03 de Abril de 2020

5a Semana da Quaresma Sexta-feira

- por Padre Alexandre Fernandes

SEXTA FEIRA DA V SEMANA DA QUARESMA

(Roxo, pref. Paixão I – ofício do dia)

 

Antífona da entrada

 

– Tende piedade de mim, Senhor, a angustia me oprime. Libertai-me das mãos dos inimigos e livrai-me daqueles que me perseguem. Não serei confundido, Senhor, porque vos chamo (Sl 30,10.16.18).

 

Oração do dia

 

– Perdoai, ó Deus, nós vos pedimos, as culpas do vosso povo. E, na vossa bondade, desfazei os laços dos pecados que em nossa fraqueza cometemos. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

1ª Leitura: Jr 20,10-13

 

– Leitura do livro do profeta Jeremias: 10Eu ouvi as injúrias de tantos homens e os vi espalhando o medo em redor: “Denunciai-o, denunciemo-lo”. Todos os amigos observam minhas falhas: “Talvez ele cometa um engano e nós poderemos apanhá-lo e desforrar-nos dele”. 11Mas o Senhor está ao meu lado, como forte guerreiro; por isso, os que me perseguem cairão vencidos. Por não terem tido êxito, eles se cobrirão de vergonha. Eterna infâmia, que nunca se apaga! 12Ó Senhor dos exércitos, que provas o homem justo e vês os sentimentos do coração, rogo-te me faças ver tua vingança sobre eles; pois eu te declarei a minha causa. 13Cantai ao Senhor, louvai ao Senhor, pois ele salvou a vida de um pobre homem das mãos dos maus.

– Palavra do Senhor.

– Graças a Deus.

 

Salmo Responsorial: Sl 18,2-3a.3b-4.5-6.7 (R: 7)

 

– Ao Senhor eu invoquei na minha angústia e ele escutou a minha voz.
R: Ao Senhor eu invoquei na minha angústia e ele escutou a minha voz.

– Eu vos amo, ó Senhor! Sois minha força, minha rocha, meu refúgio e Salvador!

R: Ao Senhor eu invoquei na minha angústia e ele escutou a minha voz.

– Meu Deus, sois o rochedo que me abriga, minha força e poderosa salvação, sois meu escudo e proteção: em vós espero! Invocarei o meu Senhor: a ele a glória! e dos meus perseguidores serei salvo!

R: Ao Senhor eu invoquei na minha angústia e ele escutou a minha voz.

– Ondas da morte me envolveram totalmente, e as torrentes da maldade me aterraram; os laços do abismo me amarraram e a própria morte me prendeu em suas redes!

R: Ao Senhor eu invoquei na minha angústia e ele escutou a minha voz.

– Ao Senhor eu invoquei na minha angústia e elevei o meu clamor para meu Deus; de seu Templo ele escutou a minha voz, e chegou a seus ouvidos o meu grito!

R: Ao Senhor eu invoquei na minha angústia e ele escutou a minha voz.
 

Evangelho de Jesus Cristo, segundo João: Jo 10,31-42

 

Glória a Cristo, palavra eterna do Pai que é amor!

Glória a Cristo, palavra eterna do Pai que é amor!

 

– Senhor, tuas palavras são espírito, são vida; só tu tens palavra de vida eterna! (Jo 6,63.68)

 

Glória a Cristo, palavra eterna do Pai que é amor!

 

– O Senhor esteja convosco.

– Ele está no meio de nós.

– Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo † segundo João

– Glória a vós, Senhor!  

