15 de Março de 2020

3a Semana da Quaresma Domingo

- por Padre Alexandre Fernandes

III DOMINGO DA QUARESMA.

(Roxo, creio, prefácio próprio, III semana do saltério)

 

Antífona da entrada

 

– Quando reconhecerdes a minha santidade, eu vos reunirei de todas as nações. Derramarei sobre vós uma água pura, e sereis purificados de todas as faltas. Dar-vos-ei um equilíbrio novo, diz o Senhor (Ez 36, 23-26).

 

Oração do dia

 

– Ó Deus, fonte de toda misericórdia e toda bondade, vós nos indicastes o jejum, a esmola e a oração como remédio contra o pecado. Acolhei esta confissão da nossa fraqueza para que, humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela vossa misericórdia. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

1ª Leitura: Ex 17,3-7

 

– Leitura do livro do Êxodo: Naqueles dias, 3o povo, sedento de água, murmurava contra Moisés e dizia: “Por que nos fizeste sair do Egito? Foi para nos fazer morrer de sede, a nós, nossos filhos e nosso gado?” 4Moisés clamou ao Senhor, dizendo: “Que farei por este povo? Por pouco não me apedrejam!”
5O Senhor disse a Moisés: “Passa adiante do povo e leva contigo alguns anciãos de Israel. Toma a tua vara com que feriste o rio Nilo e vai. 6Eu estarei lá, diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb. Ferirás a pedra e dela sairá água para o povo beber”.  Moisés assim fez na presença dos anciãos de Israel. 7E deu àquele lugar o nome de Massa e Meriba, por causa da disputa dos filhos de Israel e porque tentaram o Senhor, dizendo: “O Senhor está no meio de nós ou não?”

 

– Palavra do Senhor.

– Graças a Deus.

 

Salmo Responsorial: Sl 95, 1-2.6-7.8-9 (R: 8)

 

– Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor!
R: Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor!

– Vinde, exultemos de alegria no Senhor, aclamemos o Rochedo que nos salva! Ao seu encontro caminhemos com louvores, e com cantos de alegria o celebremos!

R: Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor!

– Vinde, adoremos e prostremo-nos por terra, e ajoelhemos ante o Deus que nos criou! Porque ele é o nosso Deus, nosso Pastor, e nós somos o seu povo e seu rebanho, as ovelhas que conduz com sua mão.

R: Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor!

– Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: “Não fecheis os corações como em Meriba, como em Massa, no deserto, aquele dia, em que outrora vossos pais me provocaram, apesar de terem visto as minhas obras”.

R: Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor!
 

2ª Leitura: Rm 5,1-2.5-8

 

– Leitura da carta de são Paulo aos Romanos: Irmãos: 1Justificados pela fé, estamos em paz com Deus, pela mediação do Senhor nosso, Jesus Cristo. 2Por ele tivemos acesso, pela fé, a esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus. 5E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. 6Com efeito, quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado. 7Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa muito boa talvez alguém se anime a morrer. 8Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.

 

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Evangelho de Jesus Cristo, segundo João: Jo 4,5-15.19b-26.39a.40-42

 

Glória e louvor a vós, ó Cristo.

Glória e louvor a vós, ó Cristo.

 

– Na verdade, sois Senhor, o salvador do mundo. Senhor dai-me água viva a fim de eu não ter sede! (Jo 4,42.15)

 

Glória e louvor a vós, ó Cristo.

 

– O Senhor esteja convosco.

– Ele está no meio de nós.

– Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo † segundo João

– Glória a vós, Senhor!  

Naquele tempo, 5Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. 6Era aí que ficava o poço de Jacó. Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta do meio-dia. 7Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: “Dá-me de beber”. 8Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. 9A mulher samaritana disse então a Jesus: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?” De fato, os judeus não se dão com os samaritanos. 10Respondeu-lhe Jesus: “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva”. 11A mulher disse a Jesus: “Senhor, nem sequer tens balde e o poço é fundo. De onde vais tirar água viva? 12Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?” 13Respondeu Jesus: “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. 14Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna”. 15A mulher disse a Jesus: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la”. 19b“Senhor, vejo que és um profeta!” 20Os nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar”. 21Disse-lhe Jesus: “Acredita-me, mulher: está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. 22Vós adorais o que não conheceis. Nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus.
23Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura. 24Deus é espírito, e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade”. 25A mulher disse a Jesus: “Sei que o Messias (que se chama Cristo) vai chegar. Quando ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas”. 26Disse-lhe Jesus: “Sou eu, que estou falando contigo”. 39aMuitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus. 40Por isso, os samaritanos vieram ao encontro de Jesus e pediram que permanecesse com eles. Jesus permaneceu aí dois dias. 41E muitos outros creram por causa da sua palavra. 42E disseram à mulher: “Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o salvador do mundo”.

