27 de Fevereiro de 2020

Depois das Cinzas - Quinta-feira

- por Padre Alexandre Fernandes

QUINTA FEIRA – DEPOIS DAS CINZAS

(cor roxo, ofício do dia)

 

Antífona da entrada

 

– Clamei pelo Senhor, e ele me ouviu: salvou-me daqueles que me atacam. Confia ao Senhor os teus cuidados, e ele mesmo te há de sustentar

(Sl 54,17-20.23).

 

Oração do dia

 

– Inspirai, ó Deus, as nossas ações e ajudai-nos a realizá-las, para que em vós comece e termine tudo aquilo que fizermos. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

1ª Leitura: Dt 30,15-20

 

– Leitura do livro do Deuteronômio: Moisés falou ao povo dizendo: 15“Vê que eu hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça. 16Se obedeceres aos preceitos do Senhor teu Deus, que eu hoje te ordeno, amando ao Senhor teu Deus, seguindo seus caminhos e guardando seus mandamentos, suas leis e seus decretos, viverás e te multiplicarás, e o Senhor teu Deus te abençoará na terra em que vais entrar, para possuí-la. 17Se, porém, o teu coração se desviar e não quiseres escutar, e se, deixando-te levar pelo erro, adorares deuses estranhos e os servires, 18eu vos anuncio hoje que certamente perecereis. Não vivereis muito tempo na terra onde ides entrar, depois de atravessar o Jordão, para ocupá-la. 19Tomo hoje o céu e a terra como testemunhas contra vós, de que vos propus a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes, 20amando ao Senhor teu Deus, obedecendo à sua voz e apegando-te a ele — pois ele é a tua vida e prolonga os teus dias —, a fim de que habites na terra que o Senhor jurou dar a teus pais Abraão, Isaac e Jacó”.

– Palavra do Senhor.

– Graças a Deus.

 

Salmo Responsorial: Sl 1,1-2.3.4.6 (R: Sl 39,5a)

 

– É feliz quem a Deus se confia!
R: É feliz quem a Deus se confia!

 

Feliz é todo aquele que não anda conforme os conselhos dos perversos; que não entra no caminho dos malvados, nem junto aos zombadores vai sentar-se; mas encontra seu prazer na lei de Deus e a medita, dia e noite, sem cessar.

R: É feliz quem a Deus se confia!

– Eis que ele é semelhante a uma árvore, que à beira da torrente está plantada; ela sempre dá seus frutos a seu tempo, e jamais as suas folhas vão murchar. Eis que tudo o que ele faz vai prosperar.

R: É feliz quem a Deus se confia!

– Mas bem outra é a sorte dos perversos. Ao contrário, são iguais à palha seca espalhada e dispersada pelo vento. Pois Deus vigia o caminho dos eleitos, mas a estrada dos malvados leva à morte.

R: É feliz quem a Deus se confia!
 

Evangelho de Jesus Cristo, segundo Lucas: Lc 9, 22-25

 

Glória a vós Senhor Jesus, primogênito dentre os mortos!

Glória a vós Senhor Jesus, primogênito dentre os mortos!

 

– Convertei-vos, nos diz o Senhor, está próximo o reino de Deus! (MT 4,17)

 

Glória a vós Senhor Jesus, primogênito dentre os mortos!

 

– O Senhor esteja convosco.

– Ele está no meio de nós.

– Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo † segundo Lucas.

– Glória a vós, Senhor!

 

– Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:22"O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia". 23Depois Jesus disse a todos: "Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me. 24Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará. 25Com efeito, de que adianta a um homem ganhar o mundo inteiro, se perde e se destrói a si mesmo?"

 

– Palavra da salvação.

– Glória a vós, Senhor!  

 

São Gabriel das Dores

- por Padre Alexandre Fernandes

Nascido a 1838 em Assis, na Itália, dentro de uma família nobre e religiosa, recebeu o nome de batismo Francisco, em homenagem a São Francisco.

Na juventude andou desviado por muitos caminhos, e era dado a leitura de romances, festas e danças. Por outro lado, o jovem se sentiu chamado a consagrar-se totalmente a Deus, no sacerdócio ministerial. Mas vivia ‘um pé lá, outro cá’. Ou seja, nas noitadas e na oração e penitência.

Aos 18 anos, desiludido, desanimado e arrependido, entrou numa procissão onde tinha a imagem de Nossa Senhora. Em meio a tantos toques de Deus, ouviu uma voz serena, a voz da Virgem Maria, que dizia que aquele mundo não era para ele, e que Deus o queria na religião.

