A tarefa salvadora da Igreja

A tarefa salvadora da Igreja

Gêneses narra que, vendo o Senhor como crescia a maldade do homem e como o seu modo de pensar era sempre perverso, se arrependeu de tê-lo criado e pensava em varrê-lo da superfície da terra1. Mas uma vez mais a sua paciência se pôs de manifesto e decidiu salvar o gênero humano na figura de Noé. O Senhor disse a Noé: Entra na arca com toda a tua família, pois és o único justo que encontrei na tua geração. Depois veio o Dilúvio com que Deus castigou os homens pela sua má conduta.

Os Padres da Igreja viram em Noé a figura de Jesus Cristo, que havia de ser o princípio de uma nova criação. Na arca vislumbraram a imagem da Igreja, que navega nas águas deste mundo e acolhe todos os que querem salvar-se2.

Santo Agostinho comenta: “No símbolo do Dilúvio, em que os justos foram salvos na arca, está profetizada a futura Igreja, que salva da morte neste mundo por meio de Cristo e do mistério da Cruz”3.

Antes da sua Ascensão aos céus, o Senhor confiou aos Apóstolos os seus próprios poderes com vistas à salvação do mundo4. O Mestre falou-lhes com a majestade própria de Deus: Todo o poder me foi dado no céu e na terra. Ide, pois, e fazei todos os povos meus discípulos…; e a Igreja começou imediatamente a exercer o seu poder salvador com autoridade divina.

Imitando a vida de Cristo, que passou fazendo o bem5, confortando, ensinando, curando, a Igreja procura fazer o bem onde quer que esteja. Ao longo da história, têm sido muitas as iniciativas dos cristãos e de variadíssimas instituições da Igreja destinadas a remediar os males dos homens, a prestar uma ajuda humana aos necessitados, aos doentes, aos refugiados, etc. Essa ajuda humana é e será sempre grande, mas é, ao mesmo tempo, muito secundária; pela missão recebida de Cristo, a Igreja aspira a muito mais: a dar aos homens a doutrina de Cristo e a levá-los à salvação. “E a todos – tanto aos necessitados de uma ou de outra forma, como aos que pensam estar gozando da plenitude dos bens da terra –, a Igreja vem confirmar-lhes uma só coisa essencial, definitiva: que o nosso destino é eterno e sobrenatural, que só em Jesus Cristo nos salvamos para sempre, e que só nEle alcançaremos já de alguma forma nesta vida a paz e a felicidade verdadeiras”6.

II. A PESSOA DO SUMO PONTÍFICE, a sua tarefa a serviço da Igreja universal, a ajuda que lhe prestam os seus colaboradores mais diretos, devem ocupar diariamente um lugar primordial nas nossas orações: Dominus conservet eum, et vivificet eum, et beatum faciat eum in terra, et non tradat eum in animam inimicorum eius7, ensina-nos a pedir a liturgia. “Que o Senhor o conserve, e lhe dê vida, e o faça feliz na terra, e não o deixe cair nas mãos dos seus inimigos”.

O peso que o Vigário de Cristo deve carregar sobre os ombros com solicitude paternal é esmagador. Basta que nos detenhamos a considerar a resistência com que é combatido pelos inimigos da fé; basta que nos apercebamos da pressão que exercem contra a sua autoridade os que abominam o ímpeto apostólico dos cristãos, para nos sentirmos urgidos a pedir ardentemente ao Senhor que conserve o Sumo Pontífice, que o vivifique com o seu alento divino, que o faça santo e o encha dos seus dons, que o proteja de modo especialíssimo.

No Evangelho da Missa de hoje8, o Senhor pede aos seus discípulos que estejam alerta e se resguardem de um fermento: o dos fariseus e o de Herodes. Não se refere aqui ao fermento bom que os seus discípulos estão chamados a ser, mas a outro, capaz também de transformar a massa por dentro, mas para o mal. A hipocrisia farisaica e a vida desregrada de Herodes, que só se movia por ambições pessoais, eram um mau fermento que contagiava a massa de Israel, corrompendo-a.

Nós temos o gratíssimo dever de rezar diariamente para que todos os fiéis cristãos sejam verdadeiro fermento no meio de um mundo afastado de Deus, que a Igreja pode salvar. “Estes tempos são tempos de prova e devemos pedir ao Senhor – com um clamor que não cesse (cfr. Is 58, 1) – que os encurte, que olhe com misericórdia para a sua Igreja e conceda novamente luz sobrenatural às almas dos pastores e às de todos os fiéis”9. Não podemos negligenciar este dever filial para com a nossa Mãe a Igreja, misteriosamente necessitada de proteção e de ajuda: “Ela é Mãe…, e uma mãe deve ser amada”10.

mau fermento da doutrina adulterada e dos maus exemplos, ampliados e difundidos por pessoas sectárias, causa um grande mal às almas. Sempre que nos encontremos perante surtos violentos de falsa doutrina, perante situações claramente escandalosas, devemos perguntar-nos no nosso exame de consciência: Que fiz eu para semear a boa doutrina? Que faço para que os meus filhos, os meus irmãos, os meus amigos adquiram a doutrina de Jesus Cristo? Qual é a qualidade da minha oração e da minha mortificação pela Igreja?

