III Domingo do Tempo Comum

III Domingo do Tempo Comum

O EVANGELHO DA MISSA de hoje narra a chamada que Cristo dirigiu a quatro dos seus discípulos: Pedro, André, Tiago e João1. Os quatro eram pescadores e encontravam-se entregues ao trabalho, lançando as redes ou consertando-as, quando Jesus passou e os chamou.

Estes Apóstolos já conheciam o Senhor e tinham-se sentido profundamente atraídos pela sua pessoa e pela sua doutrina. A chamada que recebem agora é a definitiva: Vinde após mim e eu vos farei pescadores de homens.

Estes homens deixaram tudo imediatamente e seguiram o Mestre. Noutra passagem, o Evangelho relata com palavras parecidas a vocação de Mateus: relictis omnibus, deixando todas as coisas, levantando-se, o seguiu. E os demais Apóstolos, cada um nas circunstâncias peculiares em que Jesus os encontrou, devem ter feito o mesmo.

Para seguirmos o Senhor, é preciso que tenhamos a alma livre de todo o apegamento; em primeiro lugar, do amor próprio, da preocupação excessiva pela saúde, pelo futuro…, pelas riquezas e bens materiais. Porque, quando o coração se enche dos bens da terra, já não resta lugar para Deus.

A alguns, o Senhor pede uma renúncia absoluta, para dispor deles mais plenamente, tal como fez com os Apóstolos, com o jovem rico3, com tantos e tantos ao longo dos séculos, que encontraram nEle o seu tesouro e a sua riqueza. E a todo aquele que pretenda segui-lo, exige um desprendimento efetivo de si mesmo e daquilo que tem e usa.

Se esse desprendimento for real, manifestar-se-á em muitos momentos da vida diária, porque, como o mundo criado é bom, o coração tende a apegar-se de forma desordenada às criaturas e às coisas. Por isso o cristão necessita de uma vigilância contínua, de um exame frequente, para que os bens criados não o impeçam de unir-se a Deus, antes sejam um meio de amá-lo e servi-lo. “Cuidem todos, portanto, de dirigir retamente os seus afetos – adverte o Concílio Vaticano II –, para que, por causa das coisas deste mundo e do apego às riquezas, não encontrem um obstáculo que os afaste, contra o espírito de pobreza evangélica, da busca da caridade perfeita, segundo a admoestação do Apóstolo: Os que usam deste mundo não se detenham nele, porque os atrativos deste mundo passam (cfr. 1 Cor 7, 31)4.

Estas palavras de São Paulo aos cristãos de Corinto, apresentadas na segunda Leitura da Missa, são um convite para que ponhamos o nosso coração todo inteiro no eterno: em Deus.

II. O DESPRENDIMENTO CRISTÃO não é desprezo pelos bens materiais, desde que sejam adquiridos e utilizados de acordo com a vontade de Deus, mas é tornar realidade na própria vida aquele conselho do Senhor: Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e o resto vos será dado por acréscimo.

Um coração tíbio e dividido, inclinado a compaginar o amor a Deus com o amor aos bens, às comodidades e ao aburguesamento, bem cedo desalojará Cristo do seu coração e se achará prisioneiro desses bens, que para ele se converterão em males. Não devemos esquecer que todos trazemos dentro de nós, como consequência do pecado original, a tendência para uma vida mais fácil, para o supérfluo, para as ânsias de domínio, para a preocupação com o futuro.

Esta tendência da natureza humana agrava-se com a corrida desenfreada pela posse e utilização dos meios materiais, como se fossem a coisa mais importante da vida, uma corrida que vemos estender-se cada vez mais na sociedade em que vivemos. Nota-se por toda a parte uma inclinação clara não já para o legítimo conforto, mas para o luxo, para não abrir mão de nada que dê prazer. É uma pressão violenta que se observa por toda a parte e que não devemos esquecer se queremos realmente manter-nos livres desses liames para seguir o Senhor e ser exemplos vivos de temperança, no meio de uma sociedade que devemos conduzir para Deus.

A abundância e a fruição dos bens materiais nunca darão felicidade ao mundo; o coração só encontrará a plenitude para a qual foi criado no seu Deus e Senhor. Quando não se atua com a fortaleza necessária para viver interiormente desprendido, “o coração fica triste e insatisfeito; penetra por caminhos de um eterno descontentamento e acaba escravizado já aqui na terra, convertendo-se em vítima desses mesmos bens que talvez tenha conseguido à custa de esforços e renúncias sem número”.

