08 de Abril de 2020

Semana da Santa Quarta-feira

- por Padre Alexandre Fernandes

QUARTA FEIRA – SEMANA SANTA

(Roxo, pref. da paixão II, ofício do dia)

 

Antífona da entrada

 

– Ao nome de Jesus todo joelho se dobre no céu, na terra e na mansão dos mortos, pois o Senhor se fez obediente até a morte e morte de cruz. E por isso Jesus Cristo é Senhor na glória de Deus Pai (Fl 2,10.8.11).

 

Oração do dia

 

– Ó Deus, que fizestes vosso Filho padecer o suplício da cruz para arrancar-nos à escravidão do pecado, concedei aos vossos servos e servas a graça da ressurreição. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

1ª Leitura: Is 50,4-9a

 

– Leitura do livro do profeta Isaías: 4O Senhor Deus deu-me língua adestrada, para que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida; ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido, para prestar atenção como um discípulo.
5O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás. 6Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba: não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. 7Mas o Senhor Deus é o meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado. 8A meu lado está quem me justifica; alguém me fará objeções? Vejamos. Quem é meu adversário? Aproxime-se. 9aSim, o Senhor Deus é meu Auxiliador; quem é que me vai condenar?

– Palavra do Senhor.

– Graças a Deus.

 

Salmo Responsorial: Sl 69, 8-10.21bcd-22.31.33-34 (R: 14cb)

 

– Respondei-me pelo vosso imenso amor, neste tempo favorável, Senhor Deus.
R: Respondei-me pelo vosso imenso amor, neste tempo favorável, Senhor Deus.

– Por vossa causa é que sofri tantos insultos, e o meu rosto se cobriu de confusão; eu me tornei como um estranho a meus irmãos, como estrangeiro para os filhos de minha mãe. Pois meu zelo e meu amor por vossa casa me devoram como fogo abrasador: e os insultos de infiéis que vos ultrajam recaíram todos eles sobre mim!

R: Respondei-me pelo vosso imenso amor, neste tempo favorável, Senhor Deus.

– O insulto me partiu o coração; Eu esperei que alguém, de mim tivesse pena; procurei quem me aliviasse e não achei! Deram-me fel como se fosse um alimento, em minha sede ofereceram-me vinagre!

R: Respondei-me pelo vosso imenso amor, neste tempo favorável, Senhor Deus.

– Cantando eu louvarei o vosso nome e agradecido exultarei de alegria! Humildes, vede isto e alegrai-vos: o vosso coração reviverá, se procurardes o Senhor continuamente! Pois nosso Deus atende à prece dos seus pobres, e não despreza o clamor de seus cativos.

R: Respondei-me pelo vosso imenso amor, neste tempo favorável, Senhor Deus.

 

Evangelho de Jesus Cristo, segundo Mateus: Mt 26,14-25

 

Salve, Cristo, luz da vida, companheiro na partilha!

Salve, Cristo, luz da vida, companheiro na partilha!

 

– Salve nosso rei, somente vós tendes compaixão dos nossos erros.

 

Salve, Cristo, luz da vida, companheiro na partilha!

 

– O Senhor esteja convosco.

– Ele está no meio de nós.

– Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo † segundo Mateus

– Glória a vós, Senhor!  

 

Naquele tempo, 14um dos doze discípulos, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes 15e disse: “Que me dareis se vos entregar Jesus?” Combinaram, então, trinta moedas de prata. 16E daí em diante, Judas procurava uma oportunidade para entregar Jesus. 17No primeiro dia da festa dos Ázimos, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?” 18Jesus respondeu: “Ide à cidade, procurai certo homem e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: o meu tempo está próximo, vou celebrar a Páscoa em tua casa, junto com meus discípulos’”. 19Os discípulos fizeram como Jesus mandou e prepararam a Páscoa. 20Ao cair da tarde, Jesus pôs-se à mesa com os doze discípulos. 21Enquanto comiam, Jesus disse: “Em verdade eu vos digo, um de vós vai me trair”. 22Eles ficaram muito tristes e, um por um, começaram a lhe perguntar: “Senhor, será que sou eu?” 23Jesus respondeu: “Quem vai me trair é aquele que comigo põe a mão no prato. 24O Filho do Homem vai morrer, conforme diz a Escritura a respeito dele. Contudo, ai daquele que trair o Filho do Homem! Seria melhor que nunca tivesse nascido!” 25Então Judas, o traidor, perguntou: “Mestre, serei eu?” Jesus lhe respondeu: “Tu o dizes”.

 

– Palavra da salvação.

– Glória a vós, Senhor!  

Santo Alberto

- por Padre Alexandre Fernandes

Nasceu na Itália no ano de 1150. Foi dizendo ‘sim’ a vontade do Senhor. Tornou-se religioso na Ordem Agostiniana, depois padre e superior de uma Comunidade. De ‘sim’ em ‘sim’ foi caminhando na vontade do Senhor, que o queria servindo a Igreja de Cristo e ao povo de Deus no Episcopado. Foi enviado como missionário para a Terra Santa, em Jerusalém.

