21 de Fevereiro de 2020

6a Semana Comum Sexta-feira

- por Padre Alexandre Fernandes

SEXTA-FEIRA DA VI SEMANA DO TEMPO COMUM
(cor verde – ofício do dia)

 

Antífona da entrada

 

– Sede o rochedo que me abriga, a casa bem defendida que me salva. Sois minha fortaleza e minha rocha; para a honra do vosso nome, vós me conduzis e alimentais (Sl 30,3).

 

Oração do dia

 

– Ó Deus, que prometestes permanecer nos corações sinceros e retos, dai-nos, por vossa graça, viver de tal modo, que possais habitar em nós. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

1ª Leitura: Tg 2,14-24.26

– Leitura da carta de são Tiago: 14Meus irmãos, de que adianta alguém dizer que tem fé, quando não a põe em prática? A fé seria então capaz de salvá-lo? 15Imaginai que um irmão ou uma irmã não tem o que vestir e que lhe falta a comida de cada dia; 16se então alguém de vós lhe disser: “Ide em paz, aquecei-vos”, e: “Comei à vontade”, sem lhe dar o necessário para o corpo, que adiantará isso? 17Assim também a fé: se não se traduz em obras, por si só está morta. 18Em compensação, alguém poderá dizer: “Tu tens a fé e eu tenho a prática! Tu, mostra-me a tua fé sem as obras, que eu te mostrarei a minha fé pelas obras! 19Crês que há um só Deus? Fazes bem! Mas também os demônios crêem isso, e estremecem. 20Queres então saber, homem insensato, como a fé sem a prática é vã? 21O nosso pai Abraão foi declarado justo: não será por causa de sua prática, até o ponto de oferecer seu filho Isaac sobre o altar? 22Como estás vendo, a fé concorreu para as obras, e, graças às obras, a fé tornou-se completa. 23Foi assim que se cumpriu a Escritura que diz: ‘Abraão teve fé em Deus, e isto lhe foi levado em conta de justiça, e ele foi chamado amigo de Deus”’. 24Estais vendo, pois, que o homem é justificado pelas obras e não simplesmente pela fé. 26Assim como o corpo sem o espírito é morto, assim também a fé, sem as obras, é morta.

 

– Palavra do Senhor.

– Graças a Deus.

 

Salmo Responsorial: Sl 112,1-3-4.5-6 (R: 1b)

 

– Feliz é todo aquele que ama com carinho a lei do Senhor Deus.
R: Feliz é todo aquele que ama com carinho a lei do Senhor Deus.

– Feliz o homem que respeita o Senhor e que ama com carinho a sua lei! Sua descendência será forte sobre a terra, abençoada a geração dos homens retos!

R: Feliz é todo aquele que ama com carinho a lei do Senhor Deus.

– Haverá glória e riqueza em sua casa, e permanece para sempre o bem que fez. Ele é correto, generoso e compassivo, como luz brilha nas trevas para os justos.

R: Feliz é todo aquele que ama com carinho a lei do Senhor Deus.

– Feliz o homem caridoso e prestativo, que resolve seus negócios com justiça. Porque jamais vacilará o homem reto, sua lembrança permanece eternamente!

R: Feliz é todo aquele que ama com carinho a lei do Senhor Deus.

 

Aclamação ao santo Evangelho.

 

Aleluia, aleluia, aleluia.

Aleluia, aleluia, aleluia.

 

– Eu vos chamo meus amigos, pois vos dei a conhecer o que o Pai me revelou

 (Jo 15,15).

 

Aleluia, aleluia, aleluia.

 

Evangelho de Jesus Cristo, segundo Marcos: Mc 8,34-38; 9,1

– O Senhor esteja convosco.

– Ele está no meio de nós.

– Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo † segundo Marcos.

– Glória a vós, Senhor!

 

– Naquele tempo,34chamou Jesus a multidão com seus discípulos e disse: "Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. 35Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho vai salvá-la. 36Com efeito, de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se perde a própria vida? 37E o que poderia o homem dar em troca da própria vida? 38Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras diante dessa geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele quando vier na glória do seu Pai com seus santos anjos". 9,1Disse-lhes Jesus: "Em verdade vos digo, alguns dos que aqui estão não morrerão sem antes terem visto o Reino de Deus chegar com poder".

 

– Palavra da salvação.

– Glória a vós, Senhor!

São Pedro Damião

- por Padre Alexandre Fernandes

São Pedro Damião, Bispo e Doutor da Igreja. Nasceu em Ravena, Itália no ano de 1007. Marcado desde cedo pelo sofrimento porque perdeu os seus pais, foi morar e viver com seu irmão. No amor e no acolhimento, São Pedro Damião pode discernir a sua vocação.

Oração e penitência, algo que sempre acompanhou a vida de Pedro Damião; e algo que também precisa nos acompanhar constantemente.

São Pedro Damião discerniu sua vocação à vida religiosa e entrou para a Ordem dos Camaldulenses, no mosteiro de Fonte Avellana, na Úmbria, onde religiosos austeros levavam vida de eremitas.

