Festa de São Judas Tadeu e São Simão

Festa de São Judas Tadeu e São Simão

Simão, também chamado Zelote, talvez por ter pertencido ao partido judeu dos zeladores da Lei, era natural de Caná da Galiléia. Judas, de cognome Tadeu (o valente), é apontado explicitamente desde os começos, pela tradição eclesiástica, como o autor da Epístola de São Judas. Pregaram a doutrina de Cristo, segundo parece, no Egito, Mesopotâmia e Pérsia, e morreram mártires em defesa da fé.

I. O SENHOR, que não necessitava de que lhe dessem testemunho1, quis, no entanto, escolher os Apóstolos para que o acompanhassem na sua vida e continuassem a sua obra depois da sua morte. Nas primeiras manifestações da arte cristã, vemos com freqüência Jesus rodeado pelos Doze Apóstolos, formando com eles uma família inseparável.

Os discípulos não pertenciam à classe influente de Israel nem ao grupo sacerdotal de Jerusalém. Não eram filósofos, mas pessoas simples. “É uma eterna maravilha ver como esses homens estenderam pelo mundo uma mensagem radicalmente oposta nas suas linhas essenciais ao pensamento dos homens do seu tempo e, infelizmente, também do nosso!”2

O Evangelho revela com freqüência a dor de Jesus pela falta de compreensão daqueles a quem confiava os seus pensamentos mais íntimos: Ainda não conhecestes nem entendestes? Ainda tendes o vosso coração obcecado? Tendes olhos e não vedes? Tendes ouvidos e não ouvis?3 “Não eram cultos, nem sequer muito inteligentes, pelo menos no que se refere às realidades sobrenaturais. Até os exemplos e as comparações mais simples eram para eles incompreensíveis, e recorriam ao Mestre: Domine, edissere nobis parabolam (Mt 13, 36), Senhor, explica-nos a parábola. Quando Jesus, servindo-se de uma imagem, alude ao fermento dos fariseus, imaginam que os está recriminando por não terem comprado pão (Mt 16, 67) […].

“Estes eram os discípulos escolhidos pelo Senhor; assim os escolhe Cristo; assim se comportam antes de que, cheios do Espírito Santo, se convertam em colunas da Igreja (cfr. Gal 2, 9). São homens comuns, com defeitos, com fraquezas, com a palavra mais fácil do que as obras. E, não obstante, Jesus chama-os para fazer deles pescadores de homens (Mt 4, 19), corredentores, administradores da graça de Deus”4.

Os Apóstolos escolhidos pelo Senhor eram muito diferentes entre si; no entanto, todos manifestavam uma fé, uma mensagem… Não deve surpreender-nos que nos tenham chegado tão poucas notícias da maioria deles, pois o que lhes importava era dar um testemunho certo sobre Jesus e a doutrina que dEle tinham recebido: eram o “envelope”, cuja única missão se resumia em transmitir o papel onde estava escrita a mensagem, numa imagem utilizada algumas vezes pelo Bem-aventurado Josemaría Escrivá para falar da humildade; apenas desejavam ser instrumentos do Senhor: o importante era a mensagem, não o envelope.

Dos dois grandes Apóstolos, Simão e Judas, cuja festa celebramos hoje, chegaram-nos poucas notícias: de Simão, só sabemos ao certo que foi escolhido expressamente pelo Senhor para fazer parte dos Doze; de Judas Tadeu, sabemos além disso que era parente do Senhor e que, na Última Ceia, formulou uma pergunta a Jesus – Senhor, qual é causa por que te hás de manifestar a nós e não ao mundo?5 – e que, segundo a tradição eclesiástica, é o autor de uma das Epístolas católicas. Desconhecemos onde foram enterrados os seus corpos e não sabemos bem quais as terras que evangelizaram. Não se preocuparam em levar a cabo uma tarefa em que sobressaíssem os seus dotes pessoais, as suas conquistas apostólicas, os sofrimentos que padeceram pelo Mestre. Pelo contrário, procuraram passar ocultos e dar a conhecer Jesus Cristo. Nisso encontraram a plenitude e o sentido de suas vidas. E, apesar das suas condições humanas, insuficientes para a missão para a qual foram escolhidos, chegaram a ser a alegria de Deus no mundo.

Nós podemos aprender a encontrar a felicidade em cumprir silenciosamente a missão que o Senhor nos confiou nesta vida. “Aconselho-te a não procurar o louvor próprio, nem mesmo aquele que merecerias: é melhor passarmos ocultos, e que o mais belo e nobre da nossa atividade, da nossa vida, fique escondido… Como é grande este fazer-se pequeno! «Deo omnis gloria!» – toda a glória, para Deus”6.

Assim seremos verdadeiramente eficazes, pois “quando se trabalha única e exclusivamente para a glória de Deus, tudo se faz com naturalidade, com simplicidade, como quem tem pressa e não pode deter-se em «grandes manifestações», para não perder esse trato – irrepetível e incomparável – com o Senhor”7. “Como quem tem pressa”: assim temos que passar de um trabalho para outro, sem nos determos em considerações pessoais.

