30 de Março de 2020

5a Semana da Quaresma Segunda-feira

- por Padre Alexandre Fernandes

SEGUNDA FEIRA DA V SEMANA DA QUARESMA

(Roxo, pref. da paixão I, ofício do dia)

 

Antífona da entrada

 

– Tende piedade de mim, Senhor, pois me atormentaram; todos os dias me oprimem os agressores (Sl 55,2).

 

Oração do dia

 

– Ó Deus, que pela vossa graça inefável nos enriqueceis de todos os bens, concedei-nos passar da antiga à nova vida, preparando-nos assim para o reino da glória. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

1ª Leitura: Dn: 13,1-9.15-17.19-30.33-62

 

– Leitura da profecia de Daniel: Naqueles dias. 1na Babilônia vivia um homem chamado Joaquim. 2Estava casado com uma mulher chamada Susana, filha de Helcias, que era muito bonita e temente a Deus. 3Também os pais dela eram pessoas justas e tinham educado a filha de acordo com a lei de Moisés. 4Joaquim era muito rico e possuía um pomar junto à sua casa. Muitos judeus costumavam visitá-lo, pois era o mais respeitado de todos. 5Ora, naquele ano,
tinham sido nomeados juízes dois anciãos do povo, a respeito dos quais o Senhor havia dito: 'Da Babilônia brotou a maldade de anciãos-juízes, que passavam por condutores do povo.' 6Eles freqüentavam a casa de Joaquim,
e todos os que tinham alguma questão se dirigiam a eles. 7Ora, pelo meio-dia, quando o povo se dispersava, Susana costumava entrar e passear no pomar de seu marido. 8Os dois anciãos viam-na todos os dias entrar e passear, e acabaram por se apaixonar por ela. 9Ficaram desnorteados, a ponto de desviarem os olhos para não olharem para o céu, e se esqueceram dos seus justos julgamentos. 15Assim, enquanto os dois estavam à espera de uma ocasião favorável, certo dia, Susana entrou no pomar como de costume,
acompanhada apenas por duas empregadas. E sentiu vontade de tomar banho, por causa do calor. 16Não havia ali ninguém, exceto os dois velhos
que estavam escondidos, e a espreitavam. 17Então ela disse às empregadas:
'Por favor, ide buscar-me óleo e perfumes e trancai as portas do pomar, para que eu possa tomar banho'. 19Apenas as empregadas tinham saído, os dois velhos levantaram-se e correram para Susana, dizendo: 20'Olha, as portas do pomar estão trancadas e ninguém nos está vendo. Estamos apaixonados por ti:
concorda conosco e entrega-te a nós! 21Caso contrário, deporemos contra ti,
que um moço esteve aqui, e que foi por isso que mandaste embora as empregadas'. 22Gemeu Susana, dizendo: 'Estou cercada de todos os lados!
Se eu fizer isto, espera-me a morte; e, se não o fizer, também não escaparei das vossas mãos; 23mas é melhor para mim, não o fazendo, cair nas vossas mãos do que pecar diante do Senhor!' 24Então ela pôs-se a gritar em alta voz,
mas também os dois velhos gritaram contra ela. 25Um deles correu para as portas do pomar e as abriu. 26As pessoas da casa ouviram a gritaria no pomar
e precipitaram-se pela porta do fundo, para ver o que estava acontecendo,
27Quando os velhos apresentaram sua versão dos fatos, os empregados ficaram muito constrangidos, porque jamais se dissera coisa semelhante
a respeito de Susana. 28No dia seguinte, o povo veio reunir-se em casa de Joaquim, seu marido. Os dois anciãos vieram também, com a intenção criminosa de conseguir sua condenação à morte. Por isso, assim falaram ao povo reunido: 29'Mandai chamar Susana, filha de Helcias, mulher de Joaquim'!
E foram chamá-la. 30Ela compareceu em companhia dos pais, dos filhos e de todos os seus parentes. 33Os que estavam com ela e todos os que a viam, choravam. 34Os dois velhos levantaram-se no meio do povo e puseram as mãos sobre a cabeça de Susana. 35Ela, entre lágrimas, olhou para o céu,
