25 de Março de 2020

4a Semana da Quaresma Quarta-feira

- por Padre Alexandre Fernandes

 

QUARTA FEIRA – ANUNCIAÇÃO DO SENHOR

(Branco, glória, creio, pref. próprio, ofício da solenidade)

 

Antífona da entrada

 

– Ao entrar no mundo, Cristo disse: Eis-me aqui, ó Pai para fazer a tua vontade (Hb 10,5.7).

 

Oração do dia

 

– Ó Deus, quisestes que vosso Verbo, se fizesse homem no seio da virgem Maria; dai-nos participar da divindade do nosso redentor, que proclamamos verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

1ª Leitura: Is 7,10-14;8,10

 

– Leitura do profeta Isaías: Naqueles dias, 10o Senhor falou com Acaz, dizendo: 11“Pede ao Senhor teu Deus que te faça ver um sinal, quer provenha da profundeza da terra, quer venha das alturas do céu”. 12Mas Acaz respondeu: “Não pedirei nem tentarei o Senhor”. 13Disse o profeta: “Ouvi então, vós, casa de Davi; será que achais pouco incomodar os homens e passais a incomodar até o meu Deus? 14Pois bem, o próprio Senhor vos dará um sinal. Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel, 8,10porque Deus está conosco.

– Palavra do Senhor.

– Graças a Deus.

 

Salmo Responsorial: Sl 40,7-8a.8b-9.10.11 (R: 8a.9a)

 

– Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade, Senhor!
R: Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade, Senhor!

– Sacrifício e oblação não quisestes, mas abristes, Senhor, meus ouvidos; não pedistes ofertas nem vítimas, holocaustos por nossos pecados, e então eu vos disse: “Eis que venho!”

R: Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade, Senhor!

– Sobre mim está escrito no livro: “Com prazer faço a vossa vontade, guardo em meu coração vossa lei!”

R: Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade, Senhor!

– Boas-novas de vossa justiça anunciei numa grande assembléia; vós sabeis: não fechei os meus lábios!

R: Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade, Senhor!

– Proclamei toda a vossa justiça, sem retê-la no meu coração; vosso auxílio e lealdade narrei. Não calei vossa graça e verdade na presença da grande assembléia.

R: Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade, Senhor!
 

2ª Leitura: Hb 10,4-10

 

– Leitura da carta aos Hebreus: Irmãos, 4é impossível eliminar os pecados com o sangue de touros e bodes. 5Por isso, ao entrar no mundo, Cristo afirma: “Tu não quiseste vítima nem oferenda, mas formaste-me um corpo. 6Não foram do teu agrado holocaustos nem sacrifícios pelo pecado. 7Por isso eu disse: Eis que eu venho. No livro está escrito a meu respeito: Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade”. 8Depois de dizer: “Tu não quiseste nem te agradaram vítimas, oferendas, holocaustos, sacrifícios pelo pecado” – coisas oferecidas segundo a Lei – 9ele acrescenta: “Eu vim para fazer a tua vontade”. Com isso, suprime o primeiro sacrifício, para estabelecer o segundo. 10É graças a esta vontade que somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas.

 

Evangelho de Jesus Cristo, segundo Lucas: Lc 1,26-38.

 

Glória a Cristo, palavra eterna do Pai, que é amor!

Glória a Cristo, palavra eterna do Pai, que é amor!

 

– A palavra se fez carne e habitou entre nós. E nós vimos sua glória que recebe de Deus Pai (Jo 1,14).

 

Glória a Cristo, palavra eterna do Pai, que é amor!

 

– O Senhor esteja convosco.

– Ele está no meio de nós.

– Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo † segundo Lucas

– Glória a vós, Senhor!  

 

Naquele tempo, 26o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, 27a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria. 28O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!”  29Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. 30O anjo, então, disse-lhe: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. 33Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”. 34Maria perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?” 35O anjo respondeu: “O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. 36Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, 37porque para Deus nada é impossível”. 38Maria, então, disse: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o anjo retirou-se.