Diante das regras e do que ele via e percebia, era preciso uma renovação a começar por ele. Ao se abrir a ação do Espírito Santo, ao ser obediente às regras, outros também foram se ajuntando a Pedro Damião, fundaram outros mosteiros e deram essa contribuição.

A renovação de qualquer instituição passa pela renovação pessoal, e também é válido para os tempos de hoje. As reclamações, as acusações, as rebeliões nada renovam, mas a decisão pessoal, a abertura a Deus, isso sim, pode provocar, como provocou na vida e na história de São Pedro Damião, uma renovação.

Deus pediu mais, e ele foi servir de maneira mais próxima a hierarquia da Igreja, sendo conselheiro de um Papa. Foi Bispo de Óstia, lugar perto de Roma, e também foi escolhido como Cardeal. Algo que marcou a sua história.

São Pedro Damião, sua própria vida nos aconselha a oração, a penitência e ao amor que se compromete com a renovação dos outros, pois a partir da renovação pessoal, nós também ajudamos na renovação do outro e das instituições.

A Igreja precisa ser renovada constantemente, para isso somos chamados a nossa renovação pessoal, a conversão diária. Peçamos a intercessão do santo de hoje que foi Bispo, Cardeal e Doutor da Igreja.

São Pedro Damião, rogai por nós!

Meditação

- por Padre Alexandre Fernandes

50. A SOBERBA

– Contar com Deus.

– O egoísmo e a soberba.

– Para crescer na humildade.

I. LEMOS NO GÊNESIS1 que um dia os homens se empenharam num projeto colossal – que deveria ser ao mesmo tempo um símbolo e o centro da unidade do gênero humano – mediante a construção de uma grande cidade chamada Babel e de uma torre gigantesca. Mas aquela obra não chegou a ser concluída, e os homens viram-se mergulhados numa dispersão muito maior que antes, divididos entre si, confundidos na linguagem, incapazes de se porem de acordo…

“Por que falhou aquele projeto ambicioso? Por que os construtores se cansaram em vão? Porque os homens puseram como sinal e garantia da unidade desejada somente uma obra das suas mãos, esquecendo a ação do Senhor”2. Ao comentar assim esse texto da Sagrada Escritura, o Papa João Paulo II relaciona o pecado daqueles homens, “que quiseram ser fortes e poderosos sem Deus, ou mesmo contra Deus”, com o dos nossos primeiros pais, que tiveram a pretensão enganosa de ser como Ele3. No fundo, tanto numa situação como na outra, tratou-se de uma atitude de soberba, que é o que se encontra na raiz de todo o pecado e que tem manifestações tão diversas. Na narração da torre de Babel, a exclusão de Deus não aparece como uma atitude de rebeldia contra o Senhor, “mas como esquecimento e indiferença para com Ele; como se Deus não merecesse ser tomado em consideração no âmbito do projeto operativo e associativo. Nos dois casos, porém, a relação com Deus foi rompida com violência”4.

Devemos recordar freqüentemente que Deus deve ser o ponto de referência constante dos nossos desejos e projetos, e que a tendência para deixar-se levar pela soberba persiste no coração de todo o homem até o exato momento em que morre. Essa soberba induz-nos a “ser como Deus”, nem que seja no pequeno âmbito dos nossos interesses, ou a prescindir dEle como se não fosse o nosso Criador e Salvador, de quem dependemos no ser e no existir.

O soberbo tende a apoiar-se exclusivamente – como os construtores de Babel – nas suas próprias forças, e é incapaz de levantar o olhar acima das suas qualidades e êxitos; por isso fica sempre ao nível do chão. O soberbo exclui Deus da sua vida, “como se não merecesse ser tomado em consideração”: não lhe pede ajuda, não lhe agradece; e por isso também não sente a necessidade de pedir apoio e conselho na direção espiritual, através da qual nos chegam em tantas ocasiões a força e a luz de Deus. Encontra-se só e fraco, ainda que se julgue forte e capaz de grandes obras; também por isso é imprudente e não evita as ocasiões em que põe em perigo o bem da sua alma.

Não queiramos prescindir de Deus nos nossos projetos. “Ele é o alicerce e nós o edifício; Ele é o talo da videira e nós os ramos […]. Ele é a vida e nós vivemos por Ele […]; Ele é a luz e dissipa a nossa escuridão”5. A nossa vida não tem sentido sem Cristo; não deve ter outro alicerce. Tudo nela ficaria desconjuntado e disperso se não recorrêssemos ao Senhor nas nossas obras.

II. A SOBERBA TRAZ como seqüela inevitável o egoísmo. A pessoa egoísta faz de si própria a medida de todas as coisas, até chegar à atitude que Santo Agostinho aponta como a origem de todos os desvios morais: “o amor-próprio até o desprezo de Deus”6.