pois seu coração tinha confiança no Senhor. 36Entretanto, os dois anciãos deram este depoimento: 'Enquanto estávamos passeando a sós no pomar,
esta mulher entrou com duas empregadas. Depois, fechou as portas do pomar
e mandou as servas embora. 37Então, veio ter com ela um moço que estava escondido, e com ela se deitou. 38Nós, que estávamos num canto do pomar,
vimos esta infâmia. Corremos para eles e os surpreendemos juntos. 39Quanto ao jovem, não conseguimos agarrá-lo, porque era mais forte do que nós
e, abrindo as portas, fugiu. 40A ela, porém, agarramos, e perguntamos quem era aquele moço. Ela, porém, não quis dizer. Disto nós somos testemunhas'.
41A assembleia acreditou neles, pois eram anciãos do povo e juízes. E condenaram Susana à morte. 42Susana, porém, chorando, disse em voz alta:
'Ó Deus eterno, que conheces as coisas escondidas e sabes tudo de antemão,
antes que aconteça! 43Tu sabes que é falso o testemunho que levantaram contra mim! Estou condenada a morrer, quando nada fiz do que estes maldosamente inventaram a meu respeito!' 44O Senhor escutou sua voz.
45Enquanto a levavam para a execução, Deus excitou o santo espírito de um adolescente, de nome Daniel. 46E ele clamou em alta voz: 'Sou inocente do sangue desta mulher!' 47Todo o povo então voltou-se para ele e perguntou:
'Que palavra é esta, que acabas de dizer?' 48De pé, no meio deles, Daniel respondeu: 'Sois tão insensatos, filhos de Israel? Sem julgamento e sem conhecimento da causa verdadeira, vós condenais uma filha de Israel?
49Voltai a repetir o julgamento, pois é falso o testemunho que levantaram contra ela!' 50Todo o povo voltou apressadamente, e outros anciãos disseram ao jovem: 'Senta-te no meio de nós e dá-nos o teu parecer, pois Deus te deu a honra da velhice.' 51Falou então Daniel: 'Mantende os dois separados, longe um do outro, e eu os julgarei.' 52Tendo sido separados, Daniel chamou um deles e lhe disse: 'Velho encarquilhado no mal! Agora aparecem os pecados
que estavas habituado a praticar. 53Fazias julgamentos injustos, condenando inocentes e absolvendo culpados, quando o Senhor ordena: 'Tu não farás morrer o inocente e o justo!' 54Pois bem, se é que viste, dize-me à sombra de que árvore os viste abraçados?' Ele respondeu: 'É sombra de uma aroeira.'
55Daniel replicou 'Mentiste com perfeição, contra a tua própria cabeça. Por isso o anjo de Deus, tendo recebido já a sentença divina, vai rachar-te pelo meio!'
56Mandando sair este, ordenou que trouxessem o outro: 'Raça de Canaã, e não de Judá, a beleza fascinou-te e a paixão perverteu o teu coração. 57Era assim que procedíeis com as filhas de Israel, e elas por medo sujeitavam-se a vós. Mas uma filha de Judá não se submeteu a essa iniquidade. 58Agora, pois, dize-me debaixo de que árvore os surpreendeste juntos?' Ele respondeu: 'Debaixo de uma azinheira.' 59Daniel retrucou: 'Também tu mentiste com perfeição, contra a tua própria cabeça. Por isso o anjo de Deus já está à espera, com a espada na mão, para cortar-te ao meio e para te exterminar!'  60Toda a assistência pôs-se a gritar com força, bendizendo a Deus, que salva os que nele esperam. 61E voltaram-se contra os dois velhos, pois Daniel os tinha convencido, por suas próprias palavras, de que eram falsas testemunhas. E, agindo segundo a lei de Moisés, fizeram com eles aquilo que haviam tramado perversamente contra o próximo. 62E assim os mataram, enquanto, naquele dia, era salva uma vida inocente.

– Palavra do Senhor.

– Graças a Deus.