 

– Palavra da salvação.

– Glória a vós, Senhor!  

Santa Luíza de Marillac

- por Padre Alexandre Fernandes

Santa Luisa, nascida no ano 1591, era filha de uma família nobre. Órfã de mãe muito cedo, seu pai lhe proporcionou uma formação extraordinária em todos os ramos do saber. Era também sumamente piedosa e exemplar. Aos quinze anos quis entrar em um convento de capuchinas, mas a dissuadiram por sua delicada saúde. Morre então seu pai, e a instâncias de seus parentes se casou com o senhor Le Gras. Lê-se no processo de beatificação: “Foi um exemplo de esposa cristã. Com sua bondade e doçura conseguiu abrandar o seu marido, que era de caráter pouco maleável, dando o exemplo de um matrimônio ideal em tudo era comum, até a oração”.

 

Tiveram um filho a quem Luisa tinha um amor sem limites. Esta experiência maternal lhe serviria muito para a futura fundação. Ficou viúva aos trinta e quatro anos. O senhor Le Gras morreu santamente em seus braços. Desde então decidiu entregar-se totalmente a Deus e às boas obras.

 

França estava enredada em guerras de religião no século XVI. Mas no século XVII surge com força uma plêiade de santos, que realizam uma grande tarefa: Francisco de Sales, Joana Francisca, Vicente de Paula, Luisa de Marillac.

 

Luisa se dirigia com Francisco de Sales, que encaminhou a Vicente de Paula. Vicente tinha começado já suas ingentes obras de misericórdia, como as Caridades, associações ao serviço dos pobres. Luisa porá nelas um toque maternal e feminino, todo seu coração. Percorria os povoados, reanimava as confrarias, visitava aos doentes e tudo ficava renovado. Faziam falta mais braços para atender a tantas necessidades. A miséria imperava em certas regiões, onde, segundo informe ao Parlamento “os aldeãos se viam obrigados a pastar a erva como os animais”.

 

Vicente e Luisa não descansam. Ampliam seu raio de ação. Outras muitas jovens se uniam a Luisa para atender a tantos necessitados. Depois de um tempo de noviciado, Luisa e suas companheiras pronunciam os votos, na festa da anunciação de 1634, data em que logo renovarão seus votos em todo o mundo a Filhas da Caridade de São Vicente de Paula.

 

A partir de então a bola de neve se converte em esmagadora avalanche. Multiplicaram-se as obras em favor de “seus senhores pobres”, como gostam de chamá-los. Visita a hospitais.

 

Acolhida de crianças abandonadas. Atenção às regiões em guerra. Estendem-se a Flandes e Polônia, e logo a todo o mundo. Albergues para os pobres. Estabelecimentos para loucos e doentes mentais. Não há doença sem remédio para Luisa e suas companheiras. A princípios de 1665 ficava canonicamente erigida a Congregação das Filhas da Caridade. São Vicente leu as Regras e lhes disse: “De hoje em diante, levareis o nome de Filhas da Caridade. Conservai este título, que é o mais formoso que podeis ter”.

 

Contrariamente ao que ocorreu com outras comunidades, também nascidas para atender aos pobres, as Filhas da Caridade permaneceram fiéis a seu carisma. A atividade desenvolvida por Santa Luisa era sobre-humana, apesar de sua fraca constituição. Caiu esgotada no sulco do trabalho em 15 de março de 1660. Vicente, também doente, não pôde acompanhá-la à hora da morte. Enviou-lhe este recado: “Vai adiante, logo voltarei a ver no céu”. Vicente, carregado de boas obras, não tardaria em acompanhá-la.

 

Os veneráveis restos de Santa Luisa de Marillac repousam em Paris, na casa mãe da Congregação, na mesma capela das aparições da Virgem da Medalha Milagrosa a Santa Catarina Lebouré. Sua festa é celebrada em 15 de março.

Meditação

- por Padre Alexandre Fernandes

TEMPO DA QUARESMA. TERCEIRO DOMINGO

19. O SENTIDO DA MORTIFICAÇÃO

– Para seguir de verdade a Cristo, é necessário ter uma vida mortificada e estar perto da Cruz. Quem recusa o sacrifício afasta-se da santidade.

– Com a mortificação, elevamo-nos até o Senhor. Perder o medo ao sacrifício.

– Outros motivos da mortificação.

