04 de Novembro de 2019

31ª semana comum Segunda-feira

- por Padre Alexandre Fernandes

SEGUNDA FEIRA – SÃO CARLOS BORROMEU – BISPO E AMIGO DOS POBRES

(branco, pref. comum ou dos pastores – ofício da memória )

 

Antífona da entrada

 

– Velarei, sobre as minhas ovelhas, diz o Senhor; chamarei um pastor que as conduza  e serei o seu Deus (Ez 34, 11.23-24).

 

Oração do dia

 

– Conservai, ó Deus, no vosso povo o espírito que animava São Carlos Borromeu, para que a vossa Igreja, continuamente renovada e sempre fiel ao Evangelho, possa mostrar ao mundo a verdadeira face do Cristo. Por nosso senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

1ª Leitura: Rm 11,29-36

 

– Leitura da carta de são Paulo aos Romanos: Irmãos, 29os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis. 30Outrora, vós fostes desobedientes a Deus, mas agora alcançastes misericórdia, em consequência da desobediência deles. 31Assim são eles agora os desobedientes, para que, em consequência da misericórdia usada convosco, alcancem finalmente misericórdia. 32Com efeito, Deus encerrou todos os homens na desobediência, a fim de exercer misericórdia para com todos. 33A profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são inescrutáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos! 34De fato, quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? 35Ou quem se antecipou em dar-lhe alguma coisa, de maneira a ter direito a uma retribuição? 36Na verdade, tudo é dele, por ele, e para ele. A ele, a glória para sempre. Amém!

 

– Palavra do Senhor.

– Graças a Deus.

 

Salmo Responsorial: Sl 69,30-31.33-34.36-37 (R: 14c)

 

– Respondei-me, ó Senhor, pelo vosso imenso amor!
R: Respondei-me, ó Senhor, pelo vosso imenso amor!

– Pobre de mim, sou infeliz e sofredor! Que vosso auxílio me levante, Senhor Deus! Cantando eu louvarei o vosso nome e agradecido exultarei de alegria!

R: Respondei-me, ó Senhor, pelo vosso imenso amor!

– Humildes, vede isto e alegrai-vos: o vosso coração reviverá, se procurardes o Senhor continuamente! Pois nosso Deus atende à prece dos seus pobres, e não despreza o clamor de seus cativos.

R: Respondei-me, ó Senhor, pelo vosso imenso amor!

– Sim, Deus virá e salvará Jerusalém, reconstruindo as cidades de Judá, onde os pobres morarão, sendo seus donos. A descendência de seus servos há de herdá-las, e os que amam o santo nome do Senhor dentro delas fixarão sua morada!

R: Respondei-me, ó Senhor, pelo vosso imenso amor!
 

Aclamação ao santo Evangelho

 

Aleluia, aleluia, aleluia.

Aleluia, aleluia, aleluia.

 

– Se guardais minha palavra, diz Jesus, realmente vós sereis os meus discípulos (Jo 8,31).

 

Aleluia, aleluia, aleluia.

 

Evangelho de Jesus Cristo, segundo Lucas: Lc 14,12-14.

 

– O Senhor esteja convosco.

– Ele está no meio de nós.

– Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo † segundo Lucas

– Glória a vós, Senhor!   

 

– Naquele tempo, 12dizia Jesus ao chefe dos fariseus que o tinha convidado: “Quando deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos nem teus irmãos nem teus parentes nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa. 13Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. 14Então serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos”.

 

– Palavra da salvação.

– Glória a vós, Senhor!   

 

São Carlos Borromeu

- por Padre Alexandre Fernandes

São Carlos Borromeu, procurava os pobres doentes dos quais ninguém lembrava

Carlos, o segundo filho de Gilberto, nasceu em 2 de outubro de 1538. Menino ainda, revelou ótimo talento e uma inteligência rara. Ao lado destas qualidades, manifestou forte inclinação para a vida religiosa, pela piedade e o temor a Deus. Ainda criança, era seu prazer construir altares minúsculos, diante dos quais, em presença dos irmãos e companheiros de idade, imitava as funções sacerdotais que tinha observado na Igreja. O amor à oração e o aborrecimento aos divertimentos profanos, eram sinais mais positivos da vocação sacerdotal.

