17 de Fevereiro de 2020

6a Semana Comum Segunda-feira

- por Padre Alexandre Fernandes

SEGUNDA-FEIRA DA VI SEMANA DO TEMPO COMUM

 (cor verde – ofício do dia)

 

Antífona da entrada

 

– Sede o rochedo que me abriga, a casa bem defendida que me salva. Sois minha fortaleza e minha rocha; para a honra do vosso nome, vós me conduzis e alimentais (Sl 30,3).

 

Oração do dia

 

– Ó Deus, que prometestes permanecer nos corações sinceros e retos, dai-nos, por vossa graça, viver de tal modo, que possais habitar em nós. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

1ª Leitura: Tg 1,1-11

– Início da carta de são Tiago: 1Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que vivem na dispersão: Saudações. 2Meus irmãos, quando deveis passar por diversas provações, considerai isso motivo de grande alegria, 3por saberdes que a comprovação da fé produz em vós a perseverança. 4Mas é preciso que a perseverança gere uma obra de perfeição, para que vos torneis perfeitos e íntegros, sem falta ou deficiência alguma.
5Se a alguém de vós falta sabedoria, peça-a a Deus, que a concede generosamente a todos, sem impor condições; e ela lhe será dada. 6Mas peça com fé, sem duvidar, porque aquele que duvida é semelhante a uma onda do mar, impelida e agitada pelo vento. 7Não pense tal pessoa que receberá alguma coisa do Senhor: 8o homem de duas almas é inconstante em todos os seus caminhos. 9O irmão humilde pode ufanar-se de sua exaltação, 10mas o rico deve gloriar-se de sua humilhação. Pois há de passar como a flor da erva. 11Com efeito, basta que surja o sol com o seu calor, logo seca a erva, cai a sua flor, e desaparece a beleza do seu aspecto. Assim também acabará por murchar o rico no meio de seus negócios.

 

– Palavra do Senhor.

– Graças a Deus.

 

Salmo Responsorial: Sl 119,67.68.71.72.75.76 (R: 77a)

 

– Venha a mim o vosso amor e viverei.
R: Venha a mim o vosso amor e viverei.

– Antes de ser por vós provado, eu me perdera; mas agora sigo firme em vossa lei!

R: Venha a mim o vosso amor e viverei.

– Porque sois bom e realizais somente o bem, ensinai-me a fazer vossa vontade!

R: Venha a mim o vosso amor e viverei.

– Para mim foi muito bom ser humilhado, porque assim eu aprendi vossa vontade!

R: Venha a mim o vosso amor e viverei.

– A lei de vossa boca, para mim, vale mais do que milhões em ouro e prata.

R: Venha a mim o vosso amor e viverei.

– Sei que os vossos julgamentos são corretos e com justiça me provastes, ó Senhor!

R: Venha a mim o vosso amor e viverei.

– Vosso amor seja um consolo para mim, conforme a vosso servo prometestes.

R: Venha a mim o vosso amor e viverei.
 

Aclamação ao santo Evangelho.

 

Aleluia, aleluia, aleluia.

Aleluia, aleluia, aleluia.

 

– Sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai, senão por mim (Jo 14,6).

 

Aleluia, aleluia, aleluia.

 

Evangelho de Jesus Cristo, segundo Marcos: Mc 8, 11-13

– O Senhor esteja convosco.

– Ele está no meio de nós.

– Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo † segundo Marcos.

– Glória a vós, Senhor!

 

– Naquele tempo, 11os fariseus vieram e começaram a discutir com Jesus. E, para pô-lo à prova, pediam-lhe um sinal do céu. 12Mas Jesus deu um suspiro profundo e disse: "Por que esta gente pede um sinal? Em verdade vos digo, a esta gente não será dado nenhum sinal". 13E, deixando-os, Jesus entrou de novo na barca e foi para a margem oposta.

 

– Palavra da salvação.

– Glória a vós, Senhor!