 

– Palavra da salvação.

– Glória a vós, Senhor!  

Anunciação do Senhor

- por Padre Alexandre Fernandes

O caráter Mariano desta solenidade, que os antigos livros da liturgia romana celebravam como solenidade do Senhor, é enfocado pelo Ofício e pela Missa do dia a dia. Esta festa remonta ao século VI. É tão antiga como a devoção a Nossa Senhora. Os primeiros cristãos lembravam as palavras do Arcanjo Gabriel e da prima Isabel.

 

O conteúdo da Anunciação diz respeito ao Messias e à sua Mãe. Quem nascerá dela é o Filho de Deus. Por isso ela será chamada Mãe de Deus. O anjo usa a linguagem dos profetas do Antigo Testamento em suas profecias messiânicas, iniciando com um convite à alegria e garantindo a ajuda de Deus à Virgem escolhida para a mais alta missão. Maria é objeto das complacências divinas: o Senhor está com ela, encontrou graça aos olhos do Altíssimo, será virgem e Mãe de Deus.

 

A própria Maria reconhece, nas palavras do anjo, os termos proféticos que prenunciam a revelação do Messias. Comparando a profundidade religiosa do total abandono de Maria à vontade de Deus com aquilo que tem de sobrenatural com o anúncio feito, podemos afirmar que, no momento da sua resposta definitiva do “fiat” (faça-se), nela estava já presente de modo real o que se tornaria pouco a pouco manifesto, no decorrer de sua vida, graças ao contato com o seu divino filho. “No momento da Anunciação, Maria é a mais alta expressão da expectativa de Deus e do Messias no Antigo Testamento; é síntese e o ponto culminante da expectativa messiânica dos hebreus. É assim que a vê Lucas no “Magnificat”; é assim que a vê a patrística, que a revive a teologia contemporânea. Por causa da graça do seu nascimento sem mancha e de sua consagração virginal a Deus, Maria recebeu graças e luzes excepcionais. Graças a tudo isso indicou na sua pessoa a abertura fundamental à expectativa de “Iahweh-Salvador” (Schillebeeck).

Meditação

- por Padre Alexandre Fernandes

25 DE MARÇO. ANUNCIAÇÃO DO SENHOR

29. A VOCAÇÃO DE NOSSA SENHORA

– O exemplo de Nossa Senhora.

– Corresponder à nossa vocação.

– O sim que o Senhor nos pede.

I. ENTRANDO NESTE MUNDO, disse o Senhor: Eis que venho, ó Deus, para fazer a tua vontade1.

A Anunciação e Encarnação do Filho de Deus é o acontecimento mais maravilhoso e extraordinário, o mistério mais tocante das relações entre Deus e os homens e o mais transcendental da humanidade: Deus faz-se homem para sempre!

No entanto, esse evento deu-se num pequeno povoado de um país praticamente desconhecido no seu tempo. Em Nazaré, “aquele que é Deus verdadeiro nasce como homem verdadeiro, sem que nada falte à integridade da sua natureza humana, conservando a totalidade da essência que lhe é própria e assumindo a totalidade da nossa essência humana, para restaurá-la”2.

São Lucas narra com simplicidade esse supremo acontecimento: Estando Isabel no sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado por Deus a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria3. A piedade popular representou Santa Maria recolhida em oração no momento em que recebia a embaixada do anjo: Salve, cheia de graça, o Senhor é contigo. A nossa Mãe perturbou-se ao ouvir essas palavras, mas a perturbação não a deixou paralisada. Maria conhecia bem a Escritura pela instrução que todos os judeus recebiam desde os primeiros anos e, sobretudo, pela clareza e penetração que lhe davam a sua fé incomparável, o seu profundo amor e os dons do Espírito Santo. Por isso entendeu a mensagem daquele enviado de Deus e a sua alma abriu-se completamente ao que o Senhor lhe ia pedir.