A pobreza e o desprendimento cristãos não têm nada a ver com a sujidade e o desleixo, com o desalinho ou a falta de educação. Jesus apresentou-se sempre bem vestido. A sua túnica, certamente confeccionada pela sua Mãe, foi objeto de sorteio no Calvário porque era inconsútil, tecida de alto a baixo; era uma veste orlada. Observamos também como, na casa de Simão, o Senhor reparou que se tinham omitido com Ele as regras usuais da boa educação e fez ver ao anfitrião que não lhe tinha oferecido água para lavar os pés, nem o tinha cumprimentado com o ósculo da paz nem ungido a sua cabeça com óleo…

A pobreza do cristão que deve santificar-se no meio do mundo está ligada ao trabalho de que vive e com o qual sustenta a sua família; no estudante, a um estudo sério e ao bom aproveitamento do tempo, com a clara consciência de que contraiu uma dívida para com a sociedade e para com os seus, e de que deve preparar-se com competência para ser útil; na mãe de família, ao cuidado do lar, da roupa, dos móveis para que durem, à poupança prudente, que levará a evitar caprichos pessoais, ao exame da qualidade do que compra, o que suporá em muitos casos ir de loja em loja para comparar preços…

E, quanto aos filhos, como agradecem depois de terem sido criados com essa austeridade que entra pelos olhos e que não necessita de muitas explicações quando vêem que é vivida pelos pais! E isto ainda que se trate de uma família de posição econômica desafogada. Os pais deixam aos filhos uma grande herança quando lhes fazem ver com o seu exemplo que o trabalho é o melhor capital e o mais sólido, quando lhes mostram o valor das coisas e os ensinam a gastar tendo em conta a situação de aperto em que muitos se encontram na terra.

III. O DESPRENDIMENTO EFETIVO dos bens exige sacrifício. Um desprendimento que não custe é pouco real. O estilo de vida cristã implica uma mudança radical de atitude em face dos bens terrenos, os quais não hão de ser procurados e utilizados como se fossem um fim, mas como meio para servir a Deus, à família, à sociedade.

O fim que um cristão tem em vista não é possuir cada vez mais, mas amar mais e mais a Cristo através do seu trabalho, da sua família e também através dos bens materiais. A generosa preocupação pelas necessidades alheias que os primeiros cristãos viviam10, e que São Paulo ensinou também a viver aos fiéis das comunidades que ia fundando, será sempre um exemplo de vigência permanente; um cristão nunca poderá contemplar com indiferença as necessidades espirituais ou materiais dos outros e deve contribuir generosamente para solucionar essas necessidades. E há de ser consciente de que então não só se remedeiam as necessidades dos santos (dos outros irmãos na fé), mas também se contribui muito para a glória do Senhor.

A generosidade na esmola a pessoas necessitadas ou a obras boas sempre foi uma manifestação – embora não a única – de desprendimento real dos bens e de espírito de pobreza evangélica. Não somente esmola do supérfluo, mas aquela que se compõe principalmente de sacrifícios pessoais, de um passar necessidade em algum campo. Esta oferenda, feita com o sacrifício daquilo que talvez nos parecesse necessário, é muito grata a Deus. A esmola brota de um coração misericordioso, e “é mais útil para quem a dá do que para aquele que a recebe. Porque quem a dá tira um proveito espiritual, ao passo que quem a recebe tira somente um proveito material”.

Tal como aos Apóstolos, o Senhor convidou-nos a segui-lo – cada um nas suas condições peculiares –, e, para respondermos a essa chamada, devemos estar atentos e ver se também nós deixamos todas as coisas, ainda que tenhamos que servir-nos delas. Vejamos se somos generosos com o que temos e usamos, se estamos desapegados do tempo, da saúde, se os nossos amigos nos conhecem como pessoas que vivem sobriamente, se somos magnânimos na esmola, se evitamos gastos que no fundo são um capricho, vaidade, aburguesamento, se cuidamos daquilo que usamos: livros, instrumentos de trabalho, roupa.

Jesus passa também ao nosso lado. Não deixemos que, por causa de meia dúzia de bagatelas – São Paulo chama-as lixo –, estejamos adiando indefinidamente uma união mais profunda com Ele.

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