Devemos pedir também por todos os Pastores da Igreja de Deus: pelos bispos que cerram fileiras em torno do Papa. É antiquíssima a oração com que os fiéis rezam pelo bispo do lugar: Stet et pascat in fortitudine tua, Domine, in sublimitate nominis tui. “Esteja e apascente na tua fortaleza, Senhor, na sublimidade do teu nome”. Os Pastores da Igreja têm sempre uma grande necessidade do favor divino para levarem adiante a sua missão. Temos a responsabilidade de ajudá-los e para isso pedimos a Deus que os sustente e os ajude a apascentar o seu rebanho com fortaleza divina e com a suavidade e a altíssima sabedoria que vem do Céu.

Todos os dias, na Santa Missa, com estas ou outras palavras das demais Orações Eucarísticas, o sacerdote reza: “Pela vossa Igreja dispersa pelo mundo inteiro: concedei-lhe paz e proteção, unindo-a num só corpo e governando-a por toda a terra […]. Pelo vosso servo o Papa…, pelo nosso bispo…, e por todos os que guardam a fé que receberam dos Apóstolos”11. Unindo-nos ao sacerdote, podemos assim rezar pelas intenções do Papa e dos bispos, pelos sacerdotes, pelos religiosos e por todo o Povo de Deus; como também por aquele que, dentro do Corpo Místico de Cristo, esteja nesse momento mais necessitado de auxílio. Assim viveremos com naturalidade o dogma da Comunhão dos Santos.

III. NUMA CARTA de São João Leonardi ao Papa Paulo V (1605-1621) – que lhe pedia alguns conselhos para revitalizar o Povo de Deus –, o Santo dizia: “Quanto a estes remédios, já que hão de ser comuns a toda a Igreja […], seria preciso fixar a atenção antes de mais nada em todos aqueles que estão à testa dos outros, para que assim a reforma começasse pelo ponto a partir do qual deve estender-se às demais partes do corpo. Seria necessário pôr um grande empenho em que os cardeais, os patriarcas, os arcebispos, os bispos e os párocos, aos quais se confiou diretamente a cura de almas, fossem tais que se lhes pudesse confiar com toda a segurança o governo da grei do Senhor”12. Não deixemos de pedir cada dia pela santidade de todos eles: que amem cada dia mais a Jesus presente na Sagrada Eucaristia, que rezem com uma piedade cada vez maior à Santíssima Virgem, que sejam fortes, caritativos, que tenham um grande amor pelos doentes e pelos necessitados, que cuidem com esmero do ensino do Catecismo, que dêem um testemunho claro de desprendimento e de sobriedade…

Mas a Igreja somos todos os batizados, e todos somos instrumentos de salvação para os outros quando procuramos permanecer unidos a Cristo no cumprimento fiel dos nossos deveres religiosos: a Santa Missa, a oração, os atos de presença de Deus durante o dia…; quando somos exemplares no cumprimento dos nossos deveres profissionais, familiares, cívicos; quando nos empenhamos numa ação apostólica eficaz na trama de relações em que decorre a nossa vida.

Avivemos a nossa fé. O Povo de Deus – ensina o Concílio Vaticano II – deve abarcar o mundo inteiro, reunindo todos os homens dispersos, desorientados. E para isso Deus enviou o seu Filho, constituído herdeiro universal, a fim de que fosse o nosso Mestre, Sacerdote e Rei13. Podemos hoje recordar o Salmo II, que proclama a realeza de Cristo, e pedir a Deus Pai que sejam muitas as almas em que o Senhor reine, muitos os povos que acolham a palavra de salvação que a Igreja proclama, já que também a ela – como nos recorda a Constituição Lumen gentium – foram dadas em herança todas as nações14.

(1) Gên 6, 5-8; 7, 1-5, 10; Primeira leitura da Missa da terça-feira da sexta semana do TC, ano ímpar; (2) At 2, 40; (3) Santo Agostinho, De catechizandis rudibus, 18; (4) Mt 28, 18-20; (5) cfr. At 10, 38; (6) Josemaría Escrivá, Amar a Igreja, pág. 27; (7) Enchiridion Indulgentiarum, 1986; Aliae concessiones, n. 39; (8) Mc 8, 14-21; (9) Josemaría Escrivá, op. cit., pág. 55; (10) João Paulo II, Homilia, 7-XI-1982; (11) Missal Romano, Ordinário da Missa. Cânon Romano; (12) São João Leonardi, Cartas ao Papa Paulo V para a reforma da Igreja; (13) Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 13; (14) cfr. ib.