22 de Abril de 2020

2a Semana da Páscoa Quarta-feira

- por Padre Alexandre Fernandes

QUARTA FEIRA – 2ª SEMANA DE PÁSCOA
(branco – Pf. Pascal, ofício do dia)

 

Antífona da entrada

 

– Senhor, eu vos louvarei entre os povos, anunciarei vosso nome aos meus irmãos, aleluia!

 

Oração do dia

 

– Imploramos, ó Deus, a vossa clemência, ao recordar cada ano o mistério pascal que renova a dignidade humana e nos traz esperança da ressurreição; concedei-nos acolher sempre com amor o que celebramos com fé. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

1ª Leitura: At 5,17-26

 

– Leitura dos Atos dos Apóstolos: Naqueles dias, 17levantaram-se o sumo sacerdote e todos os do seu partido — isto é, o partido dos saduceus — cheios de raiva 18e mandaram prender os apóstolos e lançá-los na cadeia pública. 19Porém, durante a noite, o anjo do Senhor abriu as portas da prisão e os fez sair, dizendo: 20“Ide falar ao povo, no Templo, sobre tudo o que se refere a este modo de viver”. 21Eles obedeceram e, ao amanhecer, entraram no Templo e começaram a ensinar. O sumo sacerdote chegou com os seus partidários e convocou o Sinédrio e o Conselho formado pelas pessoas importantes do povo de Israel. Então mandaram buscar os apóstolos na prisão. 22Mas, ao chegarem à prisão, os servos não os encontraram e voltaram dizendo: 23“Encontramos a prisão fechada, com toda segurança, e os guardas estavam a postos na frente da porta. Mas, quando abrimos a porta, não encontramos ninguém lá dentro”. 24Ao ouvirem essa notícia, o chefe da guarda do Templo e os sumos sacerdotes não sabiam o que pensar e perguntavam-se o que poderia ter acontecido. 25Chegou alguém que lhes disse: “Os homens que vós pusestes na prisão estão no Templo ensinando o povo!” 26Então o chefe da guarda do Templo saiu com os guardas e trouxe os apóstolos, mas sem violência, porque eles tinham medo que o povo os atacasse com pedras.

 

– Palavra do Senhor.

– Graças a Deus.

 

Salmo Responsorial: Sl 34,2-3.4-5.6-7.8-9 (R: 7a)

 

– Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido.
R: Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido.

– Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo, seu louvor estará sempre em minha boca. Minha alma se gloria no Senhor; que ouçam os humildes e se alegrem!

R: Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido.

– Comigo engrandecei ao Senhor Deus, exaltemos todos juntos o seu nome! Todas as vezes que o busquei, ele me ouviu, e de todos os temores me livrou.

R: Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido.

– Contemplai a sua face e alegrai-vos, e vosso rosto não se cubra de vergonha! Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido, e o Senhor o libertou de toda angústia.

R: Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido.

– O anjo do Senhor vem acampar ao redor dos que o temem, e os salva. Provai e vede quão suave é o Senhor! Feliz o homem que tem nele o seu refúgio!

R: Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido.

 

Aclamação ao santo Evangelho

 

Aleluia, aleluia, aleluia.

Aleluia, aleluia, aleluia.

 

– Deus o mundo tanto amou, que lhe deu seu próprio Filho, para que todo o que nele crer encontre a vida eterna (Jo 3,16).

 

Aleluia, aleluia, aleluia.

 

Evangelho de Jesus Cristo, segundo João: Jo 3,16-21

 

– O Senhor esteja convosco.

– Ele está no meio de nós.

– Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo † segundo João

– Glória a vós, Senhor!  

 

16Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. 17De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. 18Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito. 19Ora, o julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações eram más. 20Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas. 21Mas quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus.

 

– Palavra da salvação.

– Glória a vós, Senhor!  

Santa Maria Egipcíaca

- por Padre Alexandre Fernandes

Nasceu no Egito no século V. Com apenas 12 anos, tomou a decisão de sair de casa em busca dos prazeres da vida. Providencialmente, conheceu um grupo de cristãos peregrinos que ia para o Santo Sepulcro, e os acompanhou, apenas movida pelo interesse no passeio.

Por três vezes, quis entrar na Igreja, mas não conseguiu. E uma voz interior lhe fez perceber o quanto ela era escrava do pecado. Ela recorreu a Virgem Maria, representada numa imagem que ali estava, e, em oração, comprometeu-se a um caminho de conversão. Ingressou na Igreja e saiu de seu sepulcro.

Com a graça do Senhor, ela pôde se arrepender e se propor um caminho de purificação.

