Festa da Transfiguração do Senhor

Festa da Transfiguração do Senhor

Esta festa do Senhor celebrou-se desde os começos nesta mesma data, em muitos lugares do Ocidente e do Oriente. No século XV, o Papa Calixto III estendeu-a a toda a Igreja. A liturgia recorda-nos mais de uma vez durante o ano o milagre da Transfiguração: no segundo domingo da Quaresma, para afirmar a divindade de Cristo, pouco antes da Paixão; e hoje, para festejar a exaltação de Cristo na sua glória. A Transfiguração do Senhor é, além disso, uma antecipação do que será a glória do Céu, onde veremos a Deus cara a cara; em virtude da graça, participamos já nesta terra dessa promessa da vida eterna.

I. QUANDO CRISTO SE MANIFESTAR, seremos semelhantes a Ele, pois o veremos tal como é1.

Jesus tinha anunciado aos seus discípulos a iminência da sua Paixão e os sofrimentos que viria a padecer às mãos dos judeus e dos gentios; e exortara-os a segui-lo pelo caminho da cruz e do sacrifício2. Poucos dias depois desses acontecimentos, que tiveram lugar em Cesaréia de Filipe, quis confortar-lhes a fé, pois – como ensina São Tomás –, para que uma pessoa ande retamente por um caminho, é preciso que conheça antes de algum modo o fim para o qual se dirige: “como o arqueiro não lança com acerto a seta se primeiro não olha o alvo. E isto é necessário sobretudo quando a via é áspera e difícil e o caminho laborioso… E por isso foi conveniente que o Senhor manifestasse aos seus discípulos a glória da sua claridade, que é o mesmo que transfigurar-se, pois nessa claridade transfigurará os seus”3.

A nossa vida é um caminho para o Céu. Mas é uma via que passa pela cruz e pelo sacrifício. Até o último momento, teremos de lutar contra a corrente, e é possível que também passemos pela tentação de querer tornar compatível a entrega que o Senhor nos pede com uma vida fácil e talvez aburguesada, como a de tantos que vivem com o pensamento posto exclusivamente nas coisas materiais. “Não sentimos freqüentemente a tentação de pensar que chegou o momento de converter o cristianismo em algo fácil, de torná-lo confortável, sem sacrifício algum; de fazê-lo conformar-se com as maneiras cômodas, elegantes e comuns dos outros e com o modo de vida mundano? Mas não é assim!… O cristianismo não pode dispensar a cruz: a vida cristã é inviável sem o peso forte e grande do dever… Se procurássemos tirá-lo da nossa vida, criaríamos ilusões e debilitaríamos o cristianismo; transformá-lo-íamos numa interpretação branda e cômoda da vida”4. Não é esse o caminho que o Senhor indicou.

Quando chegassem os momentos dolorosos da Paixão, os discípulos ficariam profundamente desconcertados. Por isso, o Senhor levou três deles – precisamente aqueles que o acompanhariam na sua agonia no horto de Getsêmani – ao cimo do monte Tabor, para que contemplassem a sua glória. Ali mostrou-se “na claridade soberana que quis tornar visível a esses três homens, refletindo o espiritual de uma maneira adequada à natureza humana. Pois era impossível que, revestidos ainda de carne mortal, pudessem ver ou contemplar aquela inefável e inacessível visão da própria divindade que está reservada aos limpos de coração na vida eterna”5, aquela que nos aguarda se procurarmos ser fiéis todos os dias.

O Senhor também quer confortar-nos com a esperança do Céu especialmente se alguma vez o nosso caminho se torna íngreme e nos deixamos invadir pelo desalento. Pensar nas coisas que nos esperam ajudar-nos-á a ser fortes e a perseverar. Não deixemos de trazer à memória o lugar que o nosso Pai-Deus nos preparou e para o qual nos dirigimos. Cada dia que passa aproxima-nos um pouco mais do Céu. Para um cristão, a passagem do tempo não é, de maneira nenhuma, uma tragédia; pelo contrário, encurta o caminho que temos de percorrer até recebermos o abraço definitivo de Deus, o abraço há tanto tempo esperado.

II. JESUS TOMOU CONSIGO Pedro, Tiago e João, e levou-os à parte a um monte alto, e transfigurou-se diante deles. E o seu rosto ficou refulgente como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a neve. E eis que lhes apareceram Moisés e Elias e falavam com Ele6. Esta visão produziu nos Apóstolos uma felicidade irreprimível; Pedro expressa-a com estas palavras: Senhor, é bom estarmos aqui; se queres, façamos aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias7. Sentia-se tão feliz que nem sequer pensou em si mesmo, nem em Tiago e João, que o acompanhavam. São Marcos, que nos transmite a catequese do próprio São Pedro, acrescenta que o Apóstolo não sabia o que dizia8. Estando ele ainda a falar, eis que uma nuvem resplandecente os envolveu; e saiu da nuvem uma voz que dizia: Este é o meu filho muito amado, em quem pus todas as minhas complacências; ouvi-o9.

