Chamados a santidade – sábado | 1ª semana da quaresma

Chamados a santidade – sábado | 1ª semana da quaresma

Sede, pois perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito1. Assim termina o Evangelho da Missa de hoje. Nestes quarenta dias de preparação para a Páscoa, a Igreja recorda-nos de muitas maneiras que o Senhor espera muito mais de nós: uma preocupação séria pela santidade.

Sede perfeitos… E o Senhor dirige-se não somente aos Apóstolos, mas a todos os que de verdade queiram ser seus discípulos. O Evangelho menciona expressamente que quando Jesus terminou estes discursos, a multidão ficou impressionada com a sua doutrina2. Essa multidão que o escutava devia estar formada por mães de família, pescadores, artesãos, doutores da lei, jovens… Todos o entendem e ficam impressionados, porque o Senhor se dirige a todos.

O Mestre chama à santidade sem distinção de idade, profissão, raça ou condição social. Não há seguidores de Cristo sem vocação cristã, sem uma chamada pessoal à santidade. Deus nos escolheu para sermos santos e imaculados na sua presença3, repetirá São Paulo aos primeiros cristãos de Éfeso; e para conseguirmos esta meta, é necessário que nos empenhemos num esforço que se prolongará por todos os nossos dias aqui na terra: O justo justifique-se mais e o santo mais e mais se santifique4.

Esta doutrina do chamamento universal à santidade é, desde 1928, por inspiração divina, um dos pontos centrais da pregação de Mons. Josemaría Escrivá, que voltou a recordar nos nossos tempos que o cristão, pelo seu batismo, é chamado à plenitude da vida cristã, à santidade. E o Concílio Vaticano II anunciou a toda a Igreja essa velha doutrina evangélica: o cristão é chamado à santidade no lugar que ocupa na sociedade: “Todos os cristãos, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor, cada um no seu caminho, à perfeição da santidade pela qual é perfeito o próprio Pai”5.Todos e cada um dos cristãos.

O Senhor convida todos os cristãos que estão absorvidos nas suas ocupações profissionais a encontrá-lo precisamente nessas ocupações, realizando-as com perfeição humana e, ao mesmo tempo, com sentido sobrenatural: oferecendo-as a Deus, vivendo nelas a caridade e o espírito de sacrifício, elevando no meio delas o coração a Deus…

Hoje podemos perguntar-nos na nossa oração com o Senhor se lhe agradecemos freqüentemente esta chamada que nos convida a segui-lo de perto, se correspondemos às graças recebidas mediante uma luta interior clara e vibrante por adquirir virtudes, se estamos vigilantes para não pactuar com o aburguesamento que mata os desejos de santidade e deixa a alma sumida na mediocridade espiritual e na tibieza. Não basta querermos ser bons: temos de esforçar-nos decididamente por ser santos.

II. SEDE, POIS, PERFEITOS como vosso Pai celestial é perfeito. A santidade – amor crescente por Deus e pelos outros por Deus – pode e deve ser adquirida através das coisas de todos os dias, que se repetem muitas vezes numa aparente monotonia. “Para amar a Deus e servi-lo, não é necessário fazer coisas estranhas. Cristo pede a todos os homens sem exceção que sejam perfeitos como seu Pai celestial é perfeito (Mt V, 48). Para a grande maioria dos homens, ser santo significa santificar o seu próprio trabalho, santificar-se no trabalho e santificar os outros com o trabalho, e assim encontrar a Deus no caminho da vida”6.

Para que o trabalho possa converter-se em meio de santidade, é necessário que seja humanamente bem feito, pois não podemos oferecer a Deus nada de defeituoso, porque não seria aceito7. Um trabalho bem realizado exige não só que cuidemos dos pequenos deveres próprios de qualquer profissão, mas ainda que pratiquemos fidelissimamente a virtude da justiça para com as outras pessoas e para com a sociedade: que retifiquemos prontamente os erros que tenhamos cometido em relação às pessoas com quem ou para quem trabalhamos; que nos esforcemos constantemente por melhorar a nossa competência profissional. São aspectos que devem ter muito presentes tanto o empresário como o operário ou o estudante, o médico ou a mãe de família que se dedica ao cuidado da casa.

Santificar-se no trabalho significa convertê-lo em ocasião e lugar de trato com Deus. Para isso, podemos oferecer ao Senhor as nossas tarefas antes de começá-las, e depois renovar esse oferecimento com freqüência, aproveitando uma ou outra circunstância. Ao longo das nossas horas de trabalho, sempre se apresentarão ocasiões de procurar ou aceitar pequenos sacrifícios que enriquecem a vida interior e a própria tarefa que nos ocupa; como também surgirão inúmeras ocasiões de praticar as virtudes humanas (a laboriosidade, a tenacidade, a alegria…), bem como as sobrenaturais (a fé, a esperança, a caridade, a prudência…).

