Festa de Cristo Rei

Festa de Cristo Rei

 

Termina o ano litúrgico e no Santo Sacrifício do Altar renovamos ao Pai o oferecimento da
Vítima, Cristo, Rei de santidade e de graça, Rei de justiça, de amor e de paz, como leremos
dentro em pouco no Prefácio (…regnum santitatis et gratiae, regnum iustitiae, amoris et pacis
– Prefácio da Missa). Todos sentis nas vossas almas uma alegria imensa, ao considerar a santa
Humanidade de Nosso Senhor: um Rei com coração de carne, como o nosso; que é autor do
universo e de cada uma das criaturas e que não se impõe dominando, mendiga um pouco de
amor, mostrando-nos, em silêncio, as suas mãos chagadas.

Então porque é que tantos O ignoram? Porque é que se ouve, ainda esse protesto cruel:
nolumus hunc regnare super nos, não queremos que este reine sobre nós? Na terra há milhões
de homens que se enfrentam assim com Jesus Cristo ou, melhor dito, com a sombra de Jesus
Cristo, porque a Cristo não o conhecem, nem viram a beleza do Seu rosto, nem conhecem a
maravilha da Sua doutrina.

Diante desse triste espectáculo, sinto-me inclinado a desagravar o Senhor. Ao escutar esse
clamor que não cessa e que, mais do que de vozes, é feito de obras pouco nobres,
experimento a necessidade de gritar alto: oportet illum regnare! (1 Cor XV, 25.), convém que
Ele reine.

Oposição a Cristo

Muitos não suportam que Cristo reine. Opõem-se-Lhe de mil maneiras, quer nos planos gerais
de governo do mundo e da convivência humana, quer nos costumes, quer na arte ou na
ciência. Até na própria Igreja! Eu não falo – escreve Santo Agostinho – dos malvados que
blasfemam de Cristo. São raros, efectivamente, os que O blasfemam com a língua, mas são
muitos os que O blasfemam com a própria conduta.

Para alguns é molesta a própria expressão Cristo Rei, talvez por uma superficial questão de
palavras como se o reinado de Cristo pudesse confundir-se com fórmulas políticas, ou porque
a confissão da realeza do Senhor os levaria a admitir uma lei. E não toleram a lei, mesmo a do
amável preceito da caridade, visto que não querem aproximar-se do amor de Deus. São os que
só ambicionam servir o seu próprio egoísmo.

O Senhor levou-me a repetir, desde há muito tempo, um grito calado: Serviam! Servirei! Que
Ele nos aumente essas ânsias de entrega, de fidelidade ao seu chamamento divino – com
naturalidade, sem aparato, sem barulho – no meio da rua. Demos-Lhe graças do fundo do
coração. Dirijamos-Lhe uma oração de súbditos, de filhos! – e a língua e o paladar encher-se-

nos-ão de doçura com tal intensidade, que tratar do Reino de Deus nos saberá como a favo de
mel, porque se trata dum Reino de liberdade, da liberdade que Ele ganhou para nós.

Cristo, Senhor do mundo

Gostaria de considerar convosco como esse Cristo, que – terna criança – vimos nascer em
Belém, é o Senhor do mundo. Eis as razões: por Ele foram criados todos os seres nos céus e na
Terra; Ele reconciliou com o Pai todas as coisas, restabelecendo a paz entre o Céu e a Terra,
por meio do sangue que derramou na Cruz. Hoje Cristo reina, à direita do Pai; aqueles dois
anjos de vestes brancas declararam aos discípulos que, atónitos, estavam a contemplar as
nuvens, depois da Ascensão do Senhor: Homens da Galileia, porque estais assim a olhar para o
Céu? Esse Jesus, que vos foi arrebatado para o Céu, virá da mesma maneira, como agora O
vistes partir para o Céu).

Por Ele reinam os reis, com a diferença de que os reis, as autoridades humanas, passam e o
reino de Cristo permanecerá por toda a eternidade, o seu reino é um reino eterno e o seu
domínio perdurará de geração em geração.