 

Naquele tempo, 31os judeus pegaram pedras para apedrejar Jesus. 32E ele lhes disse: “Por ordem do Pai, mostrei-vos muitas obras boas. Por qual delas me quereis apedrejar?” 33Os judeus responderam: “Não queremos te apedrejar por causa das obras boas, mas por causa de blasfêmia, porque sendo apenas um homem, tu te fazes Deus!” 34Jesus disse: “Acaso não está escrito na vossa Lei: ‘Eu disse: vós sois deuses’?  35Ora, ninguém pode anular a Escritura: se a Lei chama deuses as pessoas às quais se dirigiu a palavra de Deus, 36por que então me acusais de blasfêmia, quando eu digo que sou Filho de Deus, eu a quem o Pai consagrou e enviou ao mundo? 37Se não faço as obras do meu Pai, não acrediteis em mim. 38Mas, se eu as faço, mesmo que não queirais acreditar em mim, acreditai nas minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em mim e eu no Pai”. 39Outra vez procuravam prender Jesus, mas ele escapou das mãos deles. 40Jesus passou para o outro lado do Jordão, e foi para o lugar onde, antes, João tinha batizado. E permaneceu ali. 41Muitos foram ter com ele, e diziam: “João não realizou nenhum sinal, mas tudo o que ele disse a respeito deste homem, é verdade”. 42E muitos, ali, acreditaram nele.
 

– Palavra da salvação.

– Glória a vós, Senhor!  

São Ricardo, santificou nos mosteiros

- por Padre Alexandre Fernandes

Com alegria contemplamos a vida de santidade do nosso irmão da fé São Ricardo, que hoje brilha no Céu como intercessor de todos os irmãos que peregrinam na Igreja terrestre.

Nascido em 1197, era pobre, teve dificuldade de estudar e perdeu muito cedo seus pais. No seu tempo, Ricardo começou a ver a ignorância e superstição; ambição dos nobres; luxo do clero; regalismo do trono e decadência da vida monástica. Diante de sua realidade, não se entregou a murmurações e desânimos, mas como professor e reitor da Universidade de Oxford decidiu-se pela santidade, a fim de ser instrumento de renovação da Igreja na Inglaterra.

Unido aos frades franciscanos e dominicanos, Ricardo fez de tudo, – como leigo, sacerdote e bispo ordenado pelo Papa – para reverter a resistência do rei que não queria a sua ordenação e, de toda situação triste que acabava atingindo duramente o povo.

São Ricardo, até entrar na Casa do Pai com 56 anos, por dois anos coordenou sua diocese clandestinamente, visitando pobres, doentes e fazendo de tudo para evangelizar e ajudar na santificação dos mosteiros, clero e nobres ingleses, isto principalmente depois que o rei se dobrou sob ameaça de excomunhão do Papa.

São Ricardo, rogai por nós!

Meditação

- por Padre Alexandre Fernandes

TEMPO DA QUARESMA. QUINTA SEMANA. SEXTA-FEIRA

38. A ORAÇÃO EM GETSÊMANI

– Jesus em Getsêmani. Cumprimento da Vontade do Pai.

– Necessidade da oração para seguir de perto o Senhor.

– Primeiro mistério doloroso do Santo Rosário. A contemplação desta cena ajudar-nos-á a ser fortes no cumprimento da vontade de Deus.

I. DEPOIS DA ÚLTIMA CEIA, Jesus e os Apóstolos recitaram os salmos de ação de graças, como era costume. A seguir, a pequena comitiva dirigiu-se a um horto vizinho, chamado das Oliveiras. Jesus tinha prevenido Pedro e os demais Apóstolos de que, nessa noite, todos – de um modo ou de outro – o negariam deixando-o só.

Foram em seguida ao lugar chamado Getsêmani, e Jesus disse aos seus discípulos: Sentai-vos aqui enquanto vou orar. Levou consigo Pedro, Tiago e João; e começou a sentir pavor e a angustiar-se. Disse-lhes: A minha alma está triste até à morte; ficai aqui e vigiai1. Depois afastou-se deles à distância de um tiro de pedra2.

Jesus sente uma enorme necessidade de orar. Detém-se junto de uma pedra e cai abatido: Prostrou-se por terra, escreve São Marcos3. São Lucas diz: Ajoelhou-se4, e São Mateus pormenoriza: prostrou-se com a face por terra5, embora normalmente os judeus rezassem de pé.