Por último, o trabalho pode e deve ser meio de dar a conhecer a figura e a doutrina de Cristo a muitas pessoas. Há profissões que têm uma repercussão imediata na vida social: as tarefas de docência, as que se relacionam com os meios de informação, os cargos públicos… Mas não existem tarefas que não tenham nada a ver com a doutrina de Jesus Cristo. Mesmo os problemas especificamente técnicos de uma empresa ou as ocupações de uma mãe de família no seu lar podem ter soluções diversas, por vezes radicalmente diversas, conforme se tenha uma visão pagã ou cristã da vida. Um homem sem fé terá sempre uma visão incompleta do mundo, e o estilo cristão de comportar-se, se por vezes pode chocar com as modas do momento, com as práticas correntes entre colegas de uma mesma profissão, pode oferecer-nos, precisamente por isso, ocasiões especialmente propícias para darmos a conhecer a figura de Cristo, sendo exemplares na maneira cristã de atuar e conduzindo-nos com naturalidade e firmeza.

O mundo necessita de Deus, tanto mais quanto mais afirma que não necessita dEle. Nós, cristãos, esforçando-nos por seguir a Cristo seriamente, temos por missão dá-lo a conhecer. “Um segredo. – Um segredo em voz alta: estas crises mundiais são crises de santos. – Deus quer um punhado de homens «seus» em cada atividade humana. – Depois… «pax Christi in regno Christi» – a paz de Cristo no reino de Cristo”8.

Santificar o trabalho. Santificar-se no trabalho. Santificar os outros com o trabalho.

III. OS PRIMEIROS CRISTÃOS superaram muitos obstáculos através do seu esforço e do seu amor por Cristo, e mostraram-nos o caminho: a firmeza com que perseveraram na doutrina do Senhor levou de vencida a atmosfera materialista e freqüentemente hostil que os rodeava. Inseridos no seio de uma sociedade pagã, não procuraram no isolamento o remédio contra um possível contágio e a sua própria sobrevivência. Estavam plenamente convencidos de serem fermento de Deus, e a sua ação silenciosa mas eficaz acabou por transformar aquela massa informe. “Souberam sobretudo estar serenamente presentes no mundo, sem desprezar os seus valores nem as realidades terrenas. E esta presença – “já ocupamos o mundo e todas as vossas coisas”, proclamava Tertuliano –, uma presença que se estendia a todos os ambientes, que se interessava por todas as realidades honestas e valiosas, impregnou-as de um espírito novo”9.

O cristão, com a ajuda de Deus, procurará tornar nobre e valioso o que é vulgar e corrente, esforçar-se-á por converter tudo o que toca não tanto em ouro, como na lenda do rei Midas, mas em graça e glória. A Igreja recorda-nos a necessidade urgente de estarmos presentes no meio do mundo, para reconduzir a Deus todas as realidades terrenas. Isto só será possível se nos mantivermos unidos a Deus mediante a oração e os sacramentos. Como os ramos estão unidos à videira10, assim devemos nós estar unidos ao Senhor em todos os instantes.

“São necessários arautos do Evangelho, peritos em humanidade, que conheçam a fundo o coração do homem de hoje, participem das suas alegrias e esperanças, das suas angústias e tristezas, e ao mesmo tempo sejam contemplativos, enamorados de Deus. Para isso são precisos novos santos. Devemos suplicar ao Senhor que aumente o espírito de santidade na Igreja e nos envie santos para evangelizar o mundo de hoje”11. Destas palavras do Papa fazia-se eco o Sínodo Extraordinário dos Bispos, no seu balanço global sobre a situação da Igreja: “Hoje em dia, precisamos de pedir a Deus – com força, com assiduidade – santos”12.

O cristão deve ser “outro Cristo”. Esta é a grande força do testemunho cristão. De Jesus se dizia, como resumo da sua vida, que passou pela terra fazendo o bem13, e isso deveria dizer-se de cada um de nós, se de verdade queremos imitá-lo. “O Senhor Jesus, Mestre e Modelo divino de toda a perfeição, pregou a todos e cada um dos discípulos, de qualquer condição, a santidade de vida da qual Ele mesmo é o autor e o consumador: Sede, pois, perfeitos […]. É assim evidente que todos os fiéis cristãos de qualquer estado ou condição de vida são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Por esta santidade, promove-se também na sociedade terrestre um modo mais humano de viver”14.

(1) Mt 5, 48; (2) Mt 7, 28; (3) Ef 1, 4; (4) Apoc 22, 11; (5) Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 11; (6) Josemaría Escrivá, Questões atuais do cristianismo, 3ª ed., Quadrante, São Paulo, 1986, n. 55; (7) cfr. Lev 22, 20; (8) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 301; (9) J. Orlandis, La vocación cristiana del hombre de hoy, 3ª ed., Rialp, Madrid, 1973, pág. 48; (10) cfr. Jo 15, 1-7; (11) João Paulo II, Discurso, 11-X-1985; (12) Sínodo extraordinário dos Bispos, 1985, Relação final, II, A, n. 4; (13) At 10, 38; (14) Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 40.

Fonte: Livro de meditações – Falar com Deus