04 de Abril de 2020

5a Semana da Quaresma Sábado

- por Padre Alexandre Fernandes

SABADO DA V SEMANA DA QUARESMA

(Roxo, pref. paixão l – ofício do dia)

 

Antífona da entrada

 

– Ó Senhor, não fiques longe de mim! Ó minha força, correi em meu socorro! Sou um verme, e não um homem, opróbrio dos homens e rebotalho da plebe (Sl 21,20.7).

 

Oração do dia

 

– Ó Deus, vós sempre cuidais da salvação dos homens e, nesta Quaresma, nos alegrais com graças copiosas. Considerai com bondade aqueles que escolhestes, para que a vossa proteção paterna acompanhe os que se preparam para o batismo e guarde os que já foram batizados. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

1ª Leitura: Ez 37,21-28

 

– Leitura da profecia de Ezequiel: 21Assim diz o Senhor Deus: “Eu mesmo vou tomar os israelitas do meio das nações para onde foram, vou recolhê-los de toda parte e reconduzi-los para a sua terra. 22Farei deles uma nação única no país, nos montes de Israel, e apenas um rei reinará sobre todos eles. Nunca mais formarão duas nações, nem tornarão a dividir-se em dois reinos. 23Não se mancharão mais com os seus ídolos e nunca mais cometerão infames abominações. Eu os libertarei de todo o pecado que cometeram em sua infidelidade, e os purificarei. Eles serão o meu povo e eu serei o seu Deus.
24Meu servo Davi reinará sobre eles, e haverá para todos eles um único pastor. Viverão segundo meus preceitos e guardarão minhas leis, pondo-as em prática. 25Habitarão no país que dei a meu servo Jacó, onde moraram vossos pais; ali habitarão para sempre, também eles, com seus filhos e netos, e o meu servo Davi será o seu príncipe para sempre. 26Farei com eles uma aliança de paz, será uma aliança eterna. Eu os estabelecerei e multiplicarei, e no meio deles porei meu santuário para sempre. 27Minha morada estará junto deles. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. 28Assim as nações saberão que eu, o Senhor, santifico Israel, por estar o meu santuário no meio deles para sempre”.

– Palavra do Senhor.

– Graças a Deus.

 

Salmo Responsorial: Sl (Jr) 31, 10.11-12ab.13 (R: 10d)

 

– O Senhor nos guardará qual pastor a seu rebanho.
R: O Senhor nos guardará qual pastor a seu rebanho.

– Ouvi, nações, a palavra do Senhor e anunciai-a nas ilhas mais distantes: “Quem dispersou Israel, vai congregá-lo, e o guardará qual pastor a seu rebanho!”

R: O Senhor nos guardará qual pastor a seu rebanho.

– Pois, na verdade, o Senhor remiu Jacó e o libertou do poder do prepotente. Voltarão para o monte de Sião, entre brados e cantos de alegria afluirão para as bênçãos do Senhor:

R: O Senhor nos guardará qual pastor a seu rebanho.

– Então a virgem dançará alegremente, também o jovem e o velho exultarão; mudarei em alegria o seu luto, serei consolo e conforto após a guerra.

R: O Senhor nos guardará qual pastor a seu rebanho.
 

Evangelho de Jesus Cristo, segundo João: Jo 11,45-56

 

Salve, ó Cristo, imagem do Pai, a plena verdade nos comunicai!

Salve, ó Cristo, imagem do Pai, a plena verdade nos comunicai!

 

– Lançai para bem longe toda a vossa iniqüidade! Criai em vós um novo espírito e um novo coração!  (Ez 18,31)

 

Salve, ó Cristo, imagem do Pai, a plena verdade nos comunicai!

 

– O Senhor esteja convosco.

– Ele está no meio de nós.

– Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo † segundo João

– Glória a vós, Senhor!  