Ela foi levada ao deserto de Judá, onde ficou por quarenta anos, e nas tentações recorria sempre a Virgem Maria. Perto de seu falecimento, padre Zózimo foi passar seus últimos dias também nesse deserto e a conheceu, levou-lhe a comunhão e ela faleceu numa sexta-feira. O padre, ao encontrar seu corpo, enterrou-a como a santa havia pedido em um recado.

Santa Maria Egipcíaca, rogai por nós!

Meditação

- por Padre Alexandre Fernandes

57. AMOR COM ATOS

– O Senhor amou-nos primeiro. Amor com amor se paga. Santidade nas tarefas de cada dia.

– Amor efetivo. A vontade de Deus.

– Amor e sentimento. Abandono em Deus. Cumprimento dos deveres próprios.

I. TANTO AMOU DEUS o mundo que lhe deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna1.

Com estas palavras, o Evangelho da Missa mostra como a Paixão e Morte de Jesus Cristo é a suprema manifestação do amor de Deus pelos homens. Foi Deus quem tomou a iniciativa no amor, entregando-nos Aquele que mais ama, Aquele que é objeto das suas complacências2: o seu próprio Filho. A nossa fé “é uma revelação da bondade, da misericórdia, do amor de Deus por nós. Deus é amor (cfr. 1 Jo 4, 16), quer dizer, amor que se difunde e se dá com prodigalidade; e tudo se resume nesta grande verdade que tudo explica e tudo ilumina. É necessário olhar a história de Jesus sob essa luz. Ele me amou, escreve São Paulo, e cada um de nós pode e deve repetir a si próprio: Ele me amou e se entregou por mim (Gal 2, 20)”3.

O amor de Deus por nós culmina no Sacrifício do Calvário. Deus deteve o braço de Abraão quando estava prestes a sacrificar o seu único filho, mas não deteve o braço dos que pregaram o seu Filho unigênito na Cruz. Por isso São Paulo exclama cheio de esperança: Aquele que não poupou o seu próprio Filho […], como não nos dará também com Ele todas as coisas?4

A entrega de Cristo constitui um apelo urgente para que correspondamos a esse amor: amor com amor se paga. O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus5, e Deus é amor6. Por isso o coração do homem foi feito para amar, e, quanto mais ama, mais se identifica com Deus. A santificação pessoal não tem, pois, por centro a luta contra o pecado, mas o amor a Cristo, que se nos mostra profundamente humano, conhecedor de tudo o que é nosso.

O amor de Deus pelos homens e dos homens por Deus é um amor de mútua amizade. E uma das características próprias da amizade é o trato. Para amar o Senhor, é necessário conhecê-lo, conversar com Ele… Conhecemo-lo quando meditamos a sua vida nos Evangelhos. Conversamos com Ele quando oramos.

A consideração da Santíssima Humanidade do Senhor alimenta continuamente o nosso amor a Deus e é um ensinamento vivo sobre o modo de santificarmos os nossos dias. Na sua vida oculta em Nazaré, Jesus Cristo quis assumir aquilo que há de mais corriqueiro na existência humana: a vida cotidiana de um trabalhador manual que sustenta uma família. E assim, vemo-lo durante quase toda a sua vida trabalhando dia após dia, mantendo em bom estado os instrumentos da pequena oficina, atendendo com simplicidade e cordialidade os vizinhos que vinham encomendar-lhe uma mesa ou uma viga para a nova casa, cuidando com carinho de sua Mãe… Assim cumpriu a vontade de seu Pai-Deus nesses anos da sua existência. Contemplando a sua vida, aprendemos a santificar a nossa: o trabalho, a família, as amizades… Tudo o que é verdadeiramente humano pode ser santo, pode ser veículo do nosso amor a Deus, porque o Senhor, ao assumi-lo, o santificou.

II. SABER QUE DEUS nos ama, com um amor infinito, é a boa nova que alegra e dá sentido à nossa existência. Nós também podemos afirmar que conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós7. E, perante esse amor, sentimo-nos incapazes de exprimir o que também o nosso coração não consegue abarcar: “Saber que me amas tanto, meu Deus, e… não enlouqueci!”8

Tudo o que o Senhor fez e faz por nós é um esbanjamento de atenções e graças: a sua Encarnação, a sua Paixão e Morte na Cruz, que pudemos contemplar nos dias passados, o perdão constante das nossas faltas, a sua presença contínua no Sacrário, os auxílios que nos envia diariamente… Considerando o que fez e faz pelos homens, nunca nos deve parecer suficiente a nossa correspondência a tanto amor.