 

Salmo Responsorial: Sl 23,1-3a.3b-4.5.6 (R: 4a)

 

– Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei, estais comigo.
R: Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei, estais comigo.

– O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma. Pelos prados e campinas verdejantes ele me leva a descansar. Para as águas repousantes me encaminha, e restaura as minhas forças.

R: Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei, estais comigo.

– Ele me guia no caminho mais seguro, pela honra do seu nome. Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei. Estais comigo com bastão e com cajado, eles me dão a segurança!

R: Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei, estais comigo.

– Preparais à minha frente uma mesa, bem à vista do meu inimigo, com óleo vós ungis minha cabeça, e o meu cálice transborda.

R: Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei, estais comigo.

– Felicidade e todo bem hão de seguir-me, por toda a minha vida; e, na casa do Senhor, habitarei pelos tempos infinitos.

R: Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei, estais comigo.

 

Evangelho de Jesus Cristo, segundo João: Jo 8,1-11

 

Glória a vós, Senhor Jesus, primogênito dentre os mortos.

Glória a vós, Senhor Jesus, primogênito dentre os mortos.

 

– Não quero a morte do pecador, diz o Senhor, mas que ele volte, se converta e tenha vida  (Ez 33,11).

 

Glória a vós, Senhor Jesus, primogênito dentre os mortos.

 

– O Senhor esteja convosco.

– Ele está no meio de nós.

– Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo † segundo João

– Glória a vós, Senhor!  

 

Naquele tempo, 1Jesus foi para o monte das Oliveiras. 2De madrugada, voltou de novo ao Templo. Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los. 3Entretanto, os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Levando-a para o meio deles, 4disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. 5Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?”
6Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão. 7Como persistissem em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. 8E tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. 9E eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho, com a mulher que estava lá, no meio, em pé. 10Então Jesus se levantou e disse: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” 11Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. Então Jesus lhe disse: “Eu, também, não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”.

 

– Palavra da salvação.

– Glória a vós, Senhor!  

São João Clímaco

- por Padre Alexandre Fernandes

Seu sobrenome deriva do célebre tratado de ascética, escrito por João, sobre o convite do abade do mosteiro de Raithu, A escada do Paraíso (escada=climax). O seu biógrafo, o monge Daniel, escreve que São João nasceu na Palestina. Aos 16 anos abandonou a cidade natal para ingressar no mosteiro do Sinai, onde, quatro anos depois, teve a tonsura monacal (corte do cabelo). Passou 19 anos na vida monástica sob a direção de São Martírio.

 

Com a morte do mestre, João se retirou numa cela solitária, perto do mosteiro, onde descia aos sábados e domingos para participar dos ritos litúrgicos com os frades. Vivia dos trabalhos de suas próprias mãos. Na cela havia uma grande cruz de madeira, mesa e banco que servia de cama. Sua única riqueza era constituída das Sagradas Escrituras e das obras dos Padres da Igreja, especialmente São Gregório Magno.

 

Houve muita dúvida sobre as datas de sua vida. Baseados em documentos autênticos os estudiosos estabeleceram o ano de 649 para a sua morte. Assim explica-se a influência de Gregório sobre anacoreta do Sinai. Sua obra, A escada do Paraíso, foi escrita durante o tempo que passou na cela. Depois, arrancaram-no de lá para ser abade no mosteiro do monte Sinai.

 

O santo ermitão acolheu por obediência o convite para transcrever as experiências de suas longas meditações sobre a prática das virtudes cristãs. Nasceu, assim, um dos mais lidos tratados de teologia ascética, que, desde a primeira publicação, teve grande difusão. Trata do caminho da perfeição na união com Deus, por meio da caridade.

Meditação

- por Padre Alexandre Fernandes

34. VAI E NÃO PEQUES MAIS

– No sacramento da Penitência, é Cristo quem perdoa.

– Gratidão pela absolvição: o apostolado da Confissão.

– Necessidade da penitência imposta pelo confessor. Ser generosos na reparação.

I. MULHER, NINGUÉM TE CONDENOU? Respondeu ela: Ninguém, Senhor. Disse-lhe então Jesus: Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar1.