 

Naquele tempo, 45muitos dos judeus que tinham ido à casa de Maria e viram o que Jesus fizera, creram nele. 46Alguns, porém, foram ter com os fariseus e contaram o que Jesus tinha feito. 47Então os sumos sacerdotes e os fariseus reuniram o Conselho e disseram: “Que faremos? Este homem realiza muitos sinais. 48Se deixamos que ele continue assim, todos vão acreditar nele, e virão os romanos e destruirão o nosso Lugar Santo e a nossa nação”. 49Um deles, chamado Caifás, sumo sacerdote em função naquele ano, disse: “Vós não entendeis nada. 50Não percebeis que é melhor um só homem morrer pelo povo do que perecer a nação inteira?” 51Caifás não falou isso por si mesmo. Sendo sumo sacerdote em função naquele ano, profetizou que Jesus iria morrer pela nação. 52E não só pela nação, mas também para reunir os filhos de Deus dispersos. 53A partir desse dia, as autoridades judaicas tomaram a decisão de matar Jesus.  54Por isso, Jesus não andava mais em público no meio dos judeus. Retirou-se para uma região perto do deserto, para a cidade chamada Efraim. Ali permaneceu com os seus discípulos. 55A Páscoa dos judeus estava próxima. Muita gente do campo tinha subido a Jerusalém para se purificar antes da Páscoa. 56Procuravam Jesus e, ao reunirem-se no Templo, comentavam entre si: “Que vos parece? Será que ele não vem para a festa?”

 

– Palavra da salvação.

– Glória a vós, Senhor!  

Santo Isidoro

- por Padre Alexandre Fernandes

O santo de hoje é resultado de uma família de santos, gente que buscou a vontade de Deus em tudo.

Nasceu na Espanha no ano de 560, perdeu os pais muito cedo e ficou aos cuidados dos irmãos que, recebendo dos pais uma ótima formação cristã, puderam introduzir o pequeno Isidoro a este relacionamento com Deus.

Ele se deparou com muitos limites, por exemplo, nos estudos. E fugia desse compromisso.

No entanto, com a graça divina e o esforço humano, ele transcendeu e retomou os estudos, tornando-se um dos homens mais cultos, versados e reconhecido pela Igreja como doutor.

Santo Isidoro foi um homem humilde, de oração e penitência, que buscava a salvação das almas, a edificação das pessoas.

Com o falecimento de um irmão seu, foi eleito bispo em Sevilha, consumindo-se de amor a Cristo, no povo.

No dia 4 de abril de 636, sentindo que a morte estava se aproximando, dividiu seus bens com os pobres, publicamente pediu perdão para os seus pecados, recebeu pela última vez a eucaristia e, orando aos pés do altar, ali morreu.

Santo Isidoro, rogai por nós!

Meditação

- por Padre Alexandre Fernandes

TEMPO DA QUARESMA. QUINTA SEMANA. SÁBADO

39. A PRISÃO DE JESUS

– A traição de Judas. Perseverança no caminho que Deus estabeleceu para cada um. A fidelidade diária nas coisas pequenas.

– O pecado na vida do cristão. Retornar ao Senhor mediante a contrição e com esperança.

– A fuga dos discípulos. Necessidade da oração.

I. TERMINADA A SUA ORAÇÃO no Horto de Getsêmani, o Senhor levantou-se e despertou uma vez mais os discípulos, que dormiam de cansaço e de tristeza. Levantai-vos, vamos, diz-lhes, eis que chega aquele que vai entregar-me. Jesus ainda falava quando chegou Judas, um dos doze, e com ele uma multidão de gente armada de espadas e varapaus1.

Consuma-se a traição com um sinal de amizade: Aproximou-se de Jesus e disse-lhe: Salve, Mestre. E beijou-o2. Custa a crer que um homem que privara tanto com Cristo pudesse ser capaz de entregá-lo. Que foi que aconteceu na alma de Judas? Presenciara muitos milagres, conhecera de perto a bondade do coração do Senhor para com todos, sentira-se atraído pela sua palavra e, sobretudo, experimentara a predileção de Jesus, chegando a ser um dos doze mais íntimos. Fora escolhido e chamado pelo próprio Cristo para ser Apóstolo. Quando, depois da Ascensão, for preciso preencher a sua vaga, Pedro recordará que ele era um dos nossos e teve parte no nosso ministério3. Também fora enviado a pregar e vira o fruto copioso do seu apostolado; talvez tivesse feito milagres como os outros Apóstolos. E teria mantido diálogos íntimos e pessoais com o Mestre, como os outros. Que aconteceu na sua alma para que entregasse o Senhor por trinta moedas de prata?

