Memória de São Domingos Gusmão

Memória de São Domingos Gusmão

São Domingos de Gusmão nasceu em Caleruega, por volta do ano 1170. Combateu a heresia albigense com a sua pregação e a sua vida exemplar. Fundou a Ordem dos Pregadores (dominicanos) e estendeu a devoção do Santo Rosário. Morreu em Bolonha no dia 6 de agosto de 1221.

I. NOS COMEÇOS DO SÉCULO XIII, algumas seitas vinham causando sérios estragos na Igreja, sobretudo no sul da França. Durante uma viagem realizada por essa região, acompanhando o seu bispo, São Domingos pôde comprovar pessoalmente os danos que essas novas doutrinas originavam entre o Povo de Deus, carente de formação como em tantas épocas. O Santo compreendeu então a necessidade de ensinar as verdades da fé com clareza e simplicidade, e, com grande zelo e amor pelas almas, entregou-se totalmente a essa tarefa.

Pouco tempo depois, decidiu fundar uma nova Ordem religiosa, cuja finalidade seria a difusão e a defesa da doutrina cristã em qualquer parte da cristandade. Assim surgiu a Ordem dos Pregadores, que teria como um dos seus pilares fundamentais o estudo da Verdade1. Desde então, “em qualquer atividade apostólica a serviço da Igreja, podem encontrar-se dominicanosocupados em levar a verdade às inteligências dos seus irmãos, os homens […], atuando com o carisma peculiar que é o mesmo do seu fundador: iluminar as consciências com a luz da palavra de Deus”2.

A tarefa de ensinar a todos o conteúdo da fé não foi somente uma necessidade do passado: nas atuais circunstâncias, é uma missão de toda a Igreja que se torna talvez mais urgente do que em épocas pretéritas. O Papa João Paulo II tem chamado a atenção para essa situação de ignorância generalizada das verdades mais elementares e para a proliferação de muitos erros doutrinais, cujas conseqüências não têm tardado em fazer-se notar nas almas: a falta de amor e de piedade para com a Sagrada Eucaristia; o esquecimento da Confissão, sacramento imprescindível para se obter o perdão de Deus e formar a consciência; o desconhecimento do fim transcendente para o qual fomos chamados…; o confinamento da fé no âmbito da vida privada, sem que tenha manifestações públicas; o menosprezo pelo casamento; a introdução da legislação permissiva do aborto, que representa o triunfo do princípio do bem-estar material e do egoísmo sobre o valor sagrado da vida humana; a diminuição da natalidade e a senilidade demográfica, que constituem um verdadeiro suicídio demográfico de muitos países e são um grave sintoma do empobrecimento espiritual da humanidade3.

Não é difícil perceber como muitas pessoas perderam o sentido da amizade com Deus, do pecado, da vida eterna, do significado cristão da dor… Ao mesmo tempo, pode-se verificar até que ponto o mundo se torna menos humano à medida que deixa de ser cristão. E essa onda de materialismo, de perda do sentido do sobrenatural, afeta também, e às vezes em grandes proporções, não só as pessoas que vemos todos os dias, como também essas outras que o Senhor pôs sob a nossa responsabilidade direta.

Pensemos hoje junto do Senhor se sentimos no nosso coração essa chamada do Papa para a recristianização do mundo que nos cerca, na medida das nossas forças e com o nosso modo cristão de estar na sociedade. Vejamos hoje na presença do Senhor se nos esforçamos por conhecer a fundo a doutrina de Jesus Cristo, se ajustamos a ela a nossa conduta pessoal, familiar, profissional, social, política, etc.; se nos empenhamos em difundi-la; se procuramos conservar esses sinais externos de religiosidade e sentido cristão que são a bênção dos alimentos e da casa, as imagens do Senhor e da Virgem no nosso lar, no lugar de trabalho, o escapulário da Virgem do Carmo…

II. SÃO DOMINGOS DE GUSMÃO, como tantos outros depois dele, contou com uma arma poderosa4 para vencer uma batalha que a princípio parecia perdida: “Empreendeu com ânimo forte a guerra contra os inimigos da Igreja Católica, não com a força nem com as armas, mas com a fé mais acendrada na devoção do Santo Rosário, que foi o primeiro a propagar, e que levou pessoalmente e por meio dos seus filhos aos quatro cantos do mundo”5.

“Com razão, pois, ordenou Domingos aos seus filhos que, ao pregarem a palavra de Deus ao povo, se entretivessem com freqüência e com carinho em inculcar nas almas dos ouvintes essa maneira de orar, de cuja utilidade tinha muita experiência. Sabia bem que Maria, por um lado, tem tanta autoridade diante do seu Filho divino que as graças conferidas aos homens são sempre providas por Ela como administradora e dispensadora; por outro, Ela é naturalmente tão benigna e clemente que, tendo-se acostumado a socorrer espontaneamente os necessitados, não pode de maneira nenhuma recusar ajuda aos que lha pedem. Assim, pois, a Igreja, principalmente através do Rosário, sempre encontrou nela a Mãe da graça e a Mãe da misericórdia, como costuma saudá-la; por isso os Romanos Pontífices nunca deixaram passar até hoje ocasião alguma de enaltecer com os maiores louvores o Rosário mariano e de enriquecê-lo com indulgências apostólicas”6.