Homem de oração, de vida sacramental, mariano. Apaixonado por Deus, por sua Igreja, pela verdade e pelo mistério pascal.

Entre os cristãos e não-cristãos haviam aqueles que o perseguia, até que no dia da Exaltação da Santa Cruz, ele estava com todo o Clero, e foi apunhalado por um fanático anti-cristão.

Morreu perdoando e unindo o seu sangue ao Sangue de Cristo.

Santo Alberto, rogai por nós!

Meditação

- por Padre Alexandre Fernandes

SEMANA SANTA. QUARTA-FEIRA

43. A CAMINHO DO CALVÁRIO

– Jesus com a Cruz às costas pelas ruas de Jerusalém. Simão de Cirene.

– Jesus acompanhado por dois ladrões no seu caminho para o Calvário. Modos de carregar a cruz.

– O encontro com sua Mãe Santíssima.

I. DEPOIS DE UMA NOITE de dor, de escárnios e de desprezo, Jesus, debilitado pelo terrível tormento da flagelação, é conduzido para ser crucificado. Libertou-lhes então Barrabás; e a Jesus, depois de tê-lo mandado açoitar, entregou-o às mãos deles para que fosse crucificado1, diz sobriamente o Evangelho de São Mateus. Jesus é condenado a sofrer uma morte reservada aos criminosos.

Mal iniciada a caminhada, todos percebem que o Senhor está muito fraco para levar a cruz sobre os seus ombros até o Calvário. Um homem, Simão de Cirene, que voltava para casa, é forçado a carregá-la. Onde estão os seus discípulos? Jesus falara-lhes de carregar a cruz2, e todos eles tinham afirmado solenemente que estavam dispostos a segui-lo até à morte3. Agora, não encontra um único que o ajude sequer a carregar o lenho da cruz até o lugar da execução. Terá de fazê-lo um estranho, e obrigado à força. Em torno do Senhor não há rostos amigos e ninguém quis comprometer-se. Até os que tinham recebido de suas mãos benefícios e curas querem agora passar despercebidos. Cumpriu-se ao pé da letra o que Isaías profetizara muitos séculos antes: Pisei sozinho o lagar, sem que ninguém dentre a multidão me ajudasse… Olhei, e não houve pessoa alguma que me auxiliasse; espantei-me de que ninguém viesse amparar-me4. Simão segurou a cruz pela extremidade e colocou-a sobre os seus ombros. A outra, a mais pesada, a do amor não correspondido, a dos pecados de cada homem, essa, Cristo a levou sozinho.

Neste desamparo em que o Senhor se encontrava, segundo nos foi transmitido pela tradição, houve uma exceção: uma mulher – conhecida pelo nome de Verônica – aproximou-se de Jesus com um pano para limpar-lhe o rosto, e o rosto do Senhor ficou impresso no tecido. “O véu da Verônica é o símbolo do comovedor diálogo entre Cristo e a alma reparadora. Verônica correspondeu ao amor de Cristo com a sua reparação; uma reparação admirável, porque veio de uma débil mulher que não temeu as iras dos inimigos de Cristo […]. Imprime-se na minha alma […] o rosto de Jesus, como no véu da Verônica?”5

O Senhor retoma a marcha, um pouco mais aliviado fisicamente. Mas o caminho é sinuoso e o chão irregular. As suas energias diminuem cada vez mais, e não é de estranhar que caia. Cai, e mal consegue levantar-se. Poucos metros adiante, torna a cair. Uma, duas, três vezes. Ao levantar-se, quer dizer-nos quanto nos ama; ao cair, quer manifestar a grande necessidade que sente de que o amemos.

“Não é tarde, nem tudo está perdido… Ainda que assim te pareça. Ainda que o repitam mil vozes agoureiras. Ainda que te assediem olhares trocistas e incrédulos… Chegaste num bom momento para carregar a Cruz: a Redenção está-se fazendo – agora! –, e Jesus necessita de muitos cireneus”6.

II. EM OUTRO MOMENTO dessa caminhada até o Calvário, Jesus passa por um grupo de mulheres que choram por Ele. Consola-as e faz uma “chamada ao arrependimento, ao verdadeiro arrependimento, ao pesar sincero pelo mal cometido. Jesus diz às filhas de Jerusalém que choram ao vê-lo: Não choreis por mim; chorai antes por vós e pelos vossos filhos (Lc 23, 28). Não podemos ficar na superfície do mal, temos que chegar à sua raiz, às causas, à mais profunda verdade da consciência […]. Senhor, que eu saiba viver e andar na verdade!”7

Para tornar a sua morte mais humilhante, fazem parte do cortejo dois ladrões que ladeiam Jesus. Um espectador recém-chegado, que não soubesse de nada, veria três homens a caminho da morte, cada um carregando a sua cruz. Mas apenas um deles é o Salvador do mundo, e uma só a Cruz redentora. Hoje também se pode carregar a cruz de diferentes maneiras.

