Festa de Santa Maria Madalena

Festa de Santa Maria Madalena

Era originária de Magdala, pequena cidade da Galiléia a noroeste do lago de Tiberíades. Fez parte do grupo de mulheres que seguiam Jesus e o serviam com os seus bens. Esteve presente no Calvário, e na madrugada do dia da Páscoa teve o privilégio de ser a primeira, depois da Virgem, a ver o Redentor ressuscitado, a quem reconheceu quando a chamou pelo seu nome. O seu culto estendeu-se consideravelmente na Igreja do Ocidente durante a Idade Média. Não parece provável que fosse a mesma que derramou sobre os pés de Jesus um frasco de alabastro na casa de Simão o fariseu.

I. Ó DEUS, Vós sois o meu Deus! Busco-Vos com solicitude; de Vós está sedenta a minha alma, deseja-Vos a minha carne, como a terra árida e sedenta, sem água1, lemos no Salmoresponsorial da Missa.

Ao cabo de vinte séculos, continuam a comover-nos a delicadeza, a fidelidade e o amor de Maria Madalena por Jesus. São João narra-nos no Evangelho da Missa2 como esta mulher se dirigiu ao sepulcro logo que lho permitiu o descanso sabático, quando ainda estava escuro, em busca do Corpo morto do seu Senhor. Ele tinha-a libertado do Maligno3, a graça frutificara no seu coração, e ela seguira fielmente o Mestre em algumas das suas viagens apostólicas e servira-o generosamente com os seus bens. Nos momentos terríveis da crucifixão, permaneceu no Calvário4, bem perto dAquele que a tinha curado dos seus males. E quando depositaram Jesus no sepulcro, continuou por ali, fazendo-lhe companhia, como talvez já tenhamos feito com o corpo de uma pessoa amada. Testemunha-o São Mateus: E Maria Madalena e a outra Maria estavam ali sentadas, defronte do sepulcro5.

Passado o sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana6, dirigiu-se com outras santas mulheres ao lugar onde se encontrava o Corpo de Jesus, a fim de embalsamá-lo. Mas o Senhor já não está ali: tinha ressuscitado! Viu a pedra retirada e o sepulcro vazio. Correu, pois, e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes: Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o puseram7. Pedro e João foram correndo ao sepulcro. São João conta-nos que aquele momento foi definitivo na sua vida: viu e creu8. Os dois voltaram novamente para casa9, mas Maria ficou ali, chorando a ausência do Corpo do Mestre. Com uma tristeza indescritível, sem ainda acreditar na ressurreição, persevera, não quer afastar-se do lugar onde viu pela última vez o Corpo adorável do Senhor.

Consideramos hoje “a intensidade do amor que ardia no coração daquela mulher, que não se afastou do sepulcro do Senhor mesmo quando os discípulos se retiraram. Procurava Aquele a quem não tinha encontrado, procurava-o chorando e, inflamada no fogo do seu amor, ardia em desejos de encontrar Aquele que julgava terem tirado. E assim aconteceu que foi a única que o viu naquele momento; porque, na verdade, o que dá força às boas obras é a perseverança nelas”10.

Não deixemos nós de procurar sempre Jesus, mesmo nos momentos em que – se o Senhor o permite – o desalento e a escuridão penetrem na alma. Não esqueçamos nunca que Ele sempre está muito perto da nossa vida, ainda que não o vejamos. Está sempre perto, porque, como diz o Apóstolo, “Dominus prope est! – o Senhor me acompanha de perto. Caminharei com Ele, portanto, bem seguro, já que o Senhor é meu Pai…, e com a sua ajuda cumprirei a sua amável Vontade, ainda que me custe”11.

II. PELA SUA PERSEVERANÇA em procurá-lo, pelo seu grande amor, Maria Madalena recebeu o dom de ser a primeira pessoa a quem Jesus apareceu12. A princípio, não reconheceu Jesus, apesar de estar ao seu lado. São João diz que voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não sabia que era Jesus13. Apesar de tê-lo visto, não percebeu que era Cristo – vivo! – que estava ao seu lado. Mulher – disse-lhe Jesus –, por que choras? A quem procuras?14 As lágrimas impediram-na de ver o Mestre, a quem adivinhamos sorrindo, feliz com o encontro, como quando se dirige a nós, que o procuramos sem cessar, porque Ele é o mesmo então e agora. Ela, julgando que era o hortelão, disse-lhe: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei15.

Então Jesus chamou-a pelo nome, com a entoação própria que empregava quando se dirigia a ela. Disse-lhe Jesus: Maria!16 Todas as nuvens, acumuladas no seu coração durante os três dias, dissiparam-se instantaneamente. “Quantas penas interiores, quantos tormentos do espírito causados por um grande amor e para os quais não parecia haver consolo, se desfizeram como a espuma ante uma só palavra de Jesus!”17 E como um rio incontrolável, como se tudo tivesse sido um pesadelo, Maria olhou-o e disse-lhe: Rabboni! Mestre!18 Como se fosse uma realidade impossível de traduzir, São João quis conservar-nos o termo hebreu, familiar, com que Maria chamara tantas vezes o Senhor.

