21 de Dezembro de 2018

Liturgia

- por Padre Alexandre Fernandes

I. ESTAMOS já muito perto do Natal. Vai cumprir-se a profecia de Isaías: Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho, e chamar-se-á Emanuel, que significa “Deus conosco”1.

O povo hebreu estava familiarizado com as profecias que apontavam a descendência de Jacó, através de Davi, como portadora das promessas messiânicas. Mas não podia imaginar que o Messias havia de ser o próprio Deus feito homem.

Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher2. E esta mulher, escolhida e predestinada desde toda a eternidade para ser a Mãe do Salvador, tinha consagrado a Deus a sua virgindade, renunciando à honra de contar o Messias entre a sua descendência direta. Desde a eternidade eu fui predestinada – diz o livro dos Provérbios, prefigurando já Nossa Senhora –,desde as origens, antes de que a terra existisse3.

São muitos os frutos que podemos obter nestes dias de um trato mais íntimo com a Virgem e do amor por Ela. Ela própria nos diz: Cresci como a vinha de frutos de agradável odor, e minhas flores são frutos de glória e abundância. Eu sou a mãe do puro amor, do temor, da ciência e da santa esperança. Vinde a mim, todos os que me desejais com ardor, e enchei-vos dos meus frutos; pois o meu espírito é mais doce que o mel, e a minha posse mais suave que o favo4. Nossa Senhora aparece como a Mãe virginal do Messias, que dará todo o seu amor a Jesus, com um coração indiviso, como protótipo da entrega que o Senhor pedirá a muitos.

Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o Arcanjo Gabriel a Nazaré, onde a Virgem vivia. A piedade popular apresenta Maria recolhida em oração enquanto escuta, atentíssima, o desígnio de Deus sobre Ela, a notícia da sua vocação: Ave, cheia de graça, diz-lhe o Anjo5, como lemos no Evangelho da Missa de hoje.

E a Virgem Maria dá o seu pleno assentimento à vontade divina:Faça-se em mim segundo a tua palavra6. A partir desse momento, aceita e começa a realizar a sua vocação, que era a de ser Mãe de Deus e Mãe dos homens.

O centro da humanidade, sem sabê-lo, encontra-se na pequena cidade de Nazaré. Ali está a mulher mais amada de Deus, Aquela que é também a mais amada do mundo, a mais invocada de todos os tempos. Na intimidade do nosso coração, dizemos-lhe agora na nossa oração pessoal: Mãe! Bendita sois vós entre as mulheres!

Em função da sua Maternidade, Maria foi enriquecida de todas as graças e privilégios que a fizeram digna morada do Altíssimo. Deus escolheu a sua Mãe e pôs nela todo o seu Amor e Poder. Não permitiu que fosse tocada pelo pecado: nem pelo original nem pelo pessoal. Foi concebida imaculada, sem mancha alguma. E foi cumulada de tantas graças “que abaixo de Deus não se poderia conceber ninguém maior”7. A sua dignidade é quase infinita.

Todos os privilégios e todas as graças lhe foram dadas para levar a bom termo a sua vocação. Como em qualquer pessoa, a vocação foi o momento central da sua vida: Maria nasceu para ser a Mãe de Deus, escolhida pela Trindade Santíssima desde toda a eternidade.

É também Mãe dos homens, e nestes dias queremos recordar-lhe isso muitas vezes. Com uma oração antiga, que fazemos nossa, podemos dizer-lhe: Lembrai-vos, ó Virgem Mãe de Deus, quando estiverdes na presença do Senhor, de lhe dizer coisas boas de mim.

II. A VOCAÇÃO é também em cada um de nós o ponto central da nossa vida. Tudo ou quase tudo depende de conhecermos e cumprirmos aquilo que Deus nos pede. Seguir e amar a vocação a que Deus nos chamou é a coisa mais importante e mais alegre da vida.