I. TODOS OS ATOS da vida de Cristo são redentores, mas a redenção do gênero humano culmina na Cruz, para a qual o Senhor orienta toda a sua vida na terra: Tenho que receber um batismo, e como me sinto ansioso até que se cumpra!1, dirá aos seus discípulos a caminho de Jerusalém. Revela-lhes as ânsias irreprimíveis de dar a sua vida por nós, e dá-nos exemplo do seu amor à vontade do Pai morrendo na Cruz. E é na Cruz que a alma alcança a plenitude da identificação com Cristo. Este é o sentido mais profundo que têm os atos de mortificação e penitência.

Para sermos discípulos do Senhor, temos de seguir o seu conselho: Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me2. Não é possível seguir o Senhor sem a Cruz. As palavras de Jesus Cristo têm plena vigência em todos os tempos, uma vez que foram dirigidas a todos os homens, poisquem não carrega a sua cruz e me segue – diz-nos Ele a cada um – não pode ser meu discípulo3.

Carregar a cruz – aceitar a dor e as contrariedades que Deus permite para nossa purificação, cumprir com esforço os deveres próprios, assumir voluntariamente a mortificação cristã – é condição indispensável para seguir o Mestre.

“Que seria de um Evangelho, de um cristianismo sem Cruz, sem dor, sem o sacrifício da dor?, perguntava-se Paulo VI. Seria um Evangelho, um cristianismo sem Redenção, sem Salvação, da qual – devemos reconhecê-lo com plena sinceridade – temos necessidade absoluta. O Senhor salvou-nos por meio da Cruz; com a sua morte, devolveu-nos a esperança, o direito à Vida…”4 Seria um cristianismo desvirtuado que não serviria para alcançar o Céu, pois “o mundo não pode salvar-se senão por meio da Cruz de Cristo”5.

Unidas ao Senhor, a mortificação voluntária e as mortificações passivas adquirem o seu sentido mais profundo. Não são atos dirigidos primariamente à nossa perfeição, ou uma maneira de suportarmos com paciência as contrariedades desta vida, mas participação no mistério divino da Redenção.

Aos olhos de alguns, a mortificação pode não passar de loucura ou insensatez, de um resíduo de outras épocas que não combinam com os avanços e o nível cultural do nosso tempo; como também pode ser pedra de escândalo para aqueles que vivem esquecidos de Deus. Mas nenhuma dessas atitudes deve surpreender-nos: São Paulo escrevia que a Cruz é escândalo para os judeus, loucura para os gentios6. E mesmo os cristãos, na medida em que perdem o sentido sobrenatural das suas vidas, não conseguem entender que só possamos seguir o Senhor através de uma vida de sacrifício, junto da Cruz.

Os próprios Apóstolos, que seguem o Senhor quando é aclamado pelas multidões, ainda que o amassem profundamente e estivessem dispostos a dar a vida por Ele, não o seguem até o Calvário, pois ainda eram fracos por não terem recebido o Espírito Santo. Há uma diferença muito grande entre seguir o Senhor quando isso não exige muito, e identificar-se plenamente com Ele através das tribulações, pequenas e grandes, de uma vida sacrificada.

O cristão que vive fugindo sistematicamente do sacrifício, que se revolta com a dor, afasta-se também da santidade e da felicidade, que se encontra muito perto da Cruz, muito perto de Cristo Redentor. “Se não te mortificas, nunca serás alma de oração”7. E Santa Teresa ensina: “Pensar que (o Senhor) admite na sua amizade gente regalada e sem trabalhos é disparate”8.

II. O SENHOR PEDE a cada cristão que o siga de perto, e para isso é necessário acompanhá-lo até o Calvário. Nunca deveríamos esquecer estas palavras: Quem não toma a sua cruz e me segue não é digno de mim9. Muito tempo antes de padecer na Cruz, Jesus já tinha dito aos seus seguidores que teriam de carregá-la.

Há um paradoxo na mortificação, um mistério, que só se pode compreender quando há amor: por trás da aparente morte, encontra-se a Vida; e aquele que, dominado pelo egoísmo, procura conservar a vida para si, esse acaba por perdê-la: Aquele que quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e aquele que a perder por minha causa achá-la-á10. Para podermos dar fruto, amando a Deus e ajudando os outros de uma maneira efetiva, é necessário que nos abramos ao sacrifício. Não há colheita sem plantio: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só; mas se morre, produz muito fruto11. Para sermos sobrenaturalmente eficazes, devemos morrer mediante a contínua mortificação, esquecendo-nos completamente da nossa comodidade e do nosso egoísmo. “Não queres ser grão de trigo, morrer pela mortificação e dar espigas bem graúdas? – Que Jesus abençoe o teu trigal!”12

Devemos perder o medo ao sacrifício, à mortificação voluntária, pois quem quer a Cruz para cada um de nós é um Pai que nos ama e que sabe o que mais nos convém. O Senhor quer sempre o melhor para nós: Vinde a mim todos os que estais fatigados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis paz para as vossas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu peso leve13. Ao lado de Cristo, as tribulações e penas não oprimem, não pesam, e, pelo contrário, levam a alma a orar, a ver a Deus nos acontecimentos da vida.