Tinham levado à presença de Jesus uma mulher surpreendida em adultério. Trouxeram-na para o meio da multidão, diz o Evangelho2. Humilharam-na e envergonharam-na até esse extremo, sem a menor consideração. Lembram ao Senhor que a Lei impunha para este pecado o severo castigo da lapidação: Que dizes tu a isso?, perguntam-lhe com má-fé, a fim de pô-lo à prova e poderem acusá-lo. Mas Jesus surpreende a todos. Não diz nada:Inclinando-se, escrevia com o dedo na terra.

A mulher está aterrorizada no meio de todos. E os escribas e fariseus insistem nas suas perguntas. Então Jesus ergueu-se e disse-lhes: Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra. E inclinando-se novamente, continuou a escrever na terra.

Todos se foram retirando, um após outro, a começar pelos mais velhos. Não tinham a consciência limpa e o que queriam era armar uma cilada ao Senhor. Todos se foram embora: Jesus ficou sozinho, com a mulher em pé, diante dele. Jesus ergueu-se e, vendo ali apenas a mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?

As palavras de Jesus estão cheias de ternura e de indulgência. E a mulher respondeu: Ninguém, Senhor. Jesus disse-lhe: Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar. Não é difícil imaginar a enorme alegria daquela mulher, o seu profundo agradecimento, os seus desejos de recomeçar. Na sua alma, manchada pelo pecado e pela humilhação a que fora submetida, operou-se uma mudança tão profunda que só podemos entrevê-la à luz da fé. Cumpriam-se as palavras do profeta Isaías: Não vos lembreis mais dos acontecimentos de outrora, não recordeis mais as coisas antigas; porque eis que vou fazer uma obra nova… Abrirei um caminho através do deserto e farei correr rios pela estepe…, para saciar a sede do meu povo eleito, o povo que formei para que proclamasse os meus feitos3.

Todos os dias, em todos os recantos do mundo, através dos sacerdotes, seus ministros, Jesus continua a dizer: “Eu te absolvo dos teus pecados…”, vai e não tornes a pecar. É o próprio Cristo que perdoa. “A fórmula sacramental: «Eu te absolvo…», a imposição das mãos e o sinal da cruz traçado sobre o penitente, manifestam quenaquele momento o pecador contrito e convertido entra em contacto com o poder e a misericórdia de Deus. É o momento em que, em resposta ao penitente, a Santíssima Trindade se torna presente para apagar-lhe o pecado e restituir-lhe a inocência, o momento em que a força salvífica da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo é comunicada ao penitente […]. Deus é sempre o principal ofendido pelo pecado – tibi soli peccavi!, só contra Vós pequei! – e só Deus pode perdoar”4.

As palavras que o sacerdote pronuncia não são somente uma oração de súplica para pedir a Deus que perdoe os nossos pecados, nem um mero certificado de que Deus se dignou conceder-nos o seu perdão, antes nesse mesmo instante causam e comunicam verdadeiramente o perdão: “Nesse momento, todos e cada um dos pecados são perdoados e apagados pela misteriosa intervenção do Salvador”5.

Poucas palavras no mundo têm produzido tanta alegria como as da absolvição. Santo Agostinho afirma que o prodígio que realizam supera a própria criação do mundo6. Com que alegria as recebemos, quando nos aproximamos do sacramento do perdão? Quantas vezes temos dado graças a Deus por termos tão ao alcance da mão este sacramento? Na nossa oração de hoje, podemos manifestar a nossa gratidão ao Senhor por esse dom tão grande.

II. PELA ABSOLVIÇÃO, o homem une-se a Cristo Redentor, que quis carregar com os nossos pecados. E por essa união, o pecador participa novamente da fonte de graças que brota sem cessar do lado aberto de Cristo.

No momento em que recebemos a absolvição, devemos intensificar a dor pelos nossos pecados, dizendo talvez alguma das orações previstas no Ritual, como estas palavras de São Pedro: “Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes que eu te amo”; e renovamos o propósito de emenda e escutamos com atenção as palavras do sacerdote que nos concede o perdão de Deus.