O egoísta não sabe amar: procura sempre receber, porque no fundo só se quer a si mesmo. Quantas vezes não teremos experimentado na nossa vida pessoal a realidade daquele ensinamento de Santa Catarina de Sena: a alma não pode viver sem amar, e, quando não ama a Deus, ama-se desordenadamente a si mesma, e esse amor infeliz “obscurece e encolhe o olhar da inteligência, que deixa de ver com clareza e só se move numa falsa luminosidade. A luz com que a partir daí a inteligência vê as coisas é um brilho enganoso do bem, do falso prazer para o qual o amor agora se inclina… A alma não tira dele outro fruto senão a soberba e a impaciência”7.

A soberba é realmente a raiz do egoísmo. O egoísmo – que é encarar tudo na medida em que me traz ou não alguma vantagem – e a soberba – que é avaliar falsamente as minhas qualidades e desejar desmedidamente a minha própria glória – são vícios que se confundem freqüentemente, e neles se encontra de alguma forma a desordem radical de que partem todos os pecados.

Com a graça de Deus, temos que viver vigilantes e combater a soberba e o egoísmo nas suas diversas manifestações: a vaidade e a vanglória (às vezes muito patentes nos pensamentos inúteis, em que freqüentemente somos o centro, o herói, aquele que triunfa em todas as situações); o desprezo dos outros (que se exterioriza em piadas, ironias, juízos negativos, intervenções inoportunas ou destemperadas na conversa…); a mesquinhez de quem não sabe dar sem esperar nada em troca, porque tudo lhe é devido e ele nada deve… No fundo, o soberbo, tal como o egoísta, só sabe ignorar e desprezar os outros ou então pisá-los para subir…

“Temos que pedir ao Senhor que não nos deixe cair nesta tentação. A soberba é o pior e o mais ridículo dos pecados. Se consegue atenazar alguém com as suas múltiplas alucinações, a pessoa atacada veste-se de aparência, enche-se de vazio, empertiga-se como o sapo da fábula, que inchava o bucho, presunçosamente, até que explodiu. A soberba é desagradável, mesmo humanamente: quem se considera superior a todos e a tudo, está continuamente contemplando-se a si próprio e desprezando os outros, e estes correspondem-lhe escarnecendo da sua vã fatuidade”8.

Não permitais, Senhor, que eu caia nesse triste estado, em que não contemplo o vosso rosto amável nem vejo tantas virtudes e boas qualidades que possuem aqueles que me rodeiam.

III. PARA CONSTRUIRMOS o alto edifício da vida cristã, devemos ter um grande desejo de assentá-lo muito fundo na virtude da humildade, começando por pedi-la deveras ao Senhor, meditando com freqüência e com gosto no seu exemplo e na sua doutrina: Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração…9

Depois, devemos estar dispostos a aceitar a humilhação que supõem todos os defeitos que não conseguimos vencer, as fraquezas diárias… Muitas vezes, pode ajudar-nos à hora do exame uma destas perguntas: “– Soube oferecer ao Senhor, como expiação, a própria dor que sinto de tê-lo ofendido, tantas vezes!? Ofereci-lhe a vergonha dos meus rubores e humilhações interiores, ao considerar como avanço pouco no caminho das virtudes?”10 Deveremos também ter fome de aproveitar bem – porque não serão muitas – as humilhações que nos vêm de fora: “Não és humilde quando te humilhas, mas quando te humilham e o aceitas por Cristo”11.

Enfim, se tivermos ânsias de apoiar-nos na rocha firme que é a humildade de Nosso Senhor, encontraremos cada dia mil ocasiões de ir ao encontro desta virtude: falaremos só o necessário – ou talvez menos que o necessário – de nós mesmos; manifestaremos agradecimento pelos pequenos favores que nos prestam os que estão ao nosso lado, considerando que não merecemos nada; quereremos tornar mais amável pela nossa cara sorridente a vida daqueles que encontramos ao longo do dia, sem nos fecharmos nos nossos interesses ou nos nossos estados de ânimo; não perderemos nenhuma oportunidade de nos mostrarmos disponíveis e de prestar pequenos serviços na vida familiar, no trabalho, em qualquer parte, persuadidos de que a humildade leva à caridade…

A humildade está intimamente relacionada com todas as virtudes. O humilde é um homem alegre, simples, sincero, afável, magnânimo. E por tudo isso tem também uma facilidade especial para a amizade e, portanto, para o apostolado: as pessoas que vai conhecendo não demoram a abrir-lhe a alma em confidência. Esse é o seu retrato, porque, apesar dos pesares, confia unicamente em Deus, nunca em si próprio.

Aprendamos esta virtude contemplando a vida de Santa Maria. Deus fez nela grandes coisas “«quia respexit humilitatem ancillae suae» – porque viu a baixeza da sua escrava…

“– Cada dia me persuado mais de que a humildade autêntica é a base sobrenatural de todas as virtudes!

“Fala com Nossa Senhora, para que Ela nos vá adestrando em caminhar por essa senda”12.

14º Domingo do Tempo Comum