Deus. De nada serviria entregarmo-nos com brio e garra a um empreendimento apostólico se não contássemos com o Senhor. Até aquilo que é mais valioso nas nossas obras se tornaria estéril se prescindíssemos do desejo de cumprir a vontade de Deus. “Deus não necessita do nosso trabalho, mas da nossa obediência”4, ensina São João Crisóstomo com uma expressão terminante.

II. PEDRO FEZ O QUE O SENHOR lhe tinha mandado e recolheram tal quantidade de peixes que a rede se rompia. O fruto da tarefa que tem por norte a fé é abundantíssimo. Poucas vezes – talvez nenhuma – Pedro pescou tanto como naquela ocasião, quando todos os indícios humanos apontavam para a inutilidade da tarefa.

Este milagre encerra um ensinamento profundo: só quando se reconhece a inutilidade própria e se confia em Deus, sem deixar de empregar ao mesmo tempo todos os meios humanos disponíveis, é que o apostolado se torna eficaz e os frutos abundantes, pois “toda a fecundidade no apostolado depende da união vital com Cristo”5.

Jesus contempla naqueles peixes uma pesca que seria muito mais abundante ao longo dos séculos. Cada um dos seus discípulos seria um novo pescador que traria almas para o Reino de Deus. “E também nessa nova pesca não há de falhar a plena eficácia divina, pois todo o apóstolo é instrumento de grandes prodígios, apesar das suas misérias pessoais”6.

Pedro está atônito em face do milagre. Num instante compreende tudo: a onipotência e a sabedoria de Cristo, a chamada que lhe dirige e a sua própria indignidade. Logo que atracaram, lançou-se aos pés de Jesus e disse-lhe: Afasta-te de mim, Senhor, que sou um homem pecador. Reconhece a suma dignidade de Cristo e as suas próprias misérias, a sua falta de condições para levar a bom termo a missão que já pressente. O Senhor tira-lhe então todo o temor e revela-lhe com clareza meridiana o novo sentido da sua vida: Não temas, doravante serás pescador de homens. “A experiência da santidade de Deus e da nossa condição de pecadores não afasta o homem de Deus, mas aproxima-o dEle. Mais ainda, o homem convertido transforma-se em confessor e apóstolo. Sente as intenções de Deus como algo próximo e amável. E a sua vida assume um sentido mais pleno”7.

III. A CHAMADA DE DEUS – e Ele chama-nos a todos nós – é antes de mais nada iniciativa divina: Não fostes vós que me escolhestes, mas eu que vos escolhi a vós8. Exige, porém, a correspondência humana. E talvez percebamos que não somos dignos de estar tão perto de Cristo, ou que nos faltam condições para ser instrumentos da graça.

É a situação de cada homem que encontra, na profundidade da sua alma, uma chamada de Deus forte e imperiosa. Assim, o profeta Isaías – tal como nos apresenta a primeira Leitura da Missa9 –, ao experimentar a proximidade da majestade divina, exclama: Ai de mim, estou perdido porque sou um homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de lábios impuros, e, no entanto, os meus olhos viram o Rei, o Senhor do universo!

Deus sabe da nossa insignificância e, tal como purificou Isaías e tantos homens e mulheres que chamou ao seu serviço, limpará também os nossos lábios e o nosso coração. Um dos serafins voou em minha direção; trazia na mão um carvão em brasa, que tinha tomado do altar com uma tenaz. Aplicou-o sobre a minha boca e disse-me: Olha, este carvão tocou os teus lábios, o teu pecado desapareceu e a tua falta foi perdoada. Não devemos invocar nunca as nossas misérias como pretexto para fugir da missão que o Senhor nos confia, pois Ele nos purifica e nos torna aptos, desde que fomentemos em nós o espírito de contrição.

E eles – continua a narrar o Evangelho –, trazendo as barcas para terra, deixando todas as coisas, seguiram-no. Depois de terem contemplado Cristo, já não tinham muito em que pensar. Normalmente, as decisões firmes que transformam uma vida não são fruto de muitos cálculos. A vida de Pedro passaria a ter desde então um objetivo formidável: amar a Cristo e ser pescador de homens. Toda a sua existência seria meio e instrumento para esse fim. “O Senhor também fará de nós instrumentos capazes de realizar milagres, e até, se for preciso, dos mais extraordinários, se lutarmos diariamente por alcançar a santidade, cada um no seu próprio estado, dentro do mundo e no exercício da sua profissão, na vida normal e corrente”10.

O Senhor dirige-se a cada um de nós para que nos sintamos urgidos a segui-lo de perto, como discípulos fiéis no meio das nossas tarefas, e a realizar no nosso próprio ambiente um trabalho apostólico audaz, cheio de fé na palavra de Jesus: “«Duc in altum» – Mar adentro! – Repele o pessimismo que te faz covarde. «Et laxate retia vestra in capturam» – e lança as redes para pescar. – Não vês que podes dizer, como Pedro: «In nomine tuo, laxabo rete» – Jesus, em teu nome, procurarei almas?”11

Contemplando a figura de Pedro, não há dúvida de que nós também podemos dizer a Jesus: Afasta-te de mim, Senhor, que sou um pobre pecador. Mas, ao mesmo tempo, pedimos-lhe que nunca nos permita separar-nos dEle, que nos ajude a entrar a fundo – mar adentro – na sua amizade, na santidade, num apostolado aberto, sem respeitos humanos, cheio de fé, apoiados na voz do Senhor que, no silêncio da nossa oração pessoal, nos anima e nos insta a levar-lhe almas. “E, sem saberes por quê, dada a tua pobre miséria, os que te rodeiam virão ter contigo e, numa conversa natural, simples – à saída do trabalho, numa reunião familiar, no ônibus, ao dardes um passeio, em qualquer parte –, falareis de inquietações que existem na alma de todos, embora às vezes alguns não as queiram reconhecer: irão entendendo-as melhor quando começarem a procurar Deus a sério.

“Pede a Maria,Regina apostolorum, Rainha dos Apóstolos, que te decidas a participar nas ânsias de sementeira e de pesca que palpitam no Coração do seu Filho. Eu te asseguro que, se começares, verás a barca repleta, como os pescadores da Galiléia. E Cristo na margem, à tua espera. Porque a pesca é dEle”12.

(1) Lc 5, 1-11; (2) cfr. F. Fernández Carvajal, El Evangelio de San Lucas, 2ª ed., Palabra, Madrid, 1981, págs. 81-85; (3) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 261; (4) São João Crisóstomo, Homilias sobre São Mateus, 56, 5; (5) Conc. Vat. II, Decr. Apostolicam actuositatem, 4; (6) Josemaría Escrivá, op. cit.; (7) João Paulo II, Homilia, 6-II-1983; (8) Jo 15, 16; (9) Is 6, 1-8; (10) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 262; (11) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 792; (12) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, 273.