O ano de 1562 veio a Carlos com a graça do sacerdócio. No silêncio da meditação, lançou Carlos planos grandiosos para a reorganização da Igreja Católica. Estes todos se concentraram na ideia de concluir o Concílio de Trento. De fato, era o que a Igreja mais necessitava, como base e fundamento da renovação e consolidação da vida religiosa. Carlos, sem cessar, chamava a atenção do seu tio (que era Cardeal e foi eleito Papa, com o nome de Pio IV) para esta necessidade, reclamada por todos os amigos da Igreja. De fato, o Concílio se realizou, e Carlos quis ser o primeiro a executar as ordens da nova lei, ainda que por esta obediência tivesse de deixar sua posição para ocupar outra inferior.

Carlos sabia muito bem que a caridade abre os corações também à religião. Por isto foi que grande parte de sua receita pertencia aos pobres, reservando ele para si só o indispensável. Heranças ou rendimentos que lhe vinham dos bens de família, distribuía-os entre os desvalidos. Tudo isto não aguenta comparação com as obras de caridade que o Arcebispo praticou, quando em 1569-1570, a fome e uma epidemia, semelhante à peste, invadiram a cidade de Milão. Não tendo mais o que dar, pedia ele próprio esmolas para os pobres e abria assim fontes de auxílio, que teriam ficado fechadas.

Quando, porém, em 1576, a cidade foi atingida pela peste, e o povo abandonado pelos poderes públicos, visto que ninguém se compadecia do povo, ainda procurava os pobres doentes dos quais ninguém lembrava, consolava-os e dava-lhes os santos sacramentos. Tendo-se esgotado todas as fontes de recurso, Carlos lançou mão de tudo o que possuía, para amenizar a triste sorte dos doentes. Mais de  cem sacerdotes tinham pago com a vida, na sua dedicação e serviço aos doentes. Deus conservava a vida do Arcebispo, e este se aproveitou da ocasião para dizer duras verdades aos ímpios e ricos esquecidos de Deus.

Gregório XIII, não só rejeitou as acusações infundados feitas ao Arcebispo, mas ainda recebeu Carlos Borromeu em Roma, com as mais altas distinções. Em resposta a este gesto do Papa, o governador de Milão, organizou no primeiro domingo da Quaresma de 1579, um indigno préstito carnavalesco pelas ruas de Milão, precisamente à hora da missa celebrada pelo Arcebispo. O mesmo governador, que tanta guerra ao Prelado movera, e tantas hostilidades contra São Carlos estimulara, no leito de morte reconheceu o erro e teve o consolo da assistência do santo Bispo na hora da agonia. Seu sucessor, Carlos de Aragão, duque de Terra Nova, viveu sempre em paz com a autoridade eclesiástica. O Arcebispo gozou deste período só dois anos.

Quando em outubro de 1584, como era de costume, se retirara para fazer os exercícios espirituais, teve fortes acessos de febre, aos quais não deu importância e dizia: “Um bom pastor de almas, deve saber suportar três febres, antes de se meter na cama”. Os acessos renovaram-se e consumiram as forças do Arcebispo. Ao receber os santos sacramentos, expirou aos 03 de novembro de 1584. Suas últimas palavras foram: “Eis Senhor, eu venho, vou já”. São Carlos Borromeu tinha alcançado a idade de 46 anos.

O Papa Paulo V, canonizou-o em 1610 e fixou-lhe a festa para o dia 04 de novembro.

São Carlos Borromeu, rogai por nós!

 

Meditação

- por Padre Alexandre Fernandes

67. SEM ESPERAR NADA EM TROCA

– Dar e dar-se ainda que não se vejam os frutos.

– O prêmio à generosidade. Dar com alegria.

– Pôr a serviço dos outros os talentos recebidos.

I. JESUS FOI CONVIDADO para almoçar em casa de um dos fariseus importantes do lugar1 e, uma vez mais, utiliza a imagem do banquete para nos transmitir um ensinamento valioso sobre o que devemos fazer pelos outros e o modo de levá-lo a cabo. Dirigindo-se ao que o tinha convidado, disse-lhe: Quando deres um almoço ou jantar, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os parentes, nem os vizinhos ricos; para que não aconteça que também eles te convidem e te paguem com isso. A seguir, indica a quem se deve dirigir o convite: aos pobres, aos coxos, aos cegos… E dá a razão desse critério: Serás bem-aventurado, porque esses não terão com que retribuir-te; receberás a recompensa na ressurreição dos justos2.