Mas, apesar de a vocação ser a chave que abre as portas da felicidade verdadeira, há os que não querem conhecê-la; preferem fazer a sua própria vontade ao invés da Vontade de Deus; preferem ficar numa ignorância culposa, ao invés de procurarem com toda a sinceridade o caminho em que serão felizes, em que alcançarão com segurança o Céu e farão felizes muitas outras pessoas.

Hoje como ontem, o Senhor dirige chamadas particulares a alguns homens e mulheres. Necessita deles. Além disso, chama-nos a todos com uma vocação santa, a fim de que o sigamos numa vida nova cujo segredo só Ele possui: Se alguém quiser vir após mim…8 Todos recebemos pelo batismo uma vocação que nos convida a procurar a Deus em plenitude de amor. “Porque a vida comum e normal, aquela que vivemos entre os demais concidadãos, nossos iguais, não é nenhuma coisa sem altura e sem relevo. É precisamente nessas circunstâncias que o Senhor quer que a imensa maioria dos seus filhos se santifique.

“É necessário repetir muitas e muitas vezes que Jesus não se dirigiu a um grupo de privilegiados, mas veio revelar-nos o amor universal de Deus. Todos os homens são amados por Deus, de todos espera amor. De todos. Sejam quais forem as suas condições pessoais, a sua posição social, a sua profissão ou ofício. A vida comum e vulgar não é coisa de pouco valor; todos os caminhos da terra podem ser ocasião de um encontro com Cristo, que nos chama à identificação com Ele para realizarmos – no lugar onde estivermos – a sua missão divina.

“Deus chama-nos através das vicissitudes da vida diária, no sofrimento e na alegria das pessoas com quem convivemos, nas aspirações humanas dos nossos companheiros, nos pequenos acontecimentos da vida familiar. Chama-nos também através dos grandes problemas, conflitos e tarefas que definem cada época histórica e que atraem o esforço e os ideais de grande parte da humanidade”9.

A chamada do Senhor a uma maior doação de nós mesmos pede-nos uma resposta urgente, entre outras razões porque a messe é muita e os operários poucos10. E há messes que se perdem cada dia por não haver quem as recolha.

Faça-se em mim segundo a tua palavra, diz a Virgem Maria ao Anjo11. E contemplamo-la radiante de alegria. Nós, enquanto prosseguimos a nossa oração, podemos perguntar-nos: Procuro a Deus no meu trabalho ou no meu estudo, na minha família, na rua… em tudo? Não quererá o Senhor alguma coisa mais de mim?

III. PERANTE A VONTADE DE DEUS, Maria tem uma só resposta: amá-la. Ao proclamar-se escrava do Senhor, aceita os desígnios divinos sem limitação alguma. Avaliaremos melhor em toda a sua força e profundidade essa expressão de Maria se pensarmos no que era a escravidão que estava então plenamente vigente. Pode-se dizer que o escravo não tinha vontade própria, nem outro querer fora do querer do seu amo. A Virgem Maria aceita com extrema alegria não ter outra vontade senão a do seu Amo e Senhor. Entrega-se a Deus sem limitação alguma, sem impor condições.

À imitação de Nossa Senhora, não queiramos ter outra vontade e outros planos a não ser os de Deus. E isso tanto em coisas transcendentais para nós – a nossa vocação – como nas pequenas coisas diárias do nosso trabalho, família, relações sociais.

Um dos mistérios do Advento é o que contemplamos no segundo mistério gozoso do Santo Rosário: a Visitação. Mas reparemos num aspecto concreto do serviço aos outros que se inclui nessa cena: a ordem com que devemos viver a caridade. A delicada visita da nossa Mãe à sua prima Santa Isabel é também uma manifestação dessa ordem na caridade. Devemos amar a todos, porque todos são ou podem ser filhos de Deus, nossos irmãos; mas devemos amar em primeiro lugar os que estão mais perto de nós, aqueles a quem nos unem laços especiais: a nossa família. Esta ordem deve estender-se também às obras, não apenas ao afeto. Pensemos agora no relacionamento com a nossa família, nas mil oportunidades que nos oferece de praticar a caridade e o espírito de serviço de um modo natural.