A traição desta noite deve ter tido por trás uma longa história. Judas devia encontrar-se longe de Cristo já desde muito tempo antes, embora continuasse na sua companhia. Nada se passaria exteriormente, mas os seus pensamentos deviam andar longe. A fenda aberta na sua fé e na sua vocação, a ruptura com o Mestre, produziu-se provavelmente pouco a pouco, por uma cadeia de transigências em coisas cada vez mais importantes. Em certo momento, reclama porque lhe parecem excessivas as provas de afeto que os outros têm para com o Senhor, e ainda por cima disfarça o seu protesto invocando o amor aos pobres. Mas São João diz qual foi a verdadeira razão: era ladrão, e, como tinha a bolsa, furtava o que nela lançavam4.

Permitiu que o seu amor por Cristo se fosse esfriando e então ficou num mero seguimento externo. A sua vida de entrega amorosa a Deus converteu-se numa farsa; mais de uma vez deve ter considerado que teria sido muito melhor se não tivesse seguido o Senhor.

Agora já não se lembra dos milagres, das curas, dos seus momentos felizes ao lado do Mestre, da sua amizade com os Apóstolos. Agora é um homem desorientado, descentrado, capaz de cometer deliberadamente a loucura a que acaba de entregar-se. O ato que agora se consuma foi precedido por infidelidades e faltas de lealdade cada vez maiores. Este é o resultado último de um longo processo interior.

Por contraste, a perseverança é a fidelidade diária nas pequenas coisas, apoiada na humildade de recomeçar quando por fragilidade tenha havido algum extravio. “Uma casa não desaba por um movimento momentâneo. Na maioria dos casos, esse desastre é conseqüência de um antigo defeito de construção. Mas, por vezes, o que motiva a penetração da água é o prolongado desleixo dos moradores: a princípio, a água infiltra-se gota a gota e vai insensivelmente roendo o madeirame e apodrecendo a armação; com o decorrer do tempo, o pequeno orifício vai ganhando proporções cada vez maiores, ocasionando fendas e desmoronamentos consideráveis; por fim, a chuva penetra na casa como um rio caudaloso”5. Perseverar é responder positivamente às pequenas e constantes chamadas que o Senhor faz ao longo de uma vida, ainda que não faltem obstáculos e dificuldades e, às vezes, erros isolados, covardias e derrotas.

Enquanto contemplamos estas cenas da Paixão, examinemos como tem sido nos seus pequenos detalhes a nossa fidelidade à vocação de cristãos. Insinua-se em algum aspecto como que uma dupla vida? Sou fiel aos deveres do meu estado? Cuido de manter um relacionamento sincero com o Senhor? Evito o aburguesamento e o apego aos bens materiais – às trinta moedas de prata?

II. “O SENHOR NÃO PERDEU a ocasião de fazer o bem a quem lhe fazia mal. Depois de ter beijado sinceramente Judas, admoestou-o, não com a dureza que merecia, mas com a suavidade com que se trata um doente. Chamou-o pelo nome, o que é um sinal de amizade… Judas, com um beijo entregas o Filho do homem? (Lc 22, 48). Com manifestações de paz fazes-me a guerra? E, para levá-lo a reconhecer a sua culpa, fez-lhe ainda outra pergunta cheia de amor: Amigo, com que propósito vieste? (Mt 26, 50). Amigo, é maior a injúria que me fazes porque foste amigo, e por isso dói mais o mal que me fazes. Se o ultraje viesse de um inimigo, eu o teria suportado…, mas eras tu, meu companheiro, meu amigo íntimo, a quem me ligava amável companhia… (Sl 54, 13). Tu, que foste amigo e devias continuar a sê-lo! Por mim, podes sê-lo novamente. Eu estou disposto a sê-lo de ti. Amigo, ainda que não me queiras, Eu te quero. Amigo, por que fizeste isto, com que propósito vieste?”6

A traição consuma-se no cristão pelo pecado mortal. Qualquer pecado, mesmo venial, está íntima e misteriosamente relacionado com a Paixão do Senhor. A nossa vida ou é uma afirmação ou é uma negação de Cristo. Mas Ele está disposto a readmitir-nos sempre na sua amizade, mesmo depois das maiores infâmias que possamos cometer. Judas recusou a mão que o Senhor lhe estendia. A sua vida, sem Jesus, ficou desconjuntada e sem sentido.