Os amigos, os parentes, os vizinhos ricos ver-se-ão obrigados a corresponder ao nosso convite com outro, ao menos do mesmo nível ou superior, e portanto o que se gastou na ceia já terá dado o seu fruto imediato. Pode tratar-se de uma obra humana reta, ou até muito boa, se a intenção for reta e os fins nobres (amizade, apostolado, estreitar os laços familiares…), mas, em si mesma, pouco se diferencia daquilo que os pagãos podem fazer. É uma maneira humana de agir: Se amais os que vos amam, que mérito tendes? Porque os pecadores também amam quem os ama. E se fazeis bem aos que vos fazem bem, que mérito tendes? Porque os pecadores também fazem o mesmo…3, dirá o Senhor em outra ocasião.

A caridade do cristão vai mais longe, pois inclui e ultrapassa ao mesmo tempo o plano natural, aquilo que é meramente humano; dá por amor ao Senhor, e sem esperar nada em troca. Os pobres, os mutilados…, nada podem devolver, pois não possuem nada. Então é fácil ver Cristo nos outros. A imagem do banquete não se reduz exclusivamente aos bens materiais; é imagem de tudo o que o homem pode oferecer aos outros: consideração, alegria, otimismo, companhia, atenção…

Conta-se da vida de São Martinho que, certa noite, Cristo lhe apareceu em sonhos vestido com a metade da capa de oficial romano que poucas horas antes o Santo tinha dado a um pobre. Martinho olhou atentamente para o Senhor e reconheceu a capa. Ao mesmo tempo, ouviu Jesus dizer aos anjos que o acompanhavam, num tom de voz que nunca esqueceria: “Martinho, que é apenas um catecúmeno, cobriu-me com estas vestes”. Imediatamente o Santo lembrou-se de outras palavras de Jesus: Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes4. A visão encheu-o de paz e de alento, e pouco tempo depois administravam-lhe o Batismo5.

Não devemos fazer o bem esperando uma recompensa nesta vida. Devemos ser generosos (no apostolado, na esmola, nas obras de misericórdia…), mas sem esperar receber nada por isso. A caridade não busca nada, a caridade não é interesseira6. Devemos dar, semear, dar-nos, ainda que não vejamos nem frutos, nem correspondência, nem agradecimento, nem benefício pessoal algum. O Senhor ensina-nos nesta parábola a dar liberalmente, sem calcular retribuição alguma. Um dia recebê-la-emos em abundância.

II. NÃO SE PERDE NADA do que levamos a cabo em benefício dos outros. Quem dá em abundância dilata e enriquece o seu coração, torna-se jovem e aumenta a capacidade de amar. O egoísmo encolhe a pessoa, limita o seu horizonte pessoal, tornando-o pobre e estreito. Quando não vemos os frutos do nosso sacrifício, nem colhemos dele agradecimento humano algum, basta-nos saber que o objeto da nossa generosidade é o próprio Cristo. Nada se perde. “Não vedes agora – comenta Santo Agostinho – a importância do bem que realizais; o lavrador, ao semear, também não tem diante dos olhos a colheita; mas confia na terra. Por que não confias tu em Deus? Chegará um dia que será o da nossa colheita. Pensa que nos encontramos agora nas fainas de semeadura; mas plantamos para colher mais tarde, conforme diz a Escritura: Vão andando e choram, espalhando as suas sementes; quando voltarem, virão com alegria, trazendo os feixes (Sl 125)”7. A caridade não desanima se não vê resultados imediatos; sabe esperar, é paciente.

A generosidade abre caminho à necessidade vital de dar. O coração que não sabe espalhar o bem entre os que o rodeiam, no ambiente em que vive, inutiliza-se, envelhece e morre. Quando damos, o nosso coração alegra-se e estamos em condições de compreender melhor o Senhor, que deu a sua vida em resgate por todos8. Quando São Paulo agradece aos Filipenses a ajuda que lhe prestaram, diz-lhes que está contente não tanto pelo benefício que recebeu, como sobretudo pelo fruto que as esmolas trarão para eles próprios: a fim de que vão aumentando os juros da vossa conta9. Por isso São Leão Magno recomenda que “quem distribui esmolas se disponha a fazê-lo com despreocupação e alegria, já que, quanto menos reserve para si, maior será o lucro que terá”10.