Queremos viver estes dias do Advento com o mesmo espírito com que os viveu a nossa Mãe. Apoiados na sua entrega humilde a Deus, peçamos-lhe como bons filhos que não nos falte com a sua ajuda, para que, quando o Senhor vier, encontre o nosso coração preparado e sem reservas, dócil aos seus preceitos, aos seus conselhos, às suas inspirações.

“Supliquemos hoje a Santa Maria que nos torne contemplativos, que nos ensine a compreender as chamadas contínuas que o Senhor nos dirige, batendo à porta do nosso coração. Peçamos-lhe: Mãe nossa, tu, que trouxeste à terra Jesus, por quem nos é revelado o amor do nosso Pai-Deus, ajuda-nos a reconhecê-lo no meio das ocupações de cada dia; sacode a nossa inteligência e a nossa vontade, para que saibamos escutar a voz de Deus, o impulso da graça”12.

(1) Is 7, 14; Primeira leitura da Missa do dia 20 de dezembro; (2) Gál 4, 4; (3) Prov 8, 23-31; (4) Eclo 24, 23-24; (5) Lc 1, 28-33; (6) Lc 1, 38; (7) Pio XI, Bula Ineffabilis Deus; (8) Mt 16, 24; (9) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 110; (10) cfr. Mt 9, 37; (11) Lc 1, 38; (12) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 174.

Fonte: livro “Falar com Deus”, de Francisco Fernández Carvajal

Santo

- por Padre Alexandre Fernandes

I. ESTAMOS já muito perto do Natal. Vai cumprir-se a profecia de Isaías: Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho, e chamar-se-á Emanuel, que significa “Deus conosco”1.

O povo hebreu estava familiarizado com as profecias que apontavam a descendência de Jacó, através de Davi, como portadora das promessas messiânicas. Mas não podia imaginar que o Messias havia de ser o próprio Deus feito homem.

Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher2. E esta mulher, escolhida e predestinada desde toda a eternidade para ser a Mãe do Salvador, tinha consagrado a Deus a sua virgindade, renunciando à honra de contar o Messias entre a sua descendência direta. Desde a eternidade eu fui predestinada – diz o livro dos Provérbios, prefigurando já Nossa Senhora –,desde as origens, antes de que a terra existisse3.

São muitos os frutos que podemos obter nestes dias de um trato mais íntimo com a Virgem e do amor por Ela. Ela própria nos diz: Cresci como a vinha de frutos de agradável odor, e minhas flores são frutos de glória e abundância. Eu sou a mãe do puro amor, do temor, da ciência e da santa esperança. Vinde a mim, todos os que me desejais com ardor, e enchei-vos dos meus frutos; pois o meu espírito é mais doce que o mel, e a minha posse mais suave que o favo4. Nossa Senhora aparece como a Mãe virginal do Messias, que dará todo o seu amor a Jesus, com um coração indiviso, como protótipo da entrega que o Senhor pedirá a muitos.

Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o Arcanjo Gabriel a Nazaré, onde a Virgem vivia. A piedade popular apresenta Maria recolhida em oração enquanto escuta, atentíssima, o desígnio de Deus sobre Ela, a notícia da sua vocação: Ave, cheia de graça, diz-lhe o Anjo5, como lemos no Evangelho da Missa de hoje.

E a Virgem Maria dá o seu pleno assentimento à vontade divina:Faça-se em mim segundo a tua palavra6. A partir desse momento, aceita e começa a realizar a sua vocação, que era a de ser Mãe de Deus e Mãe dos homens.

O centro da humanidade, sem sabê-lo, encontra-se na pequena cidade de Nazaré. Ali está a mulher mais amada de Deus, Aquela que é também a mais amada do mundo, a mais invocada de todos os tempos. Na intimidade do nosso coração, dizemos-lhe agora na nossa oração pessoal: Mãe! Bendita sois vós entre as mulheres!