Depois de entregá-lo, Judas deve ter seguido com profundo desassosego o desenrolar do processo contra Jesus. Em que acabaria tudo aquilo? Não demoraria a saber que os príncipes dos sacerdotes tinham decidido a morte do Senhor. Talvez não imaginasse que o desfecho pudesse ser tão grave, talvez tivesse visto o Mestre maltratado… O que sabemos com certeza é que vendo-o sentenciado, tomou-se de remorsos e foi devolver as trinta moedas de prata. Arrependeu-se da sua loucura, mas faltou-lhe a virtude da esperança – de que poderia conseguir o perdão – e a humildade para voltar a Cristo. Poderia ter sido um dos doze fundamentos da Igreja, apesar da sua enorme culpa, se tivesse pedido perdão a Deus.

O Senhor espera-nos, apesar dos nossos pecados e falhas, na oração confiante e na Confissão. “Aquele que antes da culpa nos proibiu de pecar, uma vez que a cometemos, não cessa de nos esperar para conceder-nos o perdão. Vede que nos chama precisamente Aquele que nós desprezamos. Afastamo-nos dEle, mas Ele não se afasta de nós”7.

Por muito grandes que sejam os nossos pecados, o Senhor espera-nos sempre para nos perdoar, e conta com a fraqueza humana, com os defeitos e os erros. Está sempre disposto a chamar-nos amigos, a dar-nos as graças necessárias para continuarmos em frente, se há sinceridade de vida e desejos de lutar. Ante o aparente fracasso de muitas das nossas tentativas, devemos lembrar-nos de que Deus não nos pede tanto o êxito, mas a humildade de recomeçar, sem nos deixarmos levar pelo desalento e pelo pessimismo, pondo em prática a virtude teologal da esperança.

III. EMOCIONA CONTEMPLAR nesta cena como Jesus está preocupado com os discípulos, quando era Ele quem corria perigo: Se é pois a mim que buscais, diz aos que acompanhavam Judas, deixai ir estes8. O Senhor cuida dos seus.

Prenderam-no então e conduziram-no à casa do príncipe dos sacerdotes9. São João diz que o ataram10. E fizeram-no certamente sem a menor consideração, com violência. A chusma vai empurrando-o entre gritos e insultos. Os discípulos, assustados e desnorteados, esquecem-se das suas promessas de fidelidade naquela Ceia memorável, e todos o abandonaram e fugiram11.

Jesus fica só. Os discípulos foram desaparecendo um após outro. “O Senhor foi flagelado, e ninguém o ajudou; foi cuspido, e ninguém o amparou; foi coroado de espinhos, e ninguém o protegeu; foi crucificado, e ninguém o desprendeu”12. Encontra-se só diante de todos os pecados e baixezas de todos os tempos. Ali estavam também os nossos.

Pedro seguia o Senhor de longe13. E, como ele mesmo deve ter compreendido logo depois das suas negações, não se pode seguir Jesus de longe. Também nós o sabemos. Ou se segue o Senhor de perto ou se acaba por negá-lo. “É suficiente mudar um advérbio na pequena frase do Evangelho para descobrir a origem das nossas deserções: quedas graves ou faltas ligeiras, relaxamentos passageiros ou longos períodos de tibieza. Sequebatur eum a longe: nós seguimo-lo de longe […]. A humanidade segue o Senhor com uma lentidão exasperante, porque há muitos cristãos que apenas o seguem de longe, de muito longe”14.

Mas agora asseguramos-lhe que queremos segui-lo de perto; queremos permanecer com Ele, não deixá-lo sozinho, mesmo nos momentos e nos ambientes em que não seja “popular” declarar-se seu discípulo. Queremos segui-lo de perto no meio do trabalho e do estudo, quando caminhamos pela rua e quando estamos no templo, na família, no meio de uma sã diversão. Mas sabemos que por nós mesmos nada podemos; com a nossa oração diária, sim.

Talvez algum dos discípulos tivesse ido procurar a Santíssima Virgem para lhe contar que tinham prendido o seu Filho. E Ela, apesar da sua imensa dor, transmitir-lhe-ia paz naquelas horas amargas. Também nós encontraremos refúgio nAquela que é Refugium peccatorum, se, apesar dos nossos bons desejos, nos tiver faltado coragem para defender o Senhor quando Ele contava conosco. Em Maria encontraremos as forças necessárias para permanecer ao lado do Senhor, com ânsias de desagravo e corredenção nos momentos difíceis.

18ª Semana do Tempo Comum