É o momento de recordar a alegria que significa recuperar a graça (se a tivermos perdido) ou sabê-la aumentada na nossa alma. Santo Ambrósio diz assim: “Eis que (o Pai) vem ao teu encontro; inclina-se sobre o teu ombro, dá-te um beijo, penhor de amor e ternura; faz com que te entreguem uma túnica nova, sandálias… Tu ainda temes a repreensão…, tens medo de uma palavra irritada, e Ele prepara-te um banquete”7. O nosso Amém converte-se então num grande desejo de recomeçar, mesmo que só nos tenhamos confessado de faltas veniais.

Depois de cada confissão, devemos dar graças a Deus pela misericórdia que teve conosco e deter-nos, ainda que brevemente, a concretizar o modo de pôr em prática os conselhos ou indicações recebidas ou de tornar mais eficaz o nosso propósito de emenda e melhora.

Outra manifestação dessa gratidão é procurar que os nossos amigos recorram a essa fonte de graças, aproximá-los de Cristo, como fez a Samaritana: transformada pela graça, correu a anunciar a boa nova aos seus conterrâneos, para que também eles se beneficiassem da especial oportunidade que a passagem de Jesus pela cidade lhes oferecia8. Dificilmente descobriremos uma obra de caridade tão valiosa como a de anunciar, àqueles que estão cobertos de lama e sem forças, a fonte de salvação que encontramos e em que somos purificados e reconciliados com Deus. Fazemos todos os possíveis para levar a cabo um apostolado eficaz da Confissão Sacramental? Aproximamos os nossos amigos desse tribunal da misericórdia divina? Começamos nós mesmos por não adiar esse encontro com a misericórdia de Deus?

III. “A SATISFAÇÃO é o ato final que coroa o sinal sacramental da Penitência. Em alguns países, chama-se precisamente penitência àquilo que o penitente perdoado e absolvido aceita cumprir depois de ter recebido a absolvição”9.

Os nossos pecados, mesmo depois de perdoados, merecem uma pena temporal de reparação que deve ser satisfeita nesta vida ou, depois da morte, no purgatório, para onde vão as almas dos que morrem em graça, mas sem terem expiado plenamente os seus pecados10.

Além disso, depois da reconciliação com Deus, permanecem na alma as relíquias do pecado: a fraqueza da vontade em aderir ao bem, certa facilidade para nos enganarmos nos nossos juízos, desordem no apetite sensível… São as feridas do pecado e as tendências desordenadas que o pecado original deixou no homem, e que se infetam com os pecados pessoais. “Não basta retirar a flecha do corpo – diz São João Crisóstomo –; também é preciso curar a chaga produzida pela flecha. Coisa semelhante acontece na alma: depois de ter recebido o perdão dos pecados, tem de curar por meio da penitência a chaga que ficou”11.

Depois de recebida a absolvição – ensina João Paulo II –, “permanece no cristão uma zona de sombra devida às feridas do pecado, à imperfeição do amor no arrependimento, ao enfraquecimento das faculdades espirituais, que continuam a manter ativo um foco infeccioso de pecado que é preciso combater sempre com a mortificação e a penitência. Tal é o significado da humilde, mas sincera satisfação”12.

Por todos estes motivos, devemos cumprir com muito amor e humildade a penitência que o sacerdote nos impõe antes de dar a absolvição. Costuma ser fácil e, se amamos de verdade o Senhor, perceberemos como é grande a desproporção entre ela e os nossos pecados. É mais um motivo para aumentarmos o nosso espírito de penitência neste tempo da Quaresma, em que a Igreja nos convida especialmente a fazê-lo.

“«Cor Mariae perdolentis, miserere nobis!» – invoca o Coração de Santa Maria, com ânimo e decisão de te unires à sua dor, em reparação pelos teus pecados e pelos de todos os homens de todos os tempos. – E pede-lhe – para cada alma – que essa sua dor aumente em nós a aversão ao pecado, e que saibamos amar, como expiação, as contrariedades físicas ou morais de cada jornada”13.

25ª Semana do Tempo Comum