Festa da Apresentação do Senhor

Festa da Apresentação do Senhor

I. A LEI DE MOISÉS, além da oferenda do primogênito, prescrevia a purificação da mãe. Essa lei não obrigava Maria, que é puríssima e que concebeu o seu Filho milagrosamente. Mas a Virgem nunca procurou ao longo da sua vida razões que a eximissem das normas comuns do seu tempo. “Pensas – pergunta São Bernardo – que não podia queixar-se e dizer: Que necessidade tenho eu de purificação? Por que me impedem de entrar no templo se as minhas entranhas, não tendo conhecido varão, se converteram em templo do Espírito Santo? Por que não hei de entrar no templo, se gerei o Senhor do templo? Não há nada de impuro, nada de ilícito, nada que deva submeter-se à purificação nesta concepção e neste parto; este Filho é a fonte da pureza, pois veio purificar os pecados. De que irá purificar-me o rito, se o próprio parto imaculado me fez puríssima?”1

No entanto, como em tantas ocasiões, a Mãe de Deus comportou-se como qualquer outra mulher judia da sua época. Quis ser exemplo de obediência e de humildade: uma humildade que a leva a não querer sobressair pelas graças com que Deus a tinha adornado. Com os seus privilégios e dignidade de Mãe de Deus, apresentou-se naquele dia, acompanhada de José, como mais uma entre as mulheres. Guardava no seu coração os tesouros de Deus. Poderia ter feito uso das suas prerrogativas, considerar-se isenta da lei comum, mostrar-se como uma alma singular, privilegiada, eleita para uma missão extraordinária. Mas ensinou-nos a passar inadvertidos entre os nossos companheiros, embora o nosso coração arda em amor de Deus, sem procurar exceções pelo fato de sermos cristãos: somos cidadãos comuns, com os mesmos direitos e deveres que os outros. “Maria Santíssima, Mãe de Deus, passa inadvertida, como mais uma, entre as mulheres do seu povo. – Aprende dEla a viver com naturalidade”2.

Aprendamos a não buscar o espetáculo, o gesto clamoroso nas nossas atitudes religiosas, levados pela vaidade ou pelo pretexto de fazer o bem. A eficácia não está nos gestos insólitos ou beatos, mas na exemplaridade diária no cumprimento do dever, de todos os deveres, que chama a atenção precisamente por não chamá-la: “Naturalidade. – Que a vossa vida de cavalheiros cristãos, de mulheres cristãs – o vosso sal e a vossa luz –, flua espontaneamente, sem esquisitices nem pieguices; levai sempre convosco o nosso espírito de simplicidade”3.

II. E DE REPENTE ENTRARÁ no santuário o Senhor a quem buscais… Será como o fogo que derrete os metais, e como a lixívia dos tintureiros; e sentar-se-á como um homem que se senta para fundir e refinar a prata. Assim purificará os filhos de Levi, e os refinará como o ouro e como a prata, e eles oferecerão sacrifícios ao Senhor em justiça4, lemos na primeira Leitura da Missa.

“A liturgia de hoje apresenta e atualiza novamente um «mistério» da vida de Cristo: no Templo, centro religioso da nação judaica – onde se sacrificavam animais continuamente, para oferecê-los a Deus –, entra pela primeira vez, humilde e modesto, Aquele que, conforme a profecia de Malaquias, deveria sentar-se para fundir e purificar […]. Faz a sua entrada no templo Aquele que tinha de parecer-se em tudo aos seus irmãos, a fim de ser diante de Deus um pontífice misericordioso e fiel, para expiar os pecados do povo5, como diz a segunda Leitura6. Jesus Cristo vem purificar-nos dos nossos pecados por meio da misericórdia e do perdão.

Hoje é uma festa do Senhor, que é apresentado no Templo e que, apesar de ser uma Criança, é já luz para iluminar as nações7. Mas “é também a festa dEla: de Maria. Ela carrega o Menino em seus braços e é também luz para as nossas almas, luz que ilumina as trevas do conhecimento e da existência humana, do entendimento e do coração. Quando as suas mãos maternais nos mostram esta grande luz divina, quando a aproximam do homem, descobrem-se os pensamentos de muitos corações”8.

Nossa Senhora, na festa de hoje, anima-nos a purificar o coração para que a oferenda de todo o nosso ser seja agradável a Deus, para que saibamos descobrir Cristo, nossa Luz, em todas as circunstâncias. Ela quis submeter-se ao rito comum da purificação ritual, sem ter necessidade alguma de fazê-lo, para que nós empreendêssemos a limpeza – tão necessária! – da nossa alma.

Desde os começos da Igreja, os Santos Padres falaram com toda a clareza da pureza imaculada de Nossa Senhora, com expressões cheias de beleza, de admiração e de amor. Dizem que Ela é lírio entre espinhos, virgem, imaculada, sempre bendita, livre de todo o contágio do pecado, árvore imarcescível, fonte sempre pura, santa e alheia a toda a mancha de pecado, mais formosa que a formosura, mais santa que a santidade, a única santa que – se excetuarmos somente Deus – foi superior a todos os outros. Por natureza mais bela, mais formosa e mais santa que os próprios querubins, mais que todos os exércitos dos anjos…9

Contemplamo-la agora, neste tempo de oração, puríssima, isenta de toda a mancha, e olhamos ao mesmo tempo para a nossa vida: fraquezas, omissões, faltas de generosidade, erros, tudo aquilo que deixou um resíduo mau na nossa alma, feridas por curar… “Tu e eu, sim, é que precisamos de purificação! Expiação, e, acima da expiação, o Amor. – Um amor que seja cautério, que abrase a imundície da nossa alma, e fogo que incendeie com chamas divinas a miséria do nosso coração”10.