O reino de Cristo não é um modo de dizer, nem uma imagem de retórica. Cristo vive, também
como homem, com aquele mesmo corpo que assumiu na Encarnação, que ressuscitou depois
da Cruz e subsiste glorificado na Pessoa do Verbo juntamente com a sua alma humana. Cristo,
Deus e Homem verdadeiro, vive e reina e é o Senhor do mundo. Só por Ele se mantém na vida
tudo o que vive.

Mas então porque é que não aparece agora em toda a sua glória? Porque o seu reino não é
deste mundo, ainda que esteja no mundo. Replicou Jesus a Pilatos: Eu sou Rei! Para isto nasci,
e para isso vim ao mundo, para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade
ouve a minha voz. Aqueles que esperavam do Messias um poderio temporal visível,
enganavam-se: porque o Reino de Deus não consiste em comer e beber, mas em paz, justiça e
alegria no Espírito Santo.

Verdade e justiça, paz e júbilo no Espírito Santo. Esse é o reino de Cristo. A acção divina que
salva os homens culminará com o fim da história, quando o Senhor, que Se senta no mais alto
do paraíso, vier julgar definitivamente os homens.

Quando Cristo inicia a sua pregação na Terra, não oferece um programa político, mas diz: fazei
penitência, porque está perto o reino dos Céus. Encarrega os seus discípulos de anunciar esta
boa nova e ensina a pedir, na oração, a chegada do reino, isto é, o reino dos Céus e a sua
justiça, uma vida santa, aquilo que temos de procurar em primeiro lugar, a única coisa
verdadeiramente necessária.

A salvação pregada por Nosso Senhor Jesus Cristo é um convite dirigido a todos: o reino dos
céus é semelhante a um rei, que fez as núpcias do seu filho. E mandou os seus servos chamar
convidados para as núpcias. Por isso, o Senhor revela que o reino dos Céus está no meio de
vós.

Ninguém se encontra excluído da salvação se adere livremente às exigências amorosas de
Cristo: nascer de novo, fazer-se como menino, na simplicidade de espírito; afastar o coração de
tudo aquilo que aparte de Deus. Jesus quer factos; não só palavras; e um esforço, denodado,
porque apenas aqueles que lutam serão merecedores da herança eterna.

A perfeição do reino – o juízo definitivo de salvação ou de condenação – não se dará na Terra.
Agora o reino é como uma semente, como o crescimento do grão de mostarda. O seu fim será
como a rede que apanhava toda a espécie de peixes, donde – depois de trazida para a areia –
serão extraídos, para destinos diferentes, os que praticaram a justiça e os que fizeram a
iniquidade. Mas, enquanto aqui vivemos, o reino assemelha-se à levedura que uma mulher
tomou e misturou com três medidas de farinha, até que toda a massa ficou fermentada.

Quem compreender o reino que Cristo propõe, reconhece que vale a pena jogar tudo para o
conseguir; é a pérola que o mercador adquire à custa de vender tudo o que possui, é o tesoiro
encontrado no campo. O reino dos céus é uma conquista difícil e ninguém tem a certeza de o
alcançar, embora o clamor humilde do homem arrependido consiga que se abram as suas
portas de par em par. Um dos ladrões que foram crucificados com Jesus suplica-Lhe: Senhor,
lembra-te de mim, quando entrares no teu reino. E Jesus disse-lhe: Em verdade te digo: Hoje
estarás comigo no paraíso.

O reino na alma

Como, és grande, Senhor, Nosso Deus! Tu és quem dá à nossa vida sentido sobrenatural e
eficácia divina. Tu és a causa de que, por amor de Teu Filho, com todas as forças do nosso ser,
com a alma e com o corpo, possamos repetir: oportet illum regnare!, enquanto ressoa o eco
da nossa debilidade, porque sabes que somos criaturas – e que criaturas! – feitas de barro, dos
pésà cabeça, sem esquecer o coração. Perante o divino, vibraremos exclusivamente por Ti.

Cristo deve reinar, em primeiro lugar, na nossa alma. Mas como Lhe responderíamos, se Ele
nos perguntasse: como é que tu Me deixas reinar em ti? Eu responder-Lhe-ia que para que Ele
reine em mim, preciso da sua graça abundante, pois só assim é que o mais imperceptível
pulsar do meu coração, a menor respiração, o olhar menos intenso, a palavra mais corrente, a
sensação mais elementar se traduzirão num hossana ao meu Cristo Rei.