O Anjo apressa-se a tranqüilizá-la e desvenda-lhe os desígnios de Deus sobre Ela, a sua vocação: Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; e Ele reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.

“O mensageiro saúda Maria como a cheia de graça; e chama-a assim como se esse fosse o seu verdadeiro nome. Não a chama pelo nome próprio: “Miryam” (Maria), mas por um nome novo: cheia de graça. E o que significa esse nome? Por que é que o arcanjo chama desse modo a Virgem de Nazaré?

“Na linguagem da Bíblia, «graça» significa um dom especial que, segundo o Novo Testamento, tem a sua fonte na vida trinitária do próprio Deus, que é amor (cfr. 1 Jo 4, 8)”4. Maria é chamada cheia de graça porque esse nome designa o seu verdadeiro ser. Quando Deus muda o nome de uma pessoa ou lhe acrescenta um sobrenome, destina-a para algo de novo ou descobre-lhe a sua verdadeira missão na história da Salvação. Maria é chamada cheia de graça, agraciadíssima, em virtude da sua Maternidade divina.

O anúncio do Anjo descobre a Maria a sua missão no mundo, a chave de toda a sua existência. A Anunciação foi para Ela uma iluminação perfeitíssima que banhou toda a sua vida e a tornou plenamente consciente do seu papel excepcional na história da humanidade. “Maria é introduzida definitivamente no mistério de Cristo por meio desse acontecimento”5.

Todos os dias – no Angelus –, muitos cristãos em todo o mundo recordam à Virgem esse acontecimento que foi inefável para Ela e para toda a humanidade. Procuremos introduzir-nos nessa cena e contemplar a Senhora que abraça com amorosa piedade a santa vontade de Deus. “Como enamora a cena da Anunciação! – Maria – quantas vezes temos meditado nisso! – está recolhida em oração…, aplica os seus cinco sentidos e todas as suas potências na conversa com Deus. Na oração conhece a Vontade divina; e com a oração converte-a em vida da sua vida. Não esqueças o exemplo de Nossa Senhora!”6

II. EIS-ME AQUI para fazer a tua vontade7.

A Santíssima Trindade tinha traçado um plano para Nossa Senhora, um destino único e absolutamente excepcional: ser a Mãe do Deus encarnado. Mas Deus pede a Maria que o aceite livremente. Maria não duvidou das palavras do anjo, como tinha feito Zacarias; manifesta, no entanto, a incompatibilidade entre a sua decisão de viver sempre a virgindade, que o próprio Deus lhe inspirara, e a concepção de um filho. É então que o Anjo lhe anuncia em termos claros e sublimes que será mãe sem perder a virgindade: O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso o Santo que de ti há de nascer será chamado Filho de Deus.

Maria escuta e pondera no seu coração essas palavras. Não há a menor resistência na sua inteligência e no seu coração: tudo está aberto à vontade divina, sem restrição nem limitação alguma. Este abandono em Deus é o que faz a alma de Maria ser boa terra, capaz de receber a semente divina8.Ecce ancilla Domini…, eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra. Nossa Senhora aceita com imensa alegria não ter outro querer senão o do seu Amo e Senhor, que desde aquele momento é também seu Filho, feito homem nas suas entranhas puríssimas.

Entrega-se sem limitação alguma, sem querer fixar condições, com júbilo e livremente. “Assim Maria, filha de Adão, consentindo na palavra divina, converteu-se em Mãe de Jesus. E, abraçando a vontade salvífica de Deus de todo o coração e sem obstáculo de pecado algum, consagrou-se totalmente como serva do Senhor à pessoa e obra do seu Filho, servindo o mistério da redenção sob Ele e com Ele, por graça de Deus onipotente. É por isso que os Santos Padres pensam com razão que Maria não foi um instrumento puramente passivo nas mãos de Deus, mas cooperou para a salvação humana com livre fé e obediência”9.

