IV Domingo do Tempo Comum

IV Domingo do Tempo Comum

O EVANGELHO DA MISSA deste domingo1 fala-nos da cura de um endemoninhado. A vitória sobre o espírito imundo – isso é o que significa Belial ou Belzebu, nome que a Escritura dá ao demônio2 – é mais um sinal da chegada do Messias, que vem libertar os homens da sua escravidão mais perigosa: a do demônio e do pecado.

Este homem atormentado de Cafarnaum dizia aos gritos: Que há entre ti e nós, Jesus Nazareno? Vieste perder-nos? Conheço-te; és o Santo de Deus! E Jesus mandou-lhe de forma imperativa: Cala-te e sai dele. Todos ficaram estupefatos.

João Paulo II ensina que não é de excluir que em certos casos o espírito maligno chegue a exercer o seu domínio não só sobre as coisas materiais, mas também sobre o corpo do homem, motivo pelo qual se fala de “possessões diabólicas”3.

Nem sempre é fácil distinguir o que há de preternatural nesses casos, nem a Igreja é condescendente ou apóia facilmente a propensão para considerar muitos fatos como intervenções diretas do demônio; mas, em princípio, não se pode negar que, na sua ânsia de fazer mal e de induzir ao mal, Satanás chegue a essa expressão extrema da sua superioridade4.

A possessão diabólica aparece no Evangelho acompanhada normalmente de manifestações patológicas: epilepsia, mudez, surdez… Os possessos perdem freqüentemente o domínio sobre si mesmos, sobre os seus gestos e palavras; há casos em que chegam a tornar-se instrumentos do demônio. Por isso, os milagres que o Senhor realizou neste campo manifestavam o advento do Reino de Deus e a conseqüente expulsão do diabo dos domínios do Reino: Agora o príncipe deste mundo será lançado fora5. Quando os setenta e dois discípulos voltaram da sua missão apostólica, cheios de alegria pelos resultados colhidos, disseram a Jesus: Senhor, até os demônios se nos submetiam em teu nome. E o Mestre respondeu-lhes: Vi Satanás cair do céu como um raio6.

Desde a chegada de Cristo, o demônio bate em retirada, mas o seu poder é ainda muito grande e “a sua presença torna-se mais forte à medida que o homem e a sociedade se afastam de Deus”7; devido ao pecado mortal, não poucos homens ficam sujeitos à escravidão do demônio8, afastam-se do Reino de Deus para penetrarem no reino das trevas, do mal; convertem-se, em diferentes graus, em instrumento do mal no mundo e ficam submetidos à pior das escravidões.

Devemos permanecer vigilantes para saber identificar e repelir as armadilhas do tentador, que não descansa no seu propósito de fazer-nos mal, já que, a partir do pecado original, ficamos sujeitos às paixões e expostos aos assaltos da concupiscência e do demônio: fomos vendidos como escravos ao pecado9. “Toda a vida humana, individual e coletiva, se apresenta como luta – luta dramática – entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas. Mais ainda: o homem sente-se incapaz de neutralizar com eficácia os ataques do mal por si mesmo, a ponto de sentir-se preso entre grilhões”10. Por isso devemos dar todo o seu sentido à última das súplicas que Cristo nos ensinou no Pai-Nosso: livrai-nos do mal.

Além do fato histórico concreto que o trecho do Evangelho de hoje nos relata, podemos ver nesse possesso todo o pecador que quer livrar-se de Satanás e do pecado, pois Jesus não veio libertar-nos “dos povos dominadores, mas do demônio; não da prisão do corpo, mas da malícia da alma”11.

“Livrai-nos, Senhor, do Mal, do Maligno; não nos deixeis cair em tentação. Fazei, pela vossa infinita misericórdia, que não cedamos perante a infidelidade a que nos seduz aquele que foi infiel desde o começo”12.

II. A EXPERIÊNCIA DA OFENSA a Deus é uma realidade. E o cristão não demora a descobrir essa profunda marca do mal e a ver o mundo escravizado pelo pecado13.

São Paulo recorda-nos que fomos resgatados por um preço muito alto14 e exorta-nos firmemente a não voltar à escravidão. “O primeiro requisito para desterrar esse mal […] é procurar comportar-se com a disposição clara, habitual e atual, de aversão ao pecado. Energicamente, com sinceridade, devemos sentir – no coração e na cabeça – horror ao pecado grave”15.