Em função da sua Maternidade, Maria foi enriquecida de todas as graças e privilégios que a fizeram digna morada do Altíssimo. Deus escolheu a sua Mãe e pôs nela todo o seu Amor e Poder. Não permitiu que fosse tocada pelo pecado: nem pelo original nem pelo pessoal. Foi concebida imaculada, sem mancha alguma. E foi cumulada de tantas graças “que abaixo de Deus não se poderia conceber ninguém maior”7. A sua dignidade é quase infinita.

Todos os privilégios e todas as graças lhe foram dadas para levar a bom termo a sua vocação. Como em qualquer pessoa, a vocação foi o momento central da sua vida: Maria nasceu para ser a Mãe de Deus, escolhida pela Trindade Santíssima desde toda a eternidade.

É também Mãe dos homens, e nestes dias queremos recordar-lhe isso muitas vezes. Com uma oração antiga, que fazemos nossa, podemos dizer-lhe: Lembrai-vos, ó Virgem Mãe de Deus, quando estiverdes na presença do Senhor, de lhe dizer coisas boas de mim.

II. A VOCAÇÃO é também em cada um de nós o ponto central da nossa vida. Tudo ou quase tudo depende de conhecermos e cumprirmos aquilo que Deus nos pede. Seguir e amar a vocação a que Deus nos chamou é a coisa mais importante e mais alegre da vida.

Mas, apesar de a vocação ser a chave que abre as portas da felicidade verdadeira, há os que não querem conhecê-la; preferem fazer a sua própria vontade ao invés da Vontade de Deus; preferem ficar numa ignorância culposa, ao invés de procurarem com toda a sinceridade o caminho em que serão felizes, em que alcançarão com segurança o Céu e farão felizes muitas outras pessoas.

Hoje como ontem, o Senhor dirige chamadas particulares a alguns homens e mulheres. Necessita deles. Além disso, chama-nos a todos com uma vocação santa, a fim de que o sigamos numa vida nova cujo segredo só Ele possui: Se alguém quiser vir após mim…8 Todos recebemos pelo batismo uma vocação que nos convida a procurar a Deus em plenitude de amor. “Porque a vida comum e normal, aquela que vivemos entre os demais concidadãos, nossos iguais, não é nenhuma coisa sem altura e sem relevo. É precisamente nessas circunstâncias que o Senhor quer que a imensa maioria dos seus filhos se santifique.

“É necessário repetir muitas e muitas vezes que Jesus não se dirigiu a um grupo de privilegiados, mas veio revelar-nos o amor universal de Deus. Todos os homens são amados por Deus, de todos espera amor. De todos. Sejam quais forem as suas condições pessoais, a sua posição social, a sua profissão ou ofício. A vida comum e vulgar não é coisa de pouco valor; todos os caminhos da terra podem ser ocasião de um encontro com Cristo, que nos chama à identificação com Ele para realizarmos – no lugar onde estivermos – a sua missão divina.

“Deus chama-nos através das vicissitudes da vida diária, no sofrimento e na alegria das pessoas com quem convivemos, nas aspirações humanas dos nossos companheiros, nos pequenos acontecimentos da vida familiar. Chama-nos também através dos grandes problemas, conflitos e tarefas que definem cada época histórica e que atraem o esforço e os ideais de grande parte da humanidade”9.

A chamada do Senhor a uma maior doação de nós mesmos pede-nos uma resposta urgente, entre outras razões porque a messe é muita e os operários poucos10. E há messes que se perdem cada dia por não haver quem as recolha.

Faça-se em mim segundo a tua palavra, diz a Virgem Maria ao Anjo11. E contemplamo-la radiante de alegria. Nós, enquanto prosseguimos a nossa oração, podemos perguntar-nos: Procuro a Deus no meu trabalho ou no meu estudo, na minha família, na rua… em tudo? Não quererá o Senhor alguma coisa mais de mim?

III. PERANTE A VONTADE DE DEUS, Maria tem uma só resposta: amá-la. Ao proclamar-se escrava do Senhor, aceita os desígnios divinos sem limitação alguma. Avaliaremos melhor em toda a sua força e profundidade essa expressão de Maria se pensarmos no que era a escravidão que estava então plenamente vigente. Pode-se dizer que o escravo não tinha vontade própria, nem outro querer fora do querer do seu amo. A Virgem Maria aceita com extrema alegria não ter outra vontade senão a do seu Amo e Senhor. Entrega-se a Deus sem limitação alguma, sem impor condições.

