8º Domingo do tempo comum

8º Domingo do tempo comum

I. SÃO PAULO ENSINA-NOS na segunda Leitura da Missa1 que, quando o corpo ressuscitado e glorioso se revestir de imortalidade, a morte será definitivamente vencida. Poderemos perguntar então: Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Pois o aguilhão da morte é o pecado…

Foi o pecado que introduziu a morte no mundo. Quando Deus criou o homem, outorgou-lhe, além dos dons sobrenaturais, outros dons que aperfeiçoavam a natureza na sua própria ordem. Entre eles, o da imortalidade corporal, que os nossos primeiros pais deveriam transmitir juntamente com a vida à sua descendência. O pecado original trouxe consigo a perda da amizade com Deus e desse dom da imortalidade. A morte,estipêndio do pecado2, entrou então num mundo que fora concebido para a vida.

E chegou para todos: “Morre tanto o justo como o ímpio, o bom como o mau, o limpo como o sujo, quem oferece sacrifícios e quem não. A mesma sorte para o bom e para o que peca, para quem jura como para quem teme o juramento. Reduzem-se a pó e cinzas tanto os homens como os animais”3. Tudo o que é material acabará; cada coisa no seu devido tempo. O mundo corpóreo e tudo o que nele existe estão destinados a um fim. Nós também.

Com a morte, o homem perde tudo o que teve em vida. A quem só pensou em si mesmo, no seu bem-estar e comodidade, o Senhor dirá, tal como ao rico da parábola: Insensato!… De quem será aquilo que acumulaste?4 Cada um levará consigo somente o mérito das suas boas obras e a dívida dos seus pecados. Felizes os mortos que morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, que descansem dos seus trabalhos, pois as suas obras os acompanham5. Com a morte, a vontade fixa-se definitivamente no bem ou no mal: na amizade com Deus ou na recusa da sua misericórdia para todo o sempre.

A meditação do nosso final neste mundo leva-nos a reagir contra a tibieza, contra a possível má vontade nas coisas de Deus, contra o apegamento às coisas da terra, que mais cedo ou mais tarde teremos que deixar; ajuda-nos a compreender que esta vida é um breve tempo para merecer.

O materialismo, que nega a subsistência da alma após a morte, tenta tranqüilizar as consciências com o consolo de que sobreviverão nas obras que tenham deixado, bem como na memória e no afeto dos que ainda vivem no mundo. Esquecem que isso é um logro e um triste sucedâneo para as ânsias de eternidade que Deus pôs no coração humano.

Hoje detemo-nos a considerar que somos barro que perece, mas também que fomos criados para a eternidade, que a alma não morre nunca e que os nossos próprios corpos um dia ressuscitarão gloriosos, para se unirem novamente à alma. E isto cumula-nos de alegria e de paz, animando-nos a viver como filhos de Deus no mundo.

II. COM A RESSURREIÇÃO DE CRISTO, a morte foi vencida: já não escraviza o homem; é este que a tem sob as suas rédeas6. E alcançamos esta soberania na medida em que estamos unidos Àquele que possui as chaves da morte7.

Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre8. “Em Cristo, a morte perdeu o seu poder, o seu aguilhão foi-lhe arrebatado; a morte foi derrotada. Esta verdade da nossa fé pode parecer paradoxal quando à nossa volta ainda vemos homens angustiados pela certeza da morte e confundidos pelo tormento da dor. Certamente a dor e a morte desconcertam o espírito humano e continuam a ser um enigma para aqueles que não crêem em Deus, mas pela fé sabemos que serão vencidas, que a vitória já foi alcançada na morte e ressurreição de Jesus Cristo, nosso Redentor”9.

Para qualquer criatura, a morte é um transe difícil, mas, depois da Redenção operada por Cristo, esse momento tem um significado completamente diferente. Já não é apenas o duro tributo que todos os homens devem pagar pelo pecado, nem apenas a justa pena pela culpa; é sobretudo o ponto culminante da entrega nas mãos do nosso Redentor, a passagem deste mundo para o Pai10, a entrada numa nova vida de felicidade eterna. Se formos fiéis a Cristo, poderemos dizer um dia com o Salmista: Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois Tu estás comigo11.

Esta serenidade e este otimismo com relação ao momento final nascem da firme esperança em Jesus Cristo, que quis assumir a natureza humana integramente, à exceção do pecado12, para destruir pela sua morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o diabo, e livrar aqueles que pelo temor da morte estavam sujeitos à escravidão13. Por isso Santo Agostinho ensina que “a nossa herança é a morte de Cristo”14: por ela podemos alcançar a Vida.