Por instinto filial e por essa recomendação expressa dos Papas, os cristãos têm recorrido à recitação do terço tanto nas circunstâncias normais da sua vida como nas situações mais difíceis (calamidades públicas, guerras, heresias, problemas familiares importantes…), e como meio excelente de ação de graças. Os conselhos dos últimos Papas têm sido constantes, principalmente no que se refere ao terço em família. O Concílio Vaticano II chamava a atenção de todos os fiéis cristãos para que “dêem grande valor às práticas e aos exercícios de piedade recomendados pelo Magistério no curso dos séculos”7. E Paulo VI interpretava autenticamente estas palavras como referidas ao Santo Rosário8.

Nestes tempos em que a humanidade passa por tantas necessidades, vejamos com que amor e confiança recorremos a Nossa Senhora por meio desta devoção tão enriquecida de graças. Pensemos se, à hora de difundirmos a sã doutrina ao nosso redor, e sobretudo de procurarmos impedir que alguém das nossas relações se afaste do Senhor, sabemos procurar com fé a ajuda poderosa da nossa Mãe do Céu.

III. SE PROCURARMOS REZAR todos os dias com amor o terço, atrairemos, como São Domingos, muitas graças para nós e para as pessoas que queremos levar ao Senhor. É uma prece em que, a par das orações vocais, desfilam pela nossa mente os principais mistérios da nossa salvação: desde a Anunciação da Virgem até a Ressurreição e Ascensão do Senhor aos céus, passando pela sua Paixão e Morte.

Os cinco primeiros, que chamamos gozosos, recordam-nos a vida oculta de Jesus e de Maria e ensinam-nos a santificar as realidades da vida corrente. Os cinco seguintes, os mistérios dolorosos, permitem-nos contemplar e viver a Paixão e ensinam-nos a santificar a dor, a doença, a cruz. Nos cinco últimos, os gloriosos, contemplamos o triunfo do Senhor e de sua Mãe, e enchemo-nos de alegria e de esperança ao meditarmos na glória que o Senhor nos reservou se formos fiéis.

Na consideração destes mistérios, vamos a Jesus por Maria: alegramo-nos com Cristo que passa a habitar entre nós, feito homem como nós; doemo-nos com Cristo paciente; e, por fim, vivemos antecipadamente a sua glória. Para que esta contemplação seja possível, temos de procurar rezar de tal maneira “que se favoreça a meditação dos mistérios da vida do Senhor, através do coração dAquela que esteve perto dEle, e que se desvelem as suas insondáveis riquezas”9. Rezar assim o terço ou o rosário, “com a consideração dos mistérios, a repetição do Pai-Nosso e da Ave-Maria, os louvores à Santíssima Trindade e a constante invocação à Mãe de Deus, é um contínuo ato de fé, de esperança e de amor, de adoração e reparação”10.

Na época de São Domingos, costumava-se saudar a Virgem com o título de rosa, símbolo de alegria. Já se adornavam as suas imagens com uma coroa de rosas, e enaltecia-se Maria como jardim de rosas (rosarium em latim medieval), e daí parece proceder o nome que chegou até nós11. Não nos esqueçamos de que cada Ave-Maria é como uma rosa que oferecemos à nossa Mãe do Céu. Não deixemos que, por falta de interesse ou atenção, saia murcha dos nossos lábios. Não deixemos de empregar essa arma poderosa para enfrentar os obstáculos que encontramos. Recorramos também a Nossa Senhora, por meio desta devoção, quando sentirmos o peso das nossas fraquezas:

“«Virgem Imaculada, bem sei que sou um pobre miserável, que não faço mais do que aumentar todos os dias o número dos meus pecados…» Disseste-me o outro dia que falavas assim com a Nossa Mãe.

“E aconselhei-te, como plena segurança, que rezasses o terço: bendita monotonia de ave-marias, que purifica a monotonia dos teus pecados!”12

(1) Cfr. J. M. Macias, Santo Domingos de Guzmán, BAC, Madrid, 1979, pág. 230 e segs.; (2) ib., pág. 260; (3) cfr. João Paulo II, Alocução, 11-X-1985; (4) cfr. Josemaría Escrivá, Santo Rosário, Quadrante, São Paulo, 1976, pref.; (5) Leão XIII, Enc. Supremi apostolatus, 1-IX-1883; (6) Bento XV, Enc. Fausto appetente, 29-VI-1921; (7) Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 67; (8) cfr. Paulo VI, Enc. Christi Matri Rosarii, 15-IX-1966; Exort. Apost. Marialis cultus, 2-II-1974; (9) idem, Exort. Apost. Marialis cultus, cit. 46; (10) Josemaría Escrivá, Santo Rosário, Intr.; (11) J. Corominas-J.A. Pascual, Diccionario crítico etimológico, Gredos, Madrid, 1986, vol. V, verbete Rosa; (12) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 475.