À imitação de Nossa Senhora, não queiramos ter outra vontade e outros planos a não ser os de Deus. E isso tanto em coisas transcendentais para nós – a nossa vocação – como nas pequenas coisas diárias do nosso trabalho, família, relações sociais.

Um dos mistérios do Advento é o que contemplamos no segundo mistério gozoso do Santo Rosário: a Visitação. Mas reparemos num aspecto concreto do serviço aos outros que se inclui nessa cena: a ordem com que devemos viver a caridade. A delicada visita da nossa Mãe à sua prima Santa Isabel é também uma manifestação dessa ordem na caridade. Devemos amar a todos, porque todos são ou podem ser filhos de Deus, nossos irmãos; mas devemos amar em primeiro lugar os que estão mais perto de nós, aqueles a quem nos unem laços especiais: a nossa família. Esta ordem deve estender-se também às obras, não apenas ao afeto. Pensemos agora no relacionamento com a nossa família, nas mil oportunidades que nos oferece de praticar a caridade e o espírito de serviço de um modo natural.

Queremos viver estes dias do Advento com o mesmo espírito com que os viveu a nossa Mãe. Apoiados na sua entrega humilde a Deus, peçamos-lhe como bons filhos que não nos falte com a sua ajuda, para que, quando o Senhor vier, encontre o nosso coração preparado e sem reservas, dócil aos seus preceitos, aos seus conselhos, às suas inspirações.

“Supliquemos hoje a Santa Maria que nos torne contemplativos, que nos ensine a compreender as chamadas contínuas que o Senhor nos dirige, batendo à porta do nosso coração. Peçamos-lhe: Mãe nossa, tu, que trouxeste à terra Jesus, por quem nos é revelado o amor do nosso Pai-Deus, ajuda-nos a reconhecê-lo no meio das ocupações de cada dia; sacode a nossa inteligência e a nossa vontade, para que saibamos escutar a voz de Deus, o impulso da graça”12.

(1) Is 7, 14; Primeira leitura da Missa do dia 20 de dezembro; (2) Gál 4, 4; (3) Prov 8, 23-31; (4) Eclo 24, 23-24; (5) Lc 1, 28-33; (6) Lc 1, 38; (7) Pio XI, Bula Ineffabilis Deus; (8) Mt 16, 24; (9) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 110; (10) cfr. Mt 9, 37; (11) Lc 1, 38; (12) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 174.

Fonte: livro “Falar com Deus”, de Francisco Fernández Carvajal

Homilia

- por Padre Alexandre Fernandes

I. ESTAMOS já muito perto do Natal. Vai cumprir-se a profecia de Isaías: Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho, e chamar-se-á Emanuel, que significa “Deus conosco”1.

O povo hebreu estava familiarizado com as profecias que apontavam a descendência de Jacó, através de Davi, como portadora das promessas messiânicas. Mas não podia imaginar que o Messias havia de ser o próprio Deus feito homem.

Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher2. E esta mulher, escolhida e predestinada desde toda a eternidade para ser a Mãe do Salvador, tinha consagrado a Deus a sua virgindade, renunciando à honra de contar o Messias entre a sua descendência direta. Desde a eternidade eu fui predestinada – diz o livro dos Provérbios, prefigurando já Nossa Senhora –,desde as origens, antes de que a terra existisse3.

São muitos os frutos que podemos obter nestes dias de um trato mais íntimo com a Virgem e do amor por Ela. Ela própria nos diz: Cresci como a vinha de frutos de agradável odor, e minhas flores são frutos de glória e abundância. Eu sou a mãe do puro amor, do temor, da ciência e da santa esperança. Vinde a mim, todos os que me desejais com ardor, e enchei-vos dos meus frutos; pois o meu espírito é mais doce que o mel, e a minha posse mais suave que o favo4. Nossa Senhora aparece como a Mãe virginal do Messias, que dará todo o seu amor a Jesus, com um coração indiviso, como protótipo da entrega que o Senhor pedirá a muitos.

Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o Arcanjo Gabriel a Nazaré, onde a Virgem vivia. A piedade popular apresenta Maria recolhida em oração enquanto escuta, atentíssima, o desígnio de Deus sobre Ela, a notícia da sua vocação: Ave, cheia de graça, diz-lhe o Anjo5, como lemos no Evangelho da Missa de hoje.

E a Virgem Maria dá o seu pleno assentimento à vontade divina:Faça-se em mim segundo a tua palavra6. A partir desse momento, aceita e começa a realizar a sua vocação, que era a de ser Mãe de Deus e Mãe dos homens.

O centro da humanidade, sem sabê-lo, encontra-se na pequena cidade de Nazaré. Ali está a mulher mais amada de Deus, Aquela que é também a mais amada do mundo, a mais invocada de todos os tempos. Na intimidade do nosso coração, dizemos-lhe agora na nossa oração pessoal: Mãe! Bendita sois vós entre as mulheres!

Em função da sua Maternidade, Maria foi enriquecida de todas as graças e privilégios que a fizeram digna morada do Altíssimo. Deus escolheu a sua Mãe e pôs nela todo o seu Amor e Poder. Não permitiu que fosse tocada pelo pecado: nem pelo original nem pelo pessoal. Foi concebida imaculada, sem mancha alguma. E foi cumulada de tantas graças “que abaixo de Deus não se poderia conceber ninguém maior”7. A sua dignidade é quase infinita.

Todos os privilégios e todas as graças lhe foram dadas para levar a bom termo a sua vocação. Como em qualquer pessoa, a vocação foi o momento central da sua vida: Maria nasceu para ser a Mãe de Deus, escolhida pela Trindade Santíssima desde toda a eternidade.

É também Mãe dos homens, e nestes dias queremos recordar-lhe isso muitas vezes. Com uma oração antiga, que fazemos nossa, podemos dizer-lhe: Lembrai-vos, ó Virgem Mãe de Deus, quando estiverdes na presença do Senhor, de lhe dizer coisas boas de mim.

II. A VOCAÇÃO é também em cada um de nós o ponto central da nossa vida. Tudo ou quase tudo depende de conhecermos e cumprirmos aquilo que Deus nos pede. Seguir e amar a vocação a que Deus nos chamou é a coisa mais importante e mais alegre da vida.

Mas, apesar de a vocação ser a chave que abre as portas da felicidade verdadeira, há os que não querem conhecê-la; preferem fazer a sua própria vontade ao invés da Vontade de Deus; preferem ficar numa ignorância culposa, ao invés de procurarem com toda a sinceridade o caminho em que serão felizes, em que alcançarão com segurança o Céu e farão felizes muitas outras pessoas.

Hoje como ontem, o Senhor dirige chamadas particulares a alguns homens e mulheres. Necessita deles. Além disso, chama-nos a todos com uma vocação santa, a fim de que o sigamos numa vida nova cujo segredo só Ele possui: Se alguém quiser vir após mim…8 Todos recebemos pelo batismo uma vocação que nos convida a procurar a Deus em plenitude de amor. “Porque a vida comum e normal, aquela que vivemos entre os demais concidadãos, nossos iguais, não é nenhuma coisa sem altura e sem relevo. É precisamente nessas circunstâncias que o Senhor quer que a imensa maioria dos seus filhos se santifique.

“É necessário repetir muitas e muitas vezes que Jesus não se dirigiu a um grupo de privilegiados, mas veio revelar-nos o amor universal de Deus. Todos os homens são amados por Deus, de todos espera amor. De todos. Sejam quais forem as suas condições pessoais, a sua posição social, a sua profissão ou ofício. A vida comum e vulgar não é coisa de pouco valor; todos os caminhos da terra podem ser ocasião de um encontro com Cristo, que nos chama à identificação com Ele para realizarmos – no lugar onde estivermos – a sua missão divina.