Jesus dirige-se ao Pai com uma oração cheia de confiança e ternura, na qual se entrega totalmente a Ele: Meu Pai, diz-lhe, se é possível, afasta de mim este cálice. Não se faça, porém, como eu quero, mas como tu queres. Poucos minutos antes, tinha comunicado aos seus discípulos que se sentia possuído de uma tristeza capaz de lhe causar a morte. Assim sofre Jesus: Ele, que é a própria inocência, carrega sobre si o fardo de todos os pecados dos homens: dos já cometidos, dos que se estavam cometendo naquele momento e dos que se cometeriam até o fim dos tempos.

O Senhor não só se tornou fiador das culpas alheias, mas fez-se uma só coisa conosco, como acontece com a cabeça e o corpo: “Ele quis que as nossas culpas se chamassem suas; por isso não pagou somente com o seu sangue, mas com a vergonha desses pecados”6. Todas estas causas de sofrimento eram captadas em toda a sua intensidade pela alma de Cristo.

Contemplamos em silêncio como Jesus sofre: Entrando em agonia, orava mais intensamente7, e como chega a derramar um suor de sangue. “Jesus, só e triste, sofria e empapava a terra com o seu sangue. De joelhos sobre a terra dura, persevera em oração… Chora por ti… e por mim: esmaga-O o peso dos pecados dos homens”8. Mas a sua confiança no Pai não desfalece, e persevera na oração. Quando parece que o corpo não pode resistir mais, vem um anjo confortá-lo. A natureza humana do Senhor mostra-se nesta cena em toda a sua capacidade de sofrimento.

Na nossa vida, pode haver momentos de luta mais intensa, talvez de escuridão e de dor profunda, em que nos custe aceitar a vontade de Deus e sejamos assaltados pela tentação do desalento. A imagem de Cristo no Horto das Oliveiras há de mostrar-nos então o que devemos fazer: abraçar-nos à vontade de Deus, sem lhe estabelecer limites nem condições de tipo algum, e identificar-nos com o querer de Deus por meio de uma oração perseverante.

“Jesus ora no horto: Pater mi, meu Pai (Mt 26, 39), Abba, Pater, Abba, Pai! (Mc 14, 36). Deus é meu Pai, ainda que me envie sofrimento. Ama-me com ternura, mesmo que me fira. Jesus sofre, para cumprir a Vontade do Pai… E eu, que quero também cumprir a Santíssima Vontade de Deus, seguindo os passos do Mestre, poderei queixar-me se encontro por companheiro de caminho o sofrimento?”9

II. JESUS CONTEMPLA-NOS nessa noite num simples olhar. Vê as almas e os corações à luz da sua sabedoria divina. Desfila diante dos seus olhos o espetáculo de todos os pecados dos homens, seus irmãos. Vê a deplorável oposição de tantos que desprezam a reparação que oferece por eles, a inutilidade em tantos casos do seu sacrifício generoso. Sente uma grande solidão e dor moral pela rebeldia e falta de correspondência ao Amor divino.

Por três vezes procura a companhia na oração daqueles três discípulos. Velai comigo, ficai a meu lado, não me deixeis só, tinha-lhes pedido. E, voltando, achou-os de novo dormindo, pois tinham os olhos carregados e não sabiam o que responder-lhe10. No seu terrível desamparo, Jesus procura talvez um pouco de companhia, de calor humano. Mas os amigos abandonaram o Amigo. Era uma noite para permanecerem velando e orando; e dormem. Ainda não amam bastante, e são vencidos pela debilidade e pela tristeza, deixando Jesus sozinho. O Senhor não encontra apoio neles; tinham sido escolhidos para isso e falharam.