Obediente a Santíssima Virgem, na fé, entrou para a Congregação dos Padres Passionistas. Ali, na radicalidade ao Evangelho, mudou o nome para Gabriel, e de acordo também com a sua devoção a Nossa Senhora, chamou-se então: Gabriel da Dores.

Antes de entrar para a Congregação, já tinha a saúde fraca, e com apenas 23 anos partiu para a glória, deixando o rastro da radicalidade em Deus.

Em meios as dores, São Gabriel viveu o santo Evangelho.

São Gabriel das Dores, rogai por nós!

Meditação

- por Padre Alexandre Fernandes

2. A CRUZ DE CADA DIA

– Sem cruz, não pode haver um cristianismo verdadeiro. A Cruz do Senhor é fonte de paz e alegria.

– A cruz nas pequenas coisas de cada dia.

– Oferecer as contrariedades. Detalhes pequenos de mortificação.

I. ONTEM COMEÇOU a Quaresma e hoje o Evangelho da Missa nos lembra que, para seguirmos o Senhor, temos de carregar a nossa própria cruz: Também dizia a todos: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz de cada dia e siga-me1.

O Senhor dirige-se a todos e fala da cruz de cada dia. Estas palavras de Cristo conservam hoje o seu pleno valor. São palavras ditas a todos os homens que queiram segui-lo, pois não existe um cristianismo sem cruz, para cristãos fracos e moles, sem sentido do sacrifício. As palavras do Senhor expressam uma condição imprescindível: Quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo2. “Um cristianismo do qual se pretendesse arrancar a cruz da mortificação voluntária e da penitência, sob o pretexto de que essas práticas seriam hoje resíduos obscurantistas, medievalismos impróprios de uma época humanista, esse cristianismo desvirtuado, de cristianismo teria apenas o nome; não conservaria a doutrina do Evangelho nem serviria para dirigir os passos dos homens em seguimento de Cristo”3. Seria um cristianismo esvaziado de sentido, sem Redenção, sem Salvação.

Um dos sintomas mais claros de que a tibieza entrou numa alma é precisamente o abandono da cruz, da pequena mortificação, de tudo aquilo que de alguma maneira exige sacrifício e abnegação.

Por outro lado, fugir da cruz é afastar-se da santidade e da alegria, pois um dos frutos da alma mortificada é precisamente a capacidade de relacionar-se com Deus e com os outros, e também uma profunda paz, mesmo no meio da tribulação e das dificuldades externas. A pessoa que abandona a mortificação fica presa aos sentidos e torna-se incapaz de um pensamento sobrenatural.

Sem espírito de sacrifício e de mortificação, não há progresso na vida interior. São João da Cruz diz que, se são poucos os que chegam a um alto estado de união com Deus, é porque muitos não querem submeter-se “a um maior desconsolo e mortificação”4. E continua em outro lugar: “E se alguém deseja chegar a possuir Cristo, nunca o procure sem a cruz”5.

Não esqueçamos, portanto, que a mortificação abre as portas ao relacionamento com Cristo, ao trato íntimo com Ele, e que, quando o coração se purifica, torna-se mais humilde e, por conseguinte, mais alegre. “Este é o grande paradoxo que acompanha a mortificação cristã. Aparentemente, o fato de os cristãos aceitarem e até procurarem o sofrimento deveria torná-los, na prática, as criaturas mais tristes do mundo, os homens mais infelizes. A realidade é bem diferente. A mortificação só produz tristeza onde sobra egoísmo e faltam generosidade e amor de Deus. O sacrifício sempre traz consigo a alegria no meio da dor, a felicidade de cumprir a vontade de Deus, de amá-lo com esforço. Os bons cristãos vivem quasi tristes, semper autem gaudentes (1 Cor 8, 10), como se estivessem tristes, mas na realidade sempre alegres”6.

II. “A CRUZ, CADA DIANulla dies sine cruce!, nenhum dia sem cruz: nenhum dia em que não carreguemos a cruz do Senhor, em que não aceitemos o seu jugo […]. O caminho da nossa santificação pessoal passa diariamente pela Cruz; e não é um caminho infeliz, porque o próprio Cristo vem em nossa ajuda, e com Ele não há lugar para a tristeza. In laetitia, nulla dies sine cruce!, gosto de repetir; com a alma trespassada de alegria, nenhum dia sem Cruz”7.

A cruz do Senhor, que temos que carregar todos os dias, não é, certamente, a que produzem os nossos egoísmos, invejas, preguiças, etc; não são os conflitos causados pelo “homem velho” e pelo nosso amor desordenado. Isso não é do Senhor e, portanto, não santifica.