A maior prova de correspondência é a fidelidade, a lealdade, a adesão incondicional à Vontade de Deus. É o que Jesus nos ensina quando nos dá a conhecer os seus desejos infinitos de fazer a vontade do Pai e nos diz que o seu alimento é cumprir a vontade dAquele que o enviou9. Eu guardei os mandamentos de meu Pai – diz o Senhor – e permaneço no seu amor10.

A vontade de Deus reside, antes de mais nada, no cumprimento fiel dos Mandamentos e demais preceitos que a Igreja nos propõe. É neles que descobrimos o que Deus quer para nós. E é no seu cumprimento, realizado com nobreza humana e na presença de Deus, que encontramos o amor a Deus, a santidade.

O amor a Deus não consiste em sentimentos sensíveis, ainda que o Senhor os possa dar para nos ajudar a ser mais generosos. Consiste essencialmente na plena identificação do nosso querer com o de Deus. Por isso devemos perguntar-nos com freqüência: faço neste momento o que devo fazer?11

“Amor com amor se paga”. Mas há de ser um amor efetivo, que se manifeste em atos concretos, no cumprimento dos nossos deveres para com Deus e para com os outros, ainda que o sentimento esteja ausente e tenhamos que caminhar a contragosto. “É evidente que a suma perfeição não consiste em regalos interiores nem em grandes arroubamentos – escrevia Santa Teresa –, mas em termos a nossa vontade tão conforme com a de Deus, que não haja coisa alguma que entendamos que Ele quer, e não a queiramos nós com toda a nossa vontade”12.

III. NO SERVIÇO A DEUS, o cristão deve deixar-se conduzir pela fé, nunca pelos estados de ânimo. “Guiar-se pelo sentimento seria o mesmo que entregar o governo da casa ao criado e depor o dono. O mal não está no sentimento, mas na importância que se lhe concede […]. Há almas para quem as emoções constituem toda a piedade, a tal ponto que se persuadem de tê-la perdido quando o sentimento desaparece […]. Se essas almas soubessem compreender que esse é justamente o momento de começar a tê-la!”13

O verdadeiro amor, sensível ou não, estende-se a todos os aspectos da nossa existência, numa verdadeira unidade de vida; leva a “pôr Deus em todas as coisas, pois sem Ele se tornariam insípidas. Uma pessoa piedosa, com uma piedade sem beatice, procura cumprir o seu dever: a piedade sincera leva ao trabalho, ao cumprimento prazeroso – ainda que custe – do dever de cada dia… Há uma íntima união entre essa realidade sobrenatural interior e as manifestações externas dos afazeres humanos. O trabalho profissional, as relações humanas de amizade e de convivência, o empenho em promover – lado a lado com os nossos concidadãos – o bem e o progresso da sociedade são frutos naturais, conseqüência lógica, dessa seiva de Cristo que é a vida da nossa alma”14. A falsa piedade não se reflete na vida ordinária do cristão. Não se traduz numa melhora da conduta, numa ajuda aos outros.

O cumprimento da vontade de Deus nos deveres de cada dia – a maior parte das vezes pequenos – é o caminho mais seguro para o cristão se santificar no meio das realidades terrenas. Podemos cumprir esses deveres de maneiras muito diferentes: com resignação, como quem não tem outra saída senão executá-los; aceitando-os, o que revela uma adesão mais profunda e meditada; mostrando-nos de acordo, querendo o que Deus quer porque, ainda que não o compreenda nesse momento, o cristão sabe que Deus é nosso Pai e quer o melhor para os seus filhos; ou com pleno abandono, abraçando sempre a vontade do Senhor, sem lhe estabelecer limites de nenhum gênero.

Esta última é a atitude que o Senhor nos pede: que o amemos sem condições, sem ficar à espera de situações mais favoráveis, nas coisas correntes de cada dia e, se Ele assim o quiser, em circunstâncias mais difíceis e extraordinárias. “Quando te abandonares de verdade no Senhor, aprenderás a contentar-te com o que vier, e a não perder a serenidade se as tarefas – apesar de teres posto todo o teu empenho e utilizado os meios oportunos – não correm a teu gosto… Porque terão «corrido» como convém a Deus que corram”15.

Com palavras de uma oração que a Igreja nos propõe para depois da Missa, digamos ao Senhor: Volo quidquid vis, volo quia vis, volo quomodo vis, volo quamdiu vis16: quero o que queres, quero porque o queres, quero como o queres, quero enquanto o quiseres.

A Santíssima Virgem, que pronunciou e levou à prática aquele faça-se em mim segundo a tua palavra17, ajudar-nos-á a cumprir em tudo a vontade de Deus.

25ª Semana do Tempo Comum