A incerteza do nosso fim deve incitar-nos a confiar na misericórdia divina e a ser muito fiéis à nossa vocação de cristãos, consumindo a nossa vida a serviço de Deus e da Igreja onde quer que estejamos. Devemos ter sempre presente, sobretudo quando chegar o último momento, que o Senhor é um bom Pai, cheio de ternura para com os seus filhos. É o nosso Pai-Deus quem nos dará as boas-vindas! É Cristo quem nos dirá: Vem, bendito de meu Pai…!

A amizade com Jesus Cristo, o sentido cristão da vida, a certeza de que somos filhos de Deus, permitir-nos-ão encarar e aceitar a morte com serenidade: será o encontro de um filho com seu Pai, a quem procurou servir ao longo desta vida. Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois Tu estás comigo.

III. A IGREJA RECOMENDA-NOS que meditemos com freqüência nos novíssimos– nos últimos fins do homem –, pois tiramos muitos frutos dessa consideração. O pensamento da brevidade da vida não nos afasta dos assuntos que o Senhor pôs em nossas mãos: a família, o trabalho, as aspirações nobres… Pelo contrário, ajuda-nos a encarar todas as nossas responsabilidades com entusiasmo, a santificar todas as realidades terrenas, pois é com elas que se ganha o Céu. Não tenhamos, pois, o receio de pensar na morte, pois assim teremos uma visão equilibrada da vida.

O Senhor apresentar-se-á talvez quando menos o pensarmos: virá como o ladrão pela calada da noite15, e deve achar-nos preparados, vigilantes, desprendidos do que é terreno. Agarrar-se às coisas daqui de baixo quando teremos que deixá-las tão cedo seria um grave erro. Devemos viver com os pés no chão, mas não podemos esquecer que somos caminhantes que avançam com os olhos postos em Cristo e no seu Reino, que será o definitivo. Cada manhã damos um passo mais em direção a Ele, cada tarde nos encontramos mais perto dEle. Por isso devemos viver como se o Senhor fosse chamar-nos imediatamente.

A incerteza em que Deus quis deixar o fim da nossa vida terrena ajuda-nos a viver cada dia como se fosse o último, sempre dispostos e preparados para “mudar de casa”16.

Esse dia “não pode estar muito longe”17; qualquer dia pode ser o último. Hoje morreram milhares de pessoas em circunstâncias diversíssimas; muitas, possivelmente, nunca imaginaram que já não teriam tempo para merecer. Cada um dos nossos dias deve, pois, ser encarado como uma folha em branco em que podemos escrever coisas maravilhosas ou que podemos encher de erros e borrões. E não sabemos quantas páginas faltam para o fim do livro – que um dia o Senhor lerá.

A amizade com Jesus Cristo, o amor à nossa Mãe Santa Maria, o sentido cristão com que nos esforcemos por viver, hão de permitir-nos encarar com serenidade o nosso encontro definitivo com Deus. São José, advogado da boa morte, que teve ao seu lado a doce companhia de Jesus e de Maria na hora da sua passagem deste mundo, ensinar-nos-á a preparar dia a dia esse encontro inefável com o nosso Pai-Deus.

São Paulo despede-se dos primeiros cristãos de Corinto com umas consoladoras palavras que a primeira Leitura nos recorda. Podemos considerá-las como dirigidas particularmente a cada um de nós: Assim, pois, irmãos meus muito amados, mantende-vos firmes, inabaláveis, progredindo sempre na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor.

Para terminarmos a nossa oração, recorremos à Virgem Santíssima: Ó Mãe nossa, alcançai-nos do vosso Filho a graça de termos sempre presente a meta do Céu em todos os nossos afazeres: que trabalhemos sempre com os olhos postos na eternidade. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém.

(1) 1 Cor 15, 54-58; (2) Rom 6, 23; (3) São Jerônimo, Epístola 39, 3; (4) Lc 12, 20-21; (5) Apoc 14, 13; (6) 1 Cor 3, 2; (7) Apoc 1, 18; (8) Jo 11, 25-26; (9) João Paulo II, Homilia, 16-II-1981; (10) cfr. Jo 13, 1; (11) Sl 22, 4; (12) cfr. Hebr 4, 15; (13) Hebr 2, 14-15; (14) Santo Agostinho, Epístola 2, 94; (15) 1 Tess 5, 2; (16) cfr. Josemaría Escrivá, Caminho, n. 774; (17) São Jerônimo, Epístola 60, 14.