“Deus chama-nos através das vicissitudes da vida diária, no sofrimento e na alegria das pessoas com quem convivemos, nas aspirações humanas dos nossos companheiros, nos pequenos acontecimentos da vida familiar. Chama-nos também através dos grandes problemas, conflitos e tarefas que definem cada época histórica e que atraem o esforço e os ideais de grande parte da humanidade”9.

A chamada do Senhor a uma maior doação de nós mesmos pede-nos uma resposta urgente, entre outras razões porque a messe é muita e os operários poucos10. E há messes que se perdem cada dia por não haver quem as recolha.

Faça-se em mim segundo a tua palavra, diz a Virgem Maria ao Anjo11. E contemplamo-la radiante de alegria. Nós, enquanto prosseguimos a nossa oração, podemos perguntar-nos: Procuro a Deus no meu trabalho ou no meu estudo, na minha família, na rua… em tudo? Não quererá o Senhor alguma coisa mais de mim?

III. PERANTE A VONTADE DE DEUS, Maria tem uma só resposta: amá-la. Ao proclamar-se escrava do Senhor, aceita os desígnios divinos sem limitação alguma. Avaliaremos melhor em toda a sua força e profundidade essa expressão de Maria se pensarmos no que era a escravidão que estava então plenamente vigente. Pode-se dizer que o escravo não tinha vontade própria, nem outro querer fora do querer do seu amo. A Virgem Maria aceita com extrema alegria não ter outra vontade senão a do seu Amo e Senhor. Entrega-se a Deus sem limitação alguma, sem impor condições.

À imitação de Nossa Senhora, não queiramos ter outra vontade e outros planos a não ser os de Deus. E isso tanto em coisas transcendentais para nós – a nossa vocação – como nas pequenas coisas diárias do nosso trabalho, família, relações sociais.

Um dos mistérios do Advento é o que contemplamos no segundo mistério gozoso do Santo Rosário: a Visitação. Mas reparemos num aspecto concreto do serviço aos outros que se inclui nessa cena: a ordem com que devemos viver a caridade. A delicada visita da nossa Mãe à sua prima Santa Isabel é também uma manifestação dessa ordem na caridade. Devemos amar a todos, porque todos são ou podem ser filhos de Deus, nossos irmãos; mas devemos amar em primeiro lugar os que estão mais perto de nós, aqueles a quem nos unem laços especiais: a nossa família. Esta ordem deve estender-se também às obras, não apenas ao afeto. Pensemos agora no relacionamento com a nossa família, nas mil oportunidades que nos oferece de praticar a caridade e o espírito de serviço de um modo natural.

Queremos viver estes dias do Advento com o mesmo espírito com que os viveu a nossa Mãe. Apoiados na sua entrega humilde a Deus, peçamos-lhe como bons filhos que não nos falte com a sua ajuda, para que, quando o Senhor vier, encontre o nosso coração preparado e sem reservas, dócil aos seus preceitos, aos seus conselhos, às suas inspirações.

“Supliquemos hoje a Santa Maria que nos torne contemplativos, que nos ensine a compreender as chamadas contínuas que o Senhor nos dirige, batendo à porta do nosso coração. Peçamos-lhe: Mãe nossa, tu, que trouxeste à terra Jesus, por quem nos é revelado o amor do nosso Pai-Deus, ajuda-nos a reconhecê-lo no meio das ocupações de cada dia; sacode a nossa inteligência e a nossa vontade, para que saibamos escutar a voz de Deus, o impulso da graça”12.

(1) Is 7, 14; Primeira leitura da Missa do dia 20 de dezembro; (2) Gál 4, 4; (3) Prov 8, 23-31; (4) Eclo 24, 23-24; (5) Lc 1, 28-33; (6) Lc 1, 38; (7) Pio XI, Bula Ineffabilis Deus; (8) Mt 16, 24; (9) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 110; (10) cfr. Mt 9, 37; (11) Lc 1, 38; (12) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 174.

Fonte: livro “Falar com Deus”, de Francisco Fernández Carvajal

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