Se pretendemos que Cristo reine, temos de ser coerentes, começando por Lhe entregar o
nosso coração. Se não o fizéssemos, falar do reino de Cristo seria vozearia sem substância
cristã, manifestação exterior de uma fé inexistente, utilização fraudulenta do nome de Deus
para compromissos humanos.

Se a condição para que Jesus reinasse na minha alma, na tua alma, fosse contar previamente
em nós com um lugar perfeito, teríamos razão para desesperar. Mas não temas, filha de Sião;
eis que o teu Rei vem montado num jumentinho. Vedes? Jesus contenta-se com um pobre
animal por trono. Não sei o que se passa convosco, mas a mim não me humilha reconhecer-me
aos olhos do Senhor como um jumento: fui diante de ti como um jumento. Porém, estarei
sempre contigo: tomaste-me pela minha mão direita, tu és quem me leva pela arreata.

Pensai nas características dum jumento, agora que vão ficando tão poucos. Não falo dum
burro velho e teimoso, rancoroso, que se vinga com um coice traiçoeiro, mas dum burriquito
jovem, com as orelhas tesas como antenas, austero na comida, duro no trabalho, com o trote
decidido e alegre. Há centenas de animais mais formosos, mais hábeis e mais cruéis. Mas
Cristo preferiu este para se apresentar como rei diante do povo que O aclamava, porque Jesus
não sabe que fazer da astúcia calculadora, da crueldade dos corações frios, da formosura
vistosa mas vã. Nosso Senhor ama a alegria dum coração moço, o passo simples, a voz sem
falsete, os olhos limpos, o ouvido atento à sua palavra de carinho. E é assim que reina na alma.

Reinar servindo

Se deixarmos que Cristo reine na nossa alma, não nos tornaremos dominadores; seremos
servidores de todos os homens. Serviço. Como gosto desta palavra! Servir o meu Rei e, por Ele,
todos os que foram redimidos com o seu sangue. Se os cristãos soubessem servir! Vamos
confiar ao Senhor a nossa decisão de aprender a realizar esta tarefa de serviço, porque só
servindo é que poderemos conhecer e amar Cristo e dá-Lo a conhecer e conseguir que os
outros O amem mais.

Como o mostraremos às almas? Com o exemplo: que sejamos testemunho Seu, com a nossa
voluntária servidão a Jesus Cristo em todas as nossas actividades, porque é o Senhor de todas
as realidades da nossa vida, porque é a única e a última razão da nossa existência. Depois,
quando já tivermos prestado esse testemunho do exemplo, seremos capazes de instruir com a
palavra, com a doutrina. Assim procedeu Cristo: coepit facere et docere, primeiro ensinou com
obras e só depois com a sua pregação divina.

Servir os outros, por Cristo, exige que sejamos muito humanos. Se a nossa vida é desumana,
Deus nada edificará nela, porque habitualmente não constrói sobre a desordem, sobre o
egoísmo, sobre a prepotência. Precisamos de compreender todas as pessoas, temos de
conviver com todos, temos de desculpar todos, temos de perdoar a todos. Não diremos que o

injusto é justo, que a ofensa a Deus não é ofensa a Deus, que o mau é bom. Todavia, perante o
mal, não responderemos com outro mal, mas com a doutrina clara e com a boa acção;
afogando o mal em abundância de bem. Assim Cristo reinará na nossa alma e nas almas dos
que nos rodeiam.

Alguns procuram construir a paz no mundo sem porem amor de Deus nos seus corações, sem
servirem por amor de Deus as criaturas. Como será possível realizar desse modo uma missão
de paz? A paz de Cristo é a paz do reino de Cristo; e o reino de Nosso Senhor há-de alicerçar-se
no desejo de santidade, na disposição humilde para receber a graça, numa, esforçada acção de
justiça, num divino derramamento de amor.

(HOMILIA QUE S. JOSEMARIA PREGOU NO DIA 22 DE NOVEMBRO DE 1970.)