Pela mortificação, elevamo-nos até o Senhor; sem ela, ficamos grudados à terra. Pelo sacrifício voluntário, pela dor oferecida e assumida com paciência, simplicidade e amor, unimo-nos firmemente ao Senhor. “É como se Ele nos disesse: vós todos que andais atormentados, aflitos e sobrecarregados com o fardo das vossas preocupações e apetites, deixai-os, vinde a mim, e eu vos recrearei, e encontrareis para as vossas almas o descanso que os vossos apetites vos tiram”14.

III. PARA NOS DECIDIRMOS a viver com generosidade a mortificação, convém que compreendamos bem as razões que lhe dão sentido: quando nos custa ser mais mortificados, é porque ainda não descobrimos ou não entendemos a fundo esse sentido.

Os motivos que impelem o cristão a ter uma vida mortificada são vários. O primeiro é esse que considerávamos anteriormente: o desejo de nos identificarmos com o Senhor e de segui-lo nas suas ânsias de redimir por meio da Cruz, oferecendo-se a Si mesmo em sacrifício ao Pai. A nossa mortificação tem assim os mesmos fins da Paixão de Cristo e da Santa Missa, e traduz-se numa união cada vez mais plena com a vontade de Deus.

Mas a mortificação é também meio de progredir nas virtudes. No diálogo que precede o Prefácio da Missa, o sacerdote levanta as mãos ao céu enquanto diz: Corações ao alto, e o povo fiel responde: O nosso coração está em Deus. O nosso coração deve estar permanentemente voltado para Deus, deve estar cheio de amor e com a esperança sempre posta no seu Senhor. É necessário, pois, que não esteja agarrado e preso às coisas da terra, que se vá purificando cada vez mais. E isto não é possível sem penitência, sem a contínua mortificação, que é “meio de progredir”15. Sem ela, a alma enreda-se nas mil coisas pelas quais os sentidos tendem a espalhar-se: apegos, impurezas, aburguesamento, desejos imoderados de conforto… A mortificação liberta-nos de muitos laços e capacita-nos para o amor.

A mortificação émeio indispensável de apostolado: “A ação nada vale sem a oração; a oração valoriza-se com o sacrifício”16. Estaríamos enganados se quiséssemos atrair os outros para Deus sem apoiar essa ação numa oração intensa, e se essa oração não fosse reforçada pela mortificação alegremente oferecida. Foi por isso que se afirmou de mil maneiras diferentes que a vida interior, manifestada especialmente na oração e na mortificação, é a alma de todo o apostolado17.

Não esqueçamos, finalmente, que a mortificação serve também de reparação pelas nossas faltas passadas, pequenas ou grandes. Em muitas orações, a Igreja nos faz pedir ao Senhor que nos ajude a corrigir a vida passada: “Emendationem vitae, spatium verae paenitentiae… tribuat nobis omnipotens et misericors Dominus”: que o Senhor onipotente e misericordioso nos conceda a emenda da nossa vida e um tempo de verdadeira penitência18. Deste modo, pela mortificação, até mesmo as faltas passadas se convertem em fonte de nova vida. “Enterra com a penitência, no fosso profundo que a tua humildade abrir, as tuas negligências, ofensas e pecados. – Assim enterra o lavrador, ao pé da árvore que os produziu, frutos apodrecidos, ramos secos e folhas caducas. – E o que era estéril, melhor, o que era prejudicial, contribui eficazmente para uma nova fecundidade. Aprende a tirar das quedas, impulso; da morte, vida”19.

Peçamos vivamente ao Senhor que, a partir de agora, saibamos aproveitar melhor a nossa vida: “Quando recordares a tua vida passada, passada sem pena nem glória, considera quanto tempo tens perdido e como o podes recuperar: com penitência e com maior entrega”20. E, quando alguma coisa nos custar, virá à nossa mente algum destes pensamentos que nos moverão à mortificação generosa: “Motivos para a penitência? Desagravo, reparação, petição, ação de graças; meio para progredir…; por ti, por mim, pelos outros, pela tua família, pelo teu país, pela Igreja… E mil motivos mais”21.

18ª Semana do Tempo Comum