Sete Santos fundadores da Ordem dos Servitas

- por Padre Alexandre Fernandes

Interessante percebermos o contexto do surgimento desta ordem. No século XII e XIII, predominava uma burguesia anticristã na vivência, porque dizer que é cristão, que é católico, não é difícil, mas vivenciar e testemunhar o amor a Cristo, à Igreja e aos pobres, só com muito esforço e muita graça do Senhor.

Providencialmente, Deus, em sua misericórdia, foi suscitando vários santos como verdadeiros caminhos da fé e da felicidade, como os sete santos de hoje que fundaram a Ordem dos Servos de Maria. Eles pertenciam ao grupo de burgueses, até que foram se aproximando de um grupo de oração que se reunia com uma imagem de Nossa Senhora e ali oravam. Aqueles jovens foram se aproximando e a graça de Deus foi conquistando o coração deles.

Foram sete a dar um passo de radicalidade. Abandonaram o luxo, os cavalos, as festas, e foram viver uma vida monástica como sinal de santidade naquela sociedade em decadência. Com exceção de Alessio, que ficou como irmão religioso, os demais tornaram-se sacerdotes. Mas todos eles, como um só sinal de que ser servo de Cristo e da Virgem Maria, é preciso ter muito amor.

Oração, penitência e renúncia são percebidos na vida dos santos. Essas coisas são comuns, porque brotam da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo e estão presentes no Evangelho que a Igreja de Cristo prega.

Sete Santos fundadores da Ordem dos Servitas, rogai por nós!

Meditação

- por Padre Alexandre Fernandes

46. O SACRIFÍCIO DE ABEL

– Deve ser para Deus o melhor da nossa vida: amor, tempo, bens…

– Dignidade e generosidade nos objetos de culto.

– Amor a Jesus no Sacrário.

I. O LIVRO DO GÊNESIS1 relata que Abel apresentava a Javé as primícias e o melhor do seu gado. E foi grata a Deus a oferenda de Abel e não o foi a de Caim, que não oferecia o melhor do que colhia.

Abel foi “justo”, isto é, santo e piedoso. O que tornou mais grata a oferenda de Abel não foi a qualidade objetiva do que oferecia, mas a sua entrega e generosidade. Por isso Deus olhou com agrado para as vítimas por ele sacrificadas e possivelmente – de acordo com uma antiga tradição judaica – enviou fogo do céu para queimá-las em sinal de aceitação2.

Na nossa vida, o melhor deve ser para Deus. Devemos apresentar-lhe a oferenda de Abel, não a de Caim. Deve ser para Deus o melhor do nosso tempo, dos nossos bens, da nossa vida. Não podemos dar-lhe o pior, o que sobra, o que não custa sacrifício ou não nos é necessário. Para Deus toda a vida, incluídos os melhores anos. Para o Senhor todos os nossos bens; e, portanto, quando quisermos fazer-lhe uma oferenda concreta, escolheremos o que temos de mais precioso, tal como faríamos com uma criatura da terra que estimamos muito.

O homem não é só corpo nem só alma; está composto de ambos, e por isso necessita também de manifestar através de atos externos, sensíveis, a sua fé e o seu amor a Deus. Dão pena essas pessoas que parecem ter tempo para tudo, mas que dificilmente o têm para Deus: para fazer um pouco de meditação ou uma visita ao Santíssimo que dura uns breves minutos… Ou que dispõem de meios econômicos para tantas coisas e são mesquinhos com Deus e com os homens. O ato de dar sempre dilata o coração e o enobrece. Da mesquinhez acaba por sair uma alma invejosa, como a de Caim: não suportava a generosidade de Abel.

“É preciso oferecer ao Senhor o sacrifício de Abel. Um sacrifício de carne jovem e formosa, o melhor do rebanho: de carne sadia e santa; de corações que só tenham um amor: Tu, meu Deus!; de inteligências trabalhadas pelo estudo profundo, que se renderão perante a tua Sabedoria; de almas infantis, que só pensarão em agradar-Te. – Recebe desde agora, Senhor, este sacrifício em odor de suavidade”3.