Temos de rezar sempre, mas há momentos em que essa oração deve intensificar-se. Abandoná-la equivaleria a deixar Cristo abandonado e ficar à mercê do inimigo. Por que dormis?, diz-lhes Jesus, e repete-o a cada um de nós. Levantai-vos e orai, para não cairdes em tentação11. Por isso dizemos ao Senhor: “Se vês que durmo, se descobres que a dor me assusta, se notas que fico paralisado ao ver de perto a Cruz, não me abandones! Diz-me, como a Pedro, como a Tiago, como a João, que necessitas da minha correspondência, do meu amor. Diz-me que, para seguir-te, para não tornar a abandonar-te às mãos dos que tramam a tua morte, tenho que vencer o sono, as minhas paixões, o comodismo”12.

A nossa meditação diária, se for verdadeira oração, manter-nos-á vigilantes diante do inimigo que não dorme. E dar-nos-á a coragem de que necessitamos para enfrentar e vencer as tentações e dificuldades. Quem a desleixa cai nas mãos do inimigo, perde a alegria e vê-se sem forças para acompanhar Jesus: “Sem oração, como é difícil acompanhá-Lo!”13; sabemo-lo por experiência. Mas, se nos fizermos fortes pelo nosso relacionamento diário com Ele, poderemos dizer-lhe sem hesitar: Ainda que seja preciso morrer contigo, não te negarei14. Pedro não pôde cumprir a sua promessa naquela noite, entre outros motivos porque não perseverou na oração que o Senhor lhe pedia.

III. A CONTEMPLAÇÃO desta cena da Paixão pode ajudar-nos muito a ser fortes para nunca omitirmos a nossa oração diária e para cumprirmos a Vontade de Deus nas coisas que nos custam. Senhor, não se faça como eu quero, mas como tu queres. “Jesus, o que Tu «quiseres»…, eu o amo”15, dizemos-lhe hoje com uma sinceridade total.

Os santos tiraram muito proveito para as suas almas desta passagem da vida do Senhor. São Tomas More comenta que a oração de Jesus no Horto de Getsêmani fortaleceu muitos cristãos diante de grandes dificuldades e tribulações. Ele também se fortaleceu com a contemplação dessas cenas, enquanto esperava o momento de ser decapitado pela sua fidelidade à fé. Escrevia na prisão: “Cristo sabia que muitas pessoas de constituição débil se encheriam de terror ante a ameaça de serem torturadas, e quis dar-lhes ânimo com o exemplo da sua dor, da sua própria tristeza, do seu abatimento e medo inigualáveis […].

“A quem estiver nessa situação, é como se Cristo se servisse da sua própria agonia para lhe falar com voz vivíssima: Tem coragem, tu que es débil e fraco, e não desesperes. Estás atemorizado e triste, abatido pelo cansaço e pelo temor do tormento. Tem confiança. Eu venci o mundo, e apesar disso sofri muito mais sob o medo, e estava cada vez mais atemorizado à medida que o sofrimento se avizinhava […].

“Olha como caminho à tua frente nesta via cheia de dores. Agarra-te à orla das minhas vestes e sentirás fluir delas um poder que não permitirá que o sangue do teu coração se derrame em vãos temores e angústias; o teu espírito ficará mais alegre, sobretudo quando te lembrares de que segues os meus passos muito de perto – sou fiel e não permitirei que sejas tentado além das tuas forças, antes te darei, juntamente com a prova, a graça necessária para suportá-la –, e alegra o teu ânimo quando te lembrares de que esta tribulação leve e momentânea se converterá num peso de glória imensa”16. Estas palavras foram escritas por alguém que sabia que seria executado poucos dias depois.

Nós podemos fazer hoje o propósito de contemplar muitas vezes, talvez todos os dias, este momento da vida do Senhor, no primeiro mistério doloroso do Santo Rosário. De modo particular, pode ser tema da nossa oração sempre que nos custe um pouco mais saber descobrir a vontade de Deus por trás de acontecimentos que talvez não entendamos. Podemos então rezar com freqüência estas palavras como jaculatória: “Volo quidquid vis, volo quia vis… Senhor, quero o que queres, quero porque o queres, quero como o queres, quero enquanto o quiseres”17.

18ª Semana do Tempo Comum