A vocação de Santa Maria é o exemplo perfeito de toda a vocação, da chamada divina à luz da qual se entende a vida e os acontecimentos que a rodeiam, e que abre à pessoa o caminho para o Céu e para a sua plenitude sobrenatural e humana. A vocação não é tanto a escolha que a pessoa faz, como a que Deus faz da pessoa, por meio de mil circunstâncias que ela deve interpretar com fé e com um coração limpo e reto. Não fostes vós que me escolhestes, mas eu que vos escolhi10.

“Toda a vocação, toda a existência, é por si mesma uma graça que encerra em si muitas outras. Uma graça, isto é, um dom, algo que se nos dá, que nos é presenteado sem direito algum da nossa parte, sem mérito próprio que o motive ou – menos ainda – justifique. Não é necessário que a vocação, a chamada para o cumprimento de um desígnio, a missão atribuída por Deus, seja grande ou brilhante: basta que Deus tenha querido servir-se de nós, basta o fato de que confia na nossa colaboração. Isto é já em si mesmo tão inaudito, tão grandioso, que toda uma vida dedicada ao agradecimento não seria suficiente para corresponder”11.

Hoje será muito grato a Deus que agradeçamos as incontáveis luzes com que Ele foi balizando o itinerário da nossa chamada, e que o façamos por meio dAquela que correspondeu tão fiel e prontamente ao que o Senhor lhe pedia.

III. NE TIMEAS… “Não temas. Aqui radica o elemento constitutivo da vocação. Com efeito, o homem teme. Teme ser chamado não só ao sacerdócio, mas também à vida, às suas obrigações, a uma profissão, ao matrimônio. Este temor põe a descoberto um sentido de responsabilidade imaturo. É preciso superar o temor para chegar a uma responsabilidade madura: é preciso aceitar a chamada, escutá-la, assumi-la, ponderá-la conforme as nossas luzes e responder: Sim, sim.

“Não temas, não temas, pois achaste a graça, não temas a vida, não temas a tua maternidade, não temas o teu matrimônio, não temas o teu sacerdócio, pois encontraste a graça. Esta certeza, esta consciência ajuda-nos da mesma forma que ajudou Maria. Efetivamente, «a terra e o paraíso esperam o teu sim, ó Virgem Puríssima». São palavras de São Bernardo, famosas e formosíssimas palavras. Esperam o teu sim, Maria. Esperam o teu sim, mãe de família que vais ter mais um filho; esperam o teu sim, homem que deves assumir uma responsabilidade pessoal, familiar e social… Esta é a resposta de Maria, a resposta de uma mãe, a resposta de um jovem: um sim para toda a vida”12, que nos compromete gozosamente.

Mas Deus não quer um “sim” qualquer. A resposta de Maria – fiat, faça-se – é muito mais definitiva que um simples sim dito impensadamente, ou pela emoção do momento, ou com reservas mentais. A resposta de Maria significou a entrega total da sua vontade ao que Deus lhe pedia naquele momento e ao longo de toda a vida. Este fiat terá a sua culminância no Calvário quando, junto da Cruz, a Mãe se oferecer juntamente com o Filho. O sim que o Senhor nos pede, a cada um no seu próprio caminho, prolonga-se por toda a vida em chamadas sucessivas que, ao longo dos acontecimentos, são por sua vez preparação para as seguintes.

sim a Jesus leva-nos a não pensar em nós mesmos e a estar atentos, com o coração vigilante, ao lugar de onde vem a voz do Senhor que nos vai detalhando o caminho que nos traça. E nesta correspondência amorosa vão-se entrelaçando, a cada momento e em perfeita harmonia, a nossa liberdade e a vontade divina.

Peçamos hoje a Nossa Senhora o desejo sincero e grande de conhecermos em toda a sua profundidade a vocação a que nos chama, e depois luz e força para correspondermos aos sucessivos desdobramentos dessa chamada. Que saibamos dar sempre – é o que pedimos – uma resposta rápida e firme em cada circunstância, pois somente a vocação fielmente sustentada ao longo dos dias e dos anos é que preenche uma vida e lhe dá sentido.

18ª Semana do Tempo Comum