Para Vós, Senhor, o melhor da minha vida, do meu trabalho, dos meus talentos, dos meus bens…, incluídos os que poderia ter tido e aos quais renunciei. Para Vós, meu Deus, sem limites, sem condições, tudo o que me destes na vida… Ensinai-me a não vos negar nada, a oferecer-vos sempre o melhor.

Peçamos ao Senhor que haja muitas oferendas e sacrifícios como o de Abel: homens e mulheres que se entreguem a Deus desde a sua juventude, corações que – em qualquer idade – saibam dar tudo o que lhes é pedido, sem regateios, sem tacanhices… Recebei, Senhor, este sacrifício feito com gosto e alegria!

II. “É BONITO CONSIDERAR que o primeiro testemunho de fé em favor de Deus foi dado já por um filho de Adão e Eva, e por meio de um sacrifício. Explica-se, portanto, que os Padres da Igreja vissem em Abel uma figura de Cristo: porque era pastor, porque ofereceu um sacrifício agradável a Deus, porque derramou o seu sangue, porque foi «mártir da fé»”4.

Devemos ser generosos e amar tudo o que se refere ao culto de Deus, porque sempre será pouco e insuficiente para o que a infinita excelência e bondade divina merece. Por sermos cristãos, devemos ter neste campo uma delicadeza extrema e evitar a desconsideração e a mesquinhez: Não oferecereis nada defeituoso, pois não seria aceitável5, alerta-nos o Espírito Santo.

Para Deus o melhor: um culto cheio de generosidade nos elementos sagrados que se utilizam, e cheio de generosidade também no tempo que exige – não mais –, sem pressas, sem abreviar as cerimônias ou a ação de graças privada depois da Santa Missa, por exemplo. O decoro, a qualidade e a beleza dos paramentos litúrgicos e dos vasos sagrados expressam que o melhor que temos é para Deus, são sinal do esplendor da liturgia que a Igreja triunfante tributa à Trindade no Céu, bem como uma poderosa ajuda para reconhecermos a presença divina em nós. A tibieza, a fé mortiça e sem amor tendem a não tratar santamente as coisas santas, a perder de vista a glória, a honra e a majestade que se devem à Santíssima Trindade.

“Estais lembrados daquela cena do Antigo Testamento em que Davi deseja levantar uma casa para a Arca da Aliança, que até então era guardada numa tenda? Naquele tabernáculo, Javé fazia notar a sua presença de um modo misterioso, por uma nuvem e por outros fenômenos extraordinários. E tudo isso não era senão uma sombra, uma figura. No entanto, o Senhor encontra-se realmente presente nos tabernáculos em que está reservada a Santíssima Eucaristia. Aqui temos Jesus Cristo – como me enamora fazer um ato explícito de fé! –, com o seu Corpo, o seu Sangue, a sua Alma e a sua Divindade. No tabernáculo, Jesus preside-nos, ama-nos, espera-nos”6.

Em casa de Simão, o fariseu, onde Jesus sentiu a falta das atenções que era costume ter com os convidados, ficou patente o critério quanto ao dinheiro que se destina às coisas de Deus. Enquanto Jesus se mostra feliz pelas provas de arrependimento daquela mulher, Judas murmura e calcula o gasto – aos seus olhos inútil – que ela fez. Naquela mesma tarde, decidiu traí-lo. Vendeu-o aproximadamente pelo mesmo que custava o perfume derramado: trinta siclos de prata, uns trezentos denários.

“Aquela mulher que, em casa de Simão o leproso, em Betânia, unge com rico perfume a cabeça do Mestre, recorda-nos o dever de sermos magnânimos no culto de Deus.

“– Todo o luxo, majestade e beleza me parecem pouco.