“Procurava-o entre os mortos – comenta Santo Agostinho –, e Ele apresentou-se vivo. Como vivo? Chama-a pelo nome: Maria, e ela responde imediatamente, mal ouve o seu nome: Rabboni. O hortelão podia ter dito: «A quem procuras? Por que choras?» Mas só Cristo podia ter dito: Maria. Chamou-a pelo nome Aquele que a chamou ao reino dos céus. Pronunciou o nome que tinha escrito no seu livro: Maria. E ela: Rabboni, que significa Mestre. Reconheceu Aquele que a iluminava para que o reconhecesse; viu Cristo em quem antes tinha visto um hortelão. E o Senhor disse-lhe: Não me toques, porque ainda não subi para meu Pai (Jo 20, 17)”19.

Como desaparecem os nossos pesares quando descobrimos Jesus vivo e glorioso, que está ao nosso lado e nos chama pelo nosso nome! Que alegria encontrá-lo tão perto, vê-lo tão familiar, poder chamá-lo com o nosso acento peculiar, que Ele conhece tão bem! A nossa oração é a nossa felicidade mais profunda, e também o sustentáculo em que se apóia toda a nossa vida. Não deixemos de procurar o Senhor se alguma vez não o vemos; se perseverarmos, Ele virá ao nosso encontro e nos chamará pelo nosso nome familiar, e recuperaremos a paz e a alegria, se as tivermos perdido. Uma só palavra de Jesus devolve-nos a esperança e a vontade de recomeçar.

Não esqueçamos em situação nenhuma que “o dia do triunfo do Senhor, da sua Ressurreição, é definitivo. Onde estão os soldados que a autoridade tinha destacado? Onde estão os selos que tinham colocado sobre a pedra do sepulcro? Onde estão os que condenaram o Mestre? Onde estão os que crucificaram Jesus?… Perante a sua vitória, produz-se a grande fuga dos pobres miseráveis. Enche-te de esperança: Jesus Cristo vence sempre”20. Também vence na nossa vida e triunfa sobre os nossos defeitos e fraquezas, por mais inamovíveis que nos pareçam ser, se sabemos procurá-lo a todo o custo.

III. DEPOIS DE CONSOLAR MARIA, o Senhor encarrega-a de transmitir uma mensagem aos Apóstolos, a quem chama carinhosamente irmãos. E foi Maria Madalena e anunciou aos discípulos: Vi o Senhor!; a seguir, contou-lhes tudo o que tinha acontecido21. Podemos imaginar a alegria com que Maria teria pronunciado essas palavras: Vi o Senhor! É o gozo e a alegria de todo o apostolado em que se anuncia aos outros, de mil formas diversas, que Jesus vive. São Tomás de Aquino comenta a este propósito: “Por esta mulher, que foi a mais solícita em reconhecer o sepulcro de Cristo, designa-se toda a pessoa que anseia por conhecer a verdade divina e que, portanto, é digna de anunciar aos outros o conhecimento de tal graça – como Maria o anunciou aos discípulos –, para que não deva ser repreendida por ter escondido o talento”. E o santo Doutor conclui: “Esse gozo não nos foi concedido para que o ocultemos no segredo do nosso coração, mas para que o mostremos aos que amam”22, para que o publiquemos aos quatro ventos.

Quem encontra Cristo na sua vida, encontra-o para todos. A notícia da Ressurreição propagou-se como um incêndio nos primeiros séculos; os cristãos eram conscientes de serem portadores da Boa Nova, discípulos gozosos dAquele que, tendo morrido por todos, ressuscitara ao terceiro dia, como tinha anunciado. Eram um povo feliz no meio de um mundo triste; e a sua alegria, como a nossa, procedia de estarem perto de Cristo vivo. O apostolado é sempre a comunicação de uma mensagem alegre, a mais gozosa de todas.

Pedimos hoje a Santa Maria Madalena que nos consiga do Senhor o seu amor e a sua perseverança em procurá-lo. E uma vez que foi a ela, antes que a ninguém, que Jesus confiou a missão de anunciar aos seus a alegria pascal, alcancemos a alegria de anunciar sempre que Cristo ressuscitou e de vê-lo um dia glorioso no reino dos céus23. Ali o contemplaremos, como também veremos Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe nossa, que nunca se separou do nosso lado. E veremos com particular alegria todos aqueles a quem tivermos anunciado, em clima de amizade, que Cristo ressuscitado continua entre nós.

(1) Sl 62, 2; Salmo responsorial da Missa do dia 22 de julho; (2) Jo 20, 1-2, 11-18; (3) Lc 8, 2; (4) cfr. Mt 27, 56; (5) Mt 27, 61; (6) cfr. Mt 28, 1; (7) Jo 20, 2; (8) cfr. Jo 20, 8; (9) Jo 20, 10; (10) Liturgia das Horas, Segunda leitura, São Gregório Magno, Homilias sobre o Evangelho, 25, 1-2; (11) cfr. Josemaría Escrivá, Sulco, n. 53; (12) Mc 16, 9; (13) Jo 20, 14; (14) Jo 20, 15; (15) Jo 20, 15; (16) Jo 20, 16; (17) M. J. Indart, Jesus en su mundo, Herder, Barcelona, 1963, pág. 124; (18) Jo 20, 16; (19) Santo Agostinho, Sermão 246, 3-4; (20) Josemaría Escrivá, Forja, Quadrante, São Paulo, 1987, n. 660; (21) cfr. Jo 20, 18; (22) São Tomás, em Catena Aurea, vol. VIII, pág. 400; (23) cfr. Oração coleta da Missa.