De vez em quando, encontraremos a cruz numa grande dificuldade, numa doença grave e dolorosa, num desastre econômico, na morte de um ser querido, no ataque injusto à nossa honra: “Não esqueçamos que estar com Jesus é, certamente, topar com a sua Cruz. Quando nos abandonamos nas mãos de Deus, é freqüente que Ele nos permita saborear a dor, a solidão, as contrariedades, as calúnias, as difamações, os escárnios, por dentro e por fora: porque quer moldar-nos à sua imagem e semelhança, e tolera também que nos chamem loucos e que nos tomem por néscios. É a altura de amar a mortificação passiva, que vem – oculta ou descarada e insolente – quando não a esperamos”8. O Senhor nos dará então as forças necessárias para levarmos com garbo essa cruz, e nos cumulará de graça e de frutos inimagináveis. Compreenderemos que Deus abençoa de muitas formas e, freqüentemente, aos que queremos ser seus amigos, fazendo-nos participar da sua Cruz e tornando-nos corredentores com Ele.

Não obstante, normalmente encontraremos a cruz de cada dia nas pequenas contrariedades que surgem no decorrer do trabalho e na convivência. Devemos recebê-las com espírito aberto, oferecendo-as ao Senhor com desejos de reparação, sem nos queixarmos, pois a queixa mostra freqüentemente que rejeitamos a Cruz. Estas mortificações, que chegam quando não as esperamos, podem ajudar-nos, se as recebemos bem, a crescer no espírito de penitência de que tanto necessitamos, bem como na virtude da paciência, na caridade, na compreensão: quer dizer, na santidade. E se as recebemos mal, podem ser ocasião de rebeldia, de impaciência ou de desalento.

Muitos cristãos perdem a alegria no fim do dia, não por terem deparado com grandes contrariedades, mas por não terem sabido santificar o cansaço inerente ao trabalho, nem as pequenas dificuldades que foram surgindo ao longo da jornada. A cruz – pequena ou grande –, quando é acolhida de bom grado, produz paz e alegria no meio da dor e está repleta de méritos para a vida eterna. “Carregar a cruz é coisa grande, grande… Significa enfrentar a vida com coragem, sem molícies nem vilezas; significa transformar em energia moral as dificuldades que nunca faltarão na nossa existência; significa compreender a dor humana, e, por último, saber amar verdadeiramente”9. O cristão que caminha pela vida fugindo sistematicamente do sacrifício não encontrará a Deus, não encontrará a santidade. Fugirá, em última análise, da felicidade a que Deus o chamou.

III. SE ALGUÉM QUISER vir após mim, negue-se a si mesmo… Além de aceitarmos a cruz – grande ou pequena – que vem ao nosso encontro, muitas vezes inesperadamente, devemos procurar outros pequenos sacrifícios para mantermos vivo o espírito de penitência que o Senhor nos pede. Para progredir na vida interior, é muito útil determinar várias pequenas ocasiões de sacrifício, previstas de antemão, para vivê-las todos os dias.

Estas mortificações habituais, procuradas por amor de Deus, serão valiosíssimas para vencermos a preguiça, o egoísmo que aflora a cada instante, o orgulho, etc. Umas hão de facilitar-nos o trabalho, ajudando-nos a ter em conta os detalhes, a pontualidade, a ordem, a intensidade e o cuidado com os instrumentos que utilizamos; outras levar-nos-ão a viver melhor a caridade, sobretudo com as pessoas com quem convivemos e trabalhamos: saberemos sorrir ainda que nos custe, teremos detalhes de apreço com os que nos rodeiam, facilitar-lhes-emos o cumprimento das suas tarefas, procuraremos atendê-los amavelmente, servi-los nas pequenas coisas do dia-a-dia, e jamais derramaremos sobre eles, se o temos, o nosso mau humor; outras terão em vista vencer o comodismo, guardar os sentidos internos e externos, dominar a curiosidade; serão mortificações concretas na comida, na apresentação pessoal, etc. Não é necessário que sejam coisas muito grandes; o que importa é que se adquira o hábito de praticá-las com constância e por amor de Deus.

Como a tendência geral da natureza humana é a de fugir do que exige esforço, devemos concretizar muito bem esses pequenos atos de sacrifício, para não ficarmos só nos bons desejos. E pode até ser muito útil anotá-los, para verificá-los no exame de consciência antes de nos deitarmos ou em outros momentos do dia, e não deixar que caiam no esquecimento.

Digamos a Jesus, ao acabarmos este diálogo com Ele, que estamos dispostos a segui-lo carregando a Cruz, hoje e todos os dias.

18ª Semana do Tempo Comum