“– E contra os que atacam a riqueza dos vasos sagrados, paramentos e retábulos, ouve-se o louvor de Jesus: «Opus enim bonum operata est in me» – uma boa obra foi a que ela fez comigo”7.

O Senhor também pode dizer-nos, diante da nossa entrega, diante da generosidade que tenhamos para com Ele de mil modos (tempo, bens…): uma boa obra foi a que fez comigo, manifestou-me o seu amor com obras.

III. QUANDO JESUS NASCE, não dispõe sequer do berço de uma criança pobre. Depois, nos anos de vida pública, não tem por vezes um lugar onde reclinar a cabeça. Por fim, morre despojado até das vestes, na pobreza mais absoluta. Mas quando o seu corpo exânime for descido da Cruz e entregue aos que o amam e o seguem de perto, estes hão de tratá-lo com veneração, respeito e amor.

José de Arimatéia encarrega-se de comprar um lençol novo com que o envolverá, e Nicodemos os aromas necessários: São João, talvez admirado, precisou que foram em grande quantidade – umas cem libras, mais de trinta quilos. Não o enterraram no cemitério comum, mas num horto, numa sepultura nova, provavelmente a que José tinha preparado para si próprio. E as mulheres viram o monumento e como foi depositado o seu corpo. De regresso à cidade, prepararam novos aromas… Quando o Corpo de Jesus ficou nas mãos dos que o amavam, todos porfiaram em ver quem o amava mais.

Nos nossos Sacrários, Jesus está vivo! Como em Belém ou no Calvário! Entrega-se a nós para que o nosso amor cuide dEle e o atenda o melhor que possamos, e isso à custa do nosso tempo, do nosso dinheiro, do nosso esforço: do nosso amor.

Nem sequer sob o pretexto da caridade para com o próximo se pode faltar à caridade com Deus; como não se pode louvar uma generosidade com os pobres, imagens de Deus, se se faz a expensas do decoro no culto ao próprio Deus, e muito menos se está ausente o sacrifício pessoal. Se amamos a Deus, o nosso amor ao próximo crescerá com obras e de verdade.

Não é meramente uma questão de preço, nem são possíveis nesta matéria simples cálculos aritméticos: não se trata de defender a suntuosidade, mas a dignidade e o amor a Deus, que também se expressam materialmente8. Faria sentido que houvesse meios para construir lugares de diversão e lazer com bons materiais, até luxuosos, e que para o culto divino só se encontrassem lugares, não já pobres, mas miseráveis, frios, vazios? Nesse caso, teria razão o poeta quando diz que a nudez de algumas igrejas é “a manifestação externa dos nossos pecados e defeitos: debilidade, indigência, timidez na fé e nos sentimentos, coração seco, falta de gosto pelo sobrenatural…”9

A Igreja, velando pela honra de Deus, não rejeita soluções diferentes das de outras épocas, abençoa a pobreza limpa e acolhedora – que maravilhosas igrejas, simples mas muito dignas, há em algumas aldeias de poucos recursos econômicos e de muita fé! –; o que não se concebe é o descuido, o mau gosto, o pouco amor a Deus que representa dedicar ao culto ambientes ou objetos que não se admitiriam no lar da própria família.

Nada mais lógico do que os fiéis contribuírem, de mil maneiras diferentes, para o cuidado e a esmerada conservação de tudo o que se refere ao culto divino. Os sinais litúrgicos e quanto se refere à liturgia entram pelos olhos. Os fiéis devem sair fortalecidos na sua fé, mais alegres, depois de uma cerimônia litúrgica.

Peçamos à Santíssima Virgem que, como Ela, aprendamos a ser generosos com Deus, no grande e no pequeno, na juventude e na maturidade… Que saibamos oferecer, como Abel, o melhor que tenhamos em cada momento e em todas as circunstâncias da nossa vida.

18ª Semana do Tempo Comum