O pecado mortal é a pior desgraça que nos pode acontecer. Quando um cristão se deixa conduzir pelo amor, tudo lhe serve para a glória de Deus e para o serviço dos seus irmãos, os homens, e as próprias realidades terrenas são santificadas: o lar, a profissão, o esporte, a política… Pelo contrário, quando se deixa seduzir pelo demônio, o seu pecado introduz no mundo um princípio de desordem radical, que o afasta do seu Criador e é a causa de todos os horrores que se aninham no seu íntimo. Nisto está a maldade do pecado: em que os homens, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, mas perverteram os seus pensamentos em vaidades, vindo a obscurecer-se o seu coração insensato […]. Trocaram a glória do Deus incorruptível pela semelhança da imagem do homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis16.

O pecado – um só pecado – exerce uma misteriosa influência, umas vezes oculta, outras visível e palpável, sobre a família, os amigos, a Igreja e a humanidade inteira. Se um ramo de videira é atacado por uma praga, toda a planta se ressente; se um ramo fica estéril, a videira já não produz o fruto que se esperava dela; além disso, outros ramos podem também secar e morrer.

Renovemos hoje o propósito firme de repelir tudo aquilo que possa ser ocasião, mesmo remota, de ofender a Deus: espetáculos, leituras inconvenientes, ambientes em que destoa a presença de um homem ou uma mulher que segue o Senhor de perto… Amemos muito o sacramento da Penitência. Meditemos com freqüência a Paixão de Cristo para entender melhor a maldade do pecado. Peçamos a Deus que seja uma realidade nas nossas vidas a sentença popular tão cheia de sentido: “Antes morrer que pecar”.

III. EMBORA NUNCA PENETREMOS suficientemente na realidade do mistério de iniqüidade que é o pecado, basta que nos apercebamos da sua profunda malícia para que nunca queiramos colocar o combate espiritual na fronteira entre o grave e o leve, pois o maior perigo está em “desprezar a luta nessas escaramuças que calam pouco a pouco na alma, até a tornarem frouxa, quebradiça e indiferente, insensível aos apelos de Deus”17.

Os pecados veniais – que não causam a morte espiritual, como o pecado mortal, mas, pelo desleixo e pela falta de contrição que implicam, são um convite aos pecados graves – produzem esse efeito funesto nas almas que não lutam por evitá-los, e constituem um excelente aliado do demônio. Sem matarem a vida da graça, debilitam-na, tornam mais difícil o exercício da virtude e mal permitem ouvir as insinuações do Espírito Santo. “Que pena me dás enquanto não sentires dor dos teus pecados veniais! – Porque, até então, não terás começado a ter verdadeira vida interior”18.

Para lutar eficazmente contra os pecados veniais, o cristão deve começar por encará-los na sua real importância: causam mediocridade espiritual e tibieza, e tornam realmente difícil o caminho da vida interior.

Os santos recomendaram sempre a confissão freqüente, sincera e contrita, como meio eficaz de combater essas faltas e pecados, e caminho seguro de progresso interior. “Deves ter sempre verdadeira dor dos pecados que confessas, por leves que sejam – aconselha São Francisco de Sales –, e fazer o firme propósito de emendar-te daí por diante. Há muitos que perdem grandes bens e muito proveito espiritual porque, ao confessarem os pecados veniais como que por costume e só por cumprir, sem pensarem em corrigir-se, permanecem toda a vida carregados deles”19.

Oxalá não endureçais os vossos corações quando ouvirdes a sua voz20, exorta-nos o Salmo responsorial da Missa. Peçamos ao Espírito Santo que nos ajude a ter um coração cada vez mais limpo e forte, capaz de cortar o menor laço que nos aprisione, e de se abrir a Deus tal como Ele espera de cada cristão.

(1) Mc 1, 21-28; (2) cfr. João Paulo II, Audiência geral, 13-VIII-1986; (3) cfr. Mc 5, 2-9; (4) cfr. João Paulo II, op. cit.; (5) Jo 12, 31; (6) Lc 10, 17-18; (7) João Paulo II, op. cit.; (8) cfr. Conc. de Trento, Sessão XIV, cap. I; (9) cfr. Rom 8, 14; (10) Conc. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 13; (11) Santo Agostinho, Sermão 48; (12) João Paulo II, op. cit.; (13) cfr. Conc. Vat. II, op. cit., 2; (14) cfr. 1 Cor 7, 23; (15) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 243; (16) Rom 1, 21-25; (17) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 77; (18) Josemaría Escrivá,Caminho, n. 330; (19) São Francisco de Sales, Introdução à vida devota, II, 19; (20) Salmo responsorial da Missa do quarto domingo do TC, ciclo B, Sl 194, 1-2.

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