São Paulo também animava os primeiros cristãos a viver a generosidade com alegria, pois Deus ama aquele que dá com alegria11. Ninguém – muito menos o Senhor – pode gostar de um serviço ou de uma esmola praticados de má vontade ou com tristeza: “Se dás o pão com tristeza – comenta Santo Agostinho –, perdeste o pão e o prêmio”12. Por outro lado, o Senhor entusiasma-se com a entrega de quem dá e se dá por amor, espontaneamente, sem cálculos…

III. É MUITO o que podemos dar aos outros. Podemos dar-lhes bens materiais – ainda que seja pouco, se dispomos de pouco –, tempo, companhia, cordialidade… Trata-se de pôr ao serviço dos outros os talentos que recebemos do Senhor. “Eis uma tarefa urgente: sacudir a consciência dos que crêem e dos que não crêem – fazer uma leva de homens de boa vontade –, com o fim de que cooperem e proporcionem os instrumentos materiais necessários para trabalhar com as almas”13.

O Evangelho da Missa ensina-nos que a melhor recompensa que podemos receber na terra é termos dado. Com isso termina tudo. Nada devemos recordar aos outros; nada lhes deve ser exigido em troca. Ordinariamente, é melhor que os pais não recordem aos filhos o muito que fizeram por eles; nem a mulher ao marido as mil ajudas que em momentos difíceis soube prestar-lhe, os desvelos, a paciência…; nem o marido à mulher o trabalho intenso que lhe custa levar a família para a frente… Tudo fica em melhores mãos quando é anotado unicamente por Deus na história pessoal de cada um. Devemos mesmo aceitar de antemão que as boas ações que levamos a cabo sejam mal interpretadas de vez em quando:

“Vi rubor no rosto daquele homem simples, e quase lágrimas em seus olhos: prestava generosamente a sua colaboração em obras boas, com o dinheiro honesto que ele mesmo ganhava, e soube que os “bons” apodavam de bastardas as suas ações.

“Com ingenuidade de neófito nestas batalhas de Deus, sussurrava: «Estão vendo que me sacrifico… e ainda me sacrificam!»

“– Falei-lhe devagar. Beijou o meu Crucifixo, e a sua indignação natural trocou-se em paz e alegria”14.

O Senhor manda-nos compreender os outros ainda que eles não nos compreendam (talvez não o possam fazer nesse momento, como não o podiam os indigentes convidados ao banquete, que não estavam em condições de retribuir o convite com outro convite). E devemos também amar as pessoas ainda que nos ignorem, e prestar muitos pequenos serviços ainda que em circunstâncias semelhantes no-los neguem. E tornar a vida amável aos que nos rodeiam, ainda que algumas vezes pareça que nos correspondem com a indiferença…

E tudo isso com coração grande, sem levar uma contabilidade de cada favor prestado. Quando se ouvem lamentos e queixas de alguns que – segundo dizem – passaram pela vida dando e entregando-se sem receber depois as mesmas atenções, pode-se suspeitar de que faltou algo essencial nessa entrega, pelo menos a pureza de intenção. Quem dá de olhos postos em Deus não experimenta desilusão nem cansaço, mas júbilo íntimo e uma abertura de coração que resulta de saber que Deus está contente com o que fez. “Quanto mais generoso fores – por Deus –, mais feliz serás”15.

A nossa Mãe Santa Maria, que com o seu faça-se entregou o seu ser e a sua vida ao Senhor e a nós, seus filhos, ajudar-nos-á a não reservar nada para nós mesmos e a ser generosos nas mil pequenas oportunidades que se apresentam todos os dias.

(1) Cfr. Lc 14, 1; (2) Lc 14, 12-14; (3) Lc 6, 32; (4) Mt 25, 40; (5) cfr. P. Croiset, Año cristiano, Madrid, 1846, vol. IV, págs. 82-83; (6) 1 Cor 13, 5; (7) Santo Agostinho, Sermão 102, 5; (8) cfr. Mt 20, 28; (9) Fil 4, 17; (10) São Leão Magno, Sermão 10 sobre a Quaresma; (11) 2 Cor 9, 7; (12) Santo Agostinho, Comentário aos Salmos, 42, 8; (13) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Sulco, n. 24; (14) ibid., n. 28; (15) ibid., n. 18.

 

18ª Semana do Tempo Comum