Há uma cruz que se carrega com raiva, contra a qual o homem se revolta cheio de ódio ou, ao menos, de um profundo mal-estar; é uma cruz sem sentido e sem explicação, inútil, que chega até a afastar de Deus. É a cruz dos que neste mundo só procuram a comodidade e o bem-estar material, dos que não suportam nem a dor nem o fracasso, porque não querem compreender o sentido sobrenatural do sofrimento.É uma cruz que não redime: é a que carrega um dos ladrões.

Vai também a caminho do Calvário uma segunda cruz, esta conduzida com resignação, talvez até com dignidade humana, que é aceita porque não há modo algum de evitá-la. Assim a carrega o outro ladrão, até que pouco a pouco percebe a seu lado a figura soberana de Cristo, que mudará completamente os últimos instantes da sua vida aqui na terra, como também a eternidade, e o converterá no bom ladrão.

Há por fim um terceiro modo de carregá-la: é o de Jesus, que se abraça à Cruz salvadora e nos ensina como devemos carregar a nossa – com amor, corredimindo com Ele todas as almas, reparando pelos pecados próprios. O Senhor deu um sentido profundo à dor. Podendo redimir-nos de muitas maneiras, fê-lo através do sofrimento, porque ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos8.

As pessoas santas descobriram que, quando já não se vê a cruz em si, mas aos ombros de Jesus que passa e vem ao nosso encontro, a dor, o sofrimento e a contrariedade deixam de ser algo de sinal negativo. Simão de Cirene conheceu Jesus através da Cruz. O Senhor recompensá-lo-á pela ajuda que lhe prestou dando a fé aos seus dois filhos, Alexandre e Rufo9, que em breve seriam cristãos muitos conhecidos na primitiva comunidade. E nada nos impede de pensar que Simão de Cirene viria também a ser mais tarde um discípulo fiel.

“Tudo começou por um encontro inopinado com a Cruz. Apresentei-me aos que não perguntavam por mim, acharam-me os que não me procuravam (Is 65, 1). Às vezes, a Cruz aparece sem a procurarmos: é Cristo que pergunta por nós. E se por acaso, perante essa Cruz inesperada, e talvez por isso mais escura, o coração manifesta repugnância…, não lhe dês consolos. E, cheio de uma nobre compaixão, quando os pedir, segreda-lhe devagar, como em confidência: «Coração: coração na Cruz, coração na Cruz»”10.

A meditação de hoje é uma boa oportunidade para nos perguntarmos como encaramos as contrariedades e a dor, se elas nos aproximam de Cristo, se nos ajudam a expiar as nossas culpas, se nos levam a corredimir com Ele.

III. “O SALVADOR CAMINHAVA com o corpo vergado sob o peso da Cruz, os olhos inchados e obnubilados pelas lágrimas e pelo sangue, o andar lento e difícil pela debilidade; seus joelhos tremiam, e Ele quase que se arrastava atrás dos seus dois companheiros de suplício. E os judeus riam, e os verdugos e os soldados o empurravam”11.

No quarto mistério doloroso do Rosário contemplamos Jesus com a Cruz às costas a caminho do Calvário. “Estamos tristes, vivendo a Paixão de Jesus, Nosso Senhor. – Olha com que amor se abraça à Cruz. – Aprende com Ele. – Jesus leva a Cruz por ti; tu… leva-a por Jesus.

“Mas não leves a Cruz de rastos… Leva-a erguida a prumo, porque a tua Cruz, levada assim, não será uma Cruz qualquer: será… a Santa Cruz […].

“E, com toda a certeza, tal como Ele, encontrarás Maria no caminho”12.

Num dos passos da Via Sacra, consideramos o encontro entre Jesus e sua Mãe numa daquelas ruas estreitas. Jesus deteve-se um instante. “Com imenso amor, Maria olha para Jesus, e Jesus olha para sua Mãe; e os olhos de ambos se encontram, e cada coração derrama no outro a sua própria dor. A alma de Maria fica submersa em amargura, na amargura de Jesus Cristo.

Ó vos que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor como a minha dor! (Lam 1, 12).

“Mas ninguém percebe, ninguém repara; só Jesus […].

“Na obscura soledade da Paixão, Nossa Senhora oferece a seu Filho um bálsamo de ternura, de união, de fidelidade; um sim à Vontade divina”13.

O Senhor continua o seu caminho e Maria acompanha-o a poucos metros de distância, até o Calvário. A profecia de Simeão cumpre-se ao pé da letra.

Que homem não choraria ao ver a Mãe de Cristo em tão atroz suplício?

“Seu Filho ferido… E nós longe, covardes, resistindo à Vontade divina.

“Minha Mãe e Senhora, ensina-me a pronunciar um sim que, como o teu, se identifique com o clamor de Jesus perante seu Pai: Non mea voluntas… (Lc 22, 42): Não se faça a minha vontade, mas a de Deus”14.

Quando a dor e a aflição nos atingirem, quando se tornarem mais penetrantes, recorramos a Santa Maria, Mater dolorosa, para que nos faça fortes e para que aprendamos a santificá-las com paz e serenidade.

18ª Semana do Tempo Comum