A lembrança desses momentos no Tabor viriam a ser sem dúvida de grande ajuda para os três discípulos em tantas circunstâncias difíceis e dolorosas pelas quais teriam de passar. São Pedro recordá-los-á até o fim da vida. Numa das suas Epístolas, dirigida aos primeiros cristãos para confortá-los num momento de dura perseguição, afirma que eles, os Apóstolos, não anunciaram Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosas, mas depois de termos sido espectadores da sua grandeza. Pois Ele recebeu de Deus Pai honra e glória quando a majestosa glória lhe dirigiu estas palavras: Este é o meu Filho muito amado, em quem pus as minhas complacências; ouvi-o. E nós mesmos ouvimos essa voz vinda do Céu, quando estávamos com ele sobre o monte santo10.

O Senhor, momentaneamente, permitiu que os três discípulos pudessem entrever a sua divindade, e eles ficaram fora de si, cheios de uma imensa felicidade. “A transfiguração revela-lhes um Cristo que não se mostrava na vida cotidiana. Está diante deles como Alguém no qual se cumpre a Antiga Aliança, e sobretudo como o Filho eleito do Pai Eterno, a quem é preciso prestar fé absoluta e obediência total”11, a quem devemos buscar ao longo da nossa existência aqui na terra.

O que será o Céu que nos espera, onde contemplaremos Cristo glorioso, não num instante, mas numa eternidade sem fim, se formos fiéis? “Meu Deus, quando te amarei a Ti, por Ti? Se bem que, bem vistas as coisas, Senhor, desejar o prêmio imperecível é o mesmo que desejar-te a Ti, que Te dás como recompensa”12.

III. ESTANDO ELE AINDA A FALAR, eis que uma nuvem resplandecente os envolveu; e saiu da nuvem uma voz que dizia: Este é o meu filho muito amado, em quem pus todas as minhas complacências; ouvi-o13. Quantas vezes não o teremos nós ouvido na intimidade do nosso coração!

O mistério que hoje celebramos não foi um sinal e antecipação unicamente da glorificação de Cristo, mas também da nossa, pois, como ensina São Paulo, o mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo; mas isto, se sofrermos com ele, para com ele sermos glorificados14. E o Apóstolo acrescenta: Porque eu tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória vindoura, que se há de manifestar em nós15. Qualquer padecimento, pequeno ou grande, que padeçamos por Cristo não é nada se o compararmos com a recompensa que nos espera.

O Senhor abençoa com a Cruz, especialmente quando deseja conceder-nos bens muito grandes. Se alguma vez permite que experimentemos mais intensamente a sua Cruz, isso é sinal de que nos considera filhos prediletos. Podemos padecer humilhações, dores físicas, fracassos, contradições familiares… Não é então o momento de ficarmos tristes, mas de recorrermos ao Senhor e experimentarmos o seu amor paternal e o seu consolo. Nunca nos faltará a sua ajuda para convertermos esses males aparentes em grandes bens para a nossa alma e para toda a Igreja. “Não se carrega já uma cruz qualquer, descobre-se a Cruz de Cristo, com o consolo de que é o Redentor quem se encarrega de suportar o peso”16. É Ele, o Amigo inseparável, quem carrega os fardos duros e difíceis. Sem Ele, qualquer peso nos esmaga.

Se nos mantivermos sempre perto de Jesus, nada poderá causar-nos verdadeiro mal: nem a ruína econômica, nem a prisão, nem a doença grave…, muito menos as pequenas contrariedades diárias que tendem a tirar-nos a paz se não estamos alerta. O próprio São Pedro recordava-o aos primeiros cristãos: Quem poderá fazer-vos mal, se vós fordes zelosos em praticar o bem? E até se alguma coisa sofreis pela justiça, sois bem-aventurados17.

Peçamos a Nossa Senhora que saibamos oferecer com paz a dor e o cansaço que cada dia traz consigo, com o pensamento posto em Jesus, que nos acompanha nesta vida e que nos espera, glorioso, no fim do caminho. “E quando chegar aquela hora / em que se fechem meus humanos olhos, / abri-me outros, Senhor, outros maiores, / para contemplar a vossa face imensa. / Seja a morte um maior nascimento!”18, o começo de uma vida sem fim.

(1) 1 Jo 3, 2; Antífona da Comunhão da Missa do dia 6 de agosto; (2) cfr. Mt 16, 24 e segs.; (3) São Tomás, Suma Teológica, III, q. 45, a. 1 c; (4) Paulo VI, Alocução, 8-IV-1966; (5) São Leão Magno, Homilias sobre a Transfiguração, 3; (6) Mt 17, 1-3; (7) Mt 17, 4; (8) cfr. Mc 9, 6; (9) Mt 17, 5; (10) 2 Pe 1, 16-18; Segunda leitura da Missa do dia 6 de agosto; (11) João Paulo II, Homilia, 27-II-1983; cfr. Audiência geral, 27-V-1987; (12) Josemaría Escrivá, Forja, n. 1030; (13) Mt 17, 5; (14) Rom 8, 16-17; (15) Rom 8, 18; (16) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 132; (17) 1 Pe 3, 13-14; (18) J. Maragall, Canto espiritual, em Antologia Poética, Alianza, Madrid, 1985, pág. 185.