“Pede ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, e à tua Mãe, que te façam conhecer-te e chorar por esse montão de coisas sujas que passaram por ti, deixando – ai! – tanto resíduo…

“E ao mesmo tempo, sem quereres afastar-te dessa consideração, diz-lhe: – Dá-me, Jesus, um Amor qual fogueira de purificação, onde a minha pobre carne, o meu pobre coração, a minha pobre alma, o meu pobre corpo se consumam, limpando-se de todas as misérias terrenas… E, já vazio todo o meu eu, enche-o de Ti: que não me apegue a nada daqui de baixo; que sempre me sustente o Amor”11.

III. CADA HOMEM, ensina a Sagrada Escritura, é como um vaso de barro que contém um tesouro de grande valor12. Um vaso desse frágil material pode quebrar-se com facilidade, mas também pode ser recomposto sem muito trabalho. Pela misericórdia divina, tudo o que se quebra tem conserto. O Senhor só nos pede que sejamos humildes, que recorramos à Confissão sacramental e recomecemos com o desejo de purificar as marcas que a má experiência passada nos tenha deixado na alma.

As fraquezas – pequenas ou grandes – são um bom motivo para fomentarmos os desejos de reparação e desagravo. Se não sossegamos enquanto não pedimos perdão e não mostramos de algum modo o nosso arrependimento a uma pessoa querida a quem tenhamos ofendido, como não hão de ser – ardentes, prontos, eficazes – os nossos desejos de reparação se ofendemos o Senhor! Ele nos espera então verdadeiramente ansioso por manifestar-nos o seu amor e a sua misericórdia. “Os filhos, quando estão doentes, têm mais um motivo para serem amados por sua mãe. E também nós, se por acaso estamos feridos pela malícia, por andarmos fora do caminho, temos mais um motivo para sermos amados pelo Senhor”13.

Em todos os momentos da vida, e especialmente quando não nos comportamos como Deus espera, alcançaremos uma profunda paz se pensarmos nos meios sobreabundantes que o Senhor nos deixou para purificarmos e recompormos a vida passada: Ele permaneceu na Sagrada Eucaristia para nos robustecer; deu-nos a Confissão sacramental para recuperarmos a graça – se a perdemos –, e para aumentarmos a resistência contra o mal e a capacidade para o bem; escolheu-nos um Anjo da Guarda para que esteja ao nosso lado e nos proteja em todos os caminhos; contamos com a ajuda dos nossos irmãos na fé, por meio da Comunhão dos Santos; temos o exemplo e a correção fraterna dos bons cristãos que nos rodeiam… De modo especialíssimo, contamos com a ajuda de Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe nossa, a quem temos de recorrer com verdadeira urgência quando nos sentimos mais cansados, mais fracos, ou quando se multiplicam as tentações e sobretudo nas quedas, se Deus as permite para nossa humildade.

Recordando a festa de hoje, Santo Afonso Maria de Ligório fala do poder intercessor de Maria servindo-se de uma antiga lenda. Conta-se – diz Santo Afonso – que certa vez Alexandre Magno recebeu uma carta com uma longa lista de acusações contra a sua mãe. Depois de lê-la, o imperador comentou: “Alguém ignora que uma pequena lágrima de minha mãe é suficiente para apagar mil cartas com acusações?” E o Santo põe na boca de Jesus estas palavras: “Não sabes, Lúcifer, que uma simples súplica de minha Mãe, em favor de um pecador, é suficiente para fazer-me esquecer todas as acusações que as faltas desse pecador levantam contra ele?” E conclui: “Deus prometera a Simeão que não morreria sem ver o Messias […]. Mas ele só recebeu esta graça por intervenção de Maria, porquanto não achou o Salvador senão nos braços de Maria. Vamos, pois, à Mãe de Deus, se queremos achar Jesus”14.

Hoje pedimos à nossa Mãe que limpe e purifique a nossa alma, e colocamo-nos nas suas mãos para oferecer Jesus ao Pai e para nos oferecermos com Ele: Pai Santo!, pelo Coração Imaculado de Maria, eu vos ofereço Jesus, vosso Filho muito amado, e me ofereço nEle e por Ele a todas suas intenções e em nome de todas as criaturas15.

(1) São Bernardo, Sermão sobre a purificação de Santa Maria, III, 2; (2) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 499; (3) ib., n. 379; (4) Mal 3, 1-4; (5) João Paulo II, Homilia, 2-II-1981; (6) Hebr 2, 14-18; (7) Lc 2, 32; (8) João Paulo II, Homilia, 2-II-1979; (9) cfr. Pio XII, Enc. Fulgens corona, 8-IX-1953; (10) Josemaría Escrivá, Santo Rosário, 2ª ed., Quadrante, São Paulo, 1988, IV mist. gozoso; (11) Josemaría Escrivá, Forja, n. 41; (12) cfr. 2 Cor 4, 7; (13) João Paulo II, Angelus, 10-IX-1978; (14) Santo Afonso Maria de Ligório, Glórias de Maria Santíssima, II, 6; (15) P. M. Sulamitis, Oração da oferenda ao Amor Misericordioso, Madrid, 1931.