II. OS APÓSTOLOS foram testemunhas da vida e dos ensinamentos de Jesus, e transmitiram-nos com toda a fidelidade a doutrina que tinham ouvido e os acontecimentos que tinham presenciado. Não se dedicaram a difundir teorias pessoais, nem a oferecer soluções tiradas da sua própria experiência: Não foi seguindo fábulas engenhosas que vos demos a conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas depois de termos sido espectadores da sua grandeza8, escreve São Pedro. E São João diz-nos, martelando: O que foi desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam acerca do Verbo da vida […], isso é o que vos anunciamos9. E São Lucas afirma que descreverá ordenadamente todos os acontecimentos da vida de Cristo como no-los referiram os que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra10. A respeito daquela primeira comunidade cristã de Jerusalém, sabemos que perseveravam unânimes nos ensinamentos dos Apóstolos”11. O fundamento da fé cristã é o ensinamento dos Doze, não a livre interpretação de cada um nem a autoridade dos sábios.

A voz dos Apóstolos, que ressoará até o fim dos séculos, foi o eco diáfano dos ensinamentos de Jesus: os seus corações e os seus lábios transbordavam de veneração e respeito pelas palavras do Senhor e pela sua Pessoa. Era um amor que fazia Pedro e João exclamarem diante das ameaças do Sinédrio: Não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos12.

São muitos os séculos que nos separam dos Apóstolos que hoje celebramos. No entanto, a Luz e a Vida de Cristo que eles pregaram ao mundo continuam a chegar até nós. “A luz de Cristo não se extingue! Os Apóstolos transmitiram essa luz aos seus discípulos e estes aos seus, até chegar a nós através dos séculos e até o fim dos tempos. Por quantas e quão diversas mãos não passou essa luz! […]. Devemos um grande reconhecimento a todos. Também para nós – o rebanho que atualmente se aproxima dos pastos divinos –, o Senhor previu os mestres, pastores e sacerdotes. Ele realiza por meio desses pobres braços a maravilha da nossa salvação. Ele cuida de nós com amor divino. Todas as estrelas refletem o seu esplendor. Todos os mares o cantam. Todos os céus o louvam”13. Não deixemos de fazê-lo também.

III. SIMÃO E JUDAS TADEU, como os demais Apóstolos, tiveram a imensa sorte de aprender dos lábios do Mestre a doutrina que depois ensinaram. Compartilharam com Ele alegrias e tristezas. Como os invejamos! Quantas coisas não aprenderam na intimidade das suas conversas com o Mestre, para depois as transmitirem aos outros! O que vos digo ao ouvido, pregai-o sobre os telhados14. Nenhum milagre havia de passar-lhes desapercebido, nenhuma lágrima, nenhum sorriso do Senhor deixaria de ter importância. Foram as testemunhas, os transmissores. Os Doze consideravam tão essencial esta íntima união com o Senhor que, quando tiveram de completar o número do Colégio apostólico, depois da defecção de Judas, estabeleceram uma única condição indispensável: Convém, pois, que destes homens que têm estado conosco durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, desde o batismo de João até o dia em que foi arrebatado ao céu do meio de nós, um deles seja constituído testemunha conosco da sua ressurreição15.

Esses homens estiveram com Jesus nas fadigas do apostolado, nas horas de descanso, em que Ele lhes ensinava com voz pausada os mistérios do Reino, nas caminhadas esgotadoras sob o sol… Compartilharam com Ele as alegrias quando a multidão acolhia a sua pregação, e as penas quando notavam a falta de generosidade de um ou outro em seguir o Mestre. “Com que intimidade se confiavam a Ele, como um pai, como um amigo, quase como a sua própria alma! Conheciam-no pelo seu porte nobre, pelo cálido tom da sua voz, pela sua maneira de partir o pão. Sentiam-se inundados de luz e estremeciam de alegria quando os seus olhos profundos pousavam sobre eles e a sua voz lhes vibrava aos ouvidos. Coravam quando os repreendia pela sua pobreza de vistas, e, quando os corrigia, humilhavam os seus rostos curtidos pelos anos, como crianças apanhadas em falta… Sentiam-se profundamente impressionados quando lhes falava repetidamente da sua Paixão. Amavam o seu Mestre e seguiam-no não apenas porque queriam aprender a sua doutrina, mas sobretudo porque o amavam”16.

Peçamos hoje aos Apóstolos Simão e Judas que nos ajudem a conhecer e a amar cada dia mais o Mestre, o mesmo a quem um dia seguiram, e que foi o eixo em torno do qual girou toda a sua vida.

(1) Jo 2, 25; (2) O. Hophan, Los Apóstoles, pág. 16; (3) Mc 8, 17; (4) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 2; (5) Jo 14, 22; (6) Josemaría Escrivá, Forja, n. 1051; (7) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 555; (8) 2 Pe 1, 16; (9) 1 Jo 1, 1; (10) Lc 1, 3; (11) At 2, 42; (12) At 4, 20; (13) O. Hophan, op. cit., pág. 46-47; (14) Mt 10, 27; (15) At 1, 21; (16) O. Hophan, op. cit., pág. 25.