Memória de São Nicolau

Memória de São Nicolau

Memória
– Os santos, amigos de Deus, são nossos intercessores diante dEle.

São Nicolau:
– Necessidade dos bens materiais.
– Generosidade e desprendimento dos bens. Recorrer a São Nicolau
nas necessidades econômicas.

São Nicolau de Bari nasceu em Patarra, por volta do ano 270. Foi
bispo de Mira na Lícia (atualmente Turquia), e morreu entre os anos
345 e 352 no dia 6 de dezembro. O seu culto estendeu-se pelo
Oriente e mais tarde pelo Ocidente, principalmente depois do traslado
das suas relíquias para Bari (Itália) no século XI. São numerosas as
igrejas e imagens que lhe estão dedicadas.

I. LEMOS NO ANTIGO TESTAMENTO que, quando o Senhor se
dispunha a destruir Sodoma e Gomorra para castigar os pecados
cometidos pelos habitantes dessas cidades, Abraão intercedeu diante
dEle: Se houver cinquenta justos na cidade, perecerão todos junto, e
não perdoarás aquele lugar em atenção aos cinquenta justos, se aí os
houver? […] E o Senhor disse-lhe: Se eu achar no meio da cidade de
Sodoma cinquenta justos, perdoarei toda a cidade por amor deles.
Mas Abraão insistiu, cheio de confiança: E se nela houver quarenta
justos, que farás tu?… E se ali forem achados vinte?… E se se
acharem dez? E o Senhor disse: Não a destruirei por amor dos dez1.
A resposta do Senhor é sempre misericordiosa.
Moisés também recorria à misericórdia divina invocando os que
tinham sido amigos de Deus: Lembra-te de Abraão, de Isaac e de
Israel, teus servos2. De Jeremias, já falecido, lê-se: Este é o amigo
dos seus irmãos e do povo de Israel, profeta de Deus, que ora muito
pelo povo e por toda a cidade santa3. No Evangelho, vemos como um
centurião envia a Jesus uns anciãos, amigos do Senhor, para que
intercedam por ele. E eles, tendo ido ter com Jesus, pediam-lhe
instantemente, dizendo: Ele merece que lhe faças esta graça porque é
amigo da nossa nação e até nos edificou a sinagoga4. E Jesus
atendeu ao pedido daquele centurião. O próprio São Paulo pedia aos
cristãos de Roma: Rogo-vos, pois, irmãos, por Nosso Senhor Jesus
Cristo e pelo amor do Espírito Santo, que me ajudeis com as vossas
orações…5 E São Jerônimo comenta ao falar dos irmãos já falecidos:
“Se os Apóstolos e mártires, quando ainda estavam no corpo e tinham
motivos para se preocuparem consigo próprios, oravam pelos outros,
quanto mais depois de terem recebido a coroa, a vitória e o triunfo!”6

A Igreja sempre ensinou que os santos que gozam da bem-
aventurança, bem como as benditas almas do purgatório, são nossos
grandes aliados e intercessores. Eles atendem às nossas preces e as
apresentam ao Senhor, com o aval dos méritos que adquiriram nesta
terra com a sua vida santa.

De São Nicolau, cuja festa celebramos hoje, conta-se que foi muito
generoso nesta terra com a fortuna que herdou de seus pais quando
era ainda muito novo. Por isso é considerado intercessor nas
necessidades materiais e econômicas.
O Fundador do Opus Dei tinha uma grande devoção por esse
Santo e conta que um dia, esmagado sob o peso dos problemas
econômicos, lembrou-se de invocá-lo momentos antes de começar a
celebração da Santa Missa. Fez-lhe a seguinte promessa, ainda na
sacristia: “Se me tiras deste aperto, nomeio-te Intercessor”. Mas ao
subir os degraus do altar, arrependeu-se de ter estabelecido
condições e disse-lhe: “E se não me tiras, nomeio-te na mesma”.
Resolveram-se aquelas dificuldades e ele passou a recorrer à
intercessão do Santo em muitas outras ocasiões.

Muitas pessoas ao longo dos séculos têm recorrido a São Nicolau
em face de situações econômicas difíceis na família, no trabalho, nas
obras apostólicas, que frequentemente devem ter também uma base
econômica. Não tenhamos receio de pedir ao Senhor essas ajudas
materiais que Ele mesmo nos convida a solicitar quando recitamos o
Pai-nosso: O pão nosso de cada dia nos dai hoje. E muitas vezes
podemos pedi-lo através dos santos.

II. ENQUANTO ESTIVERMOS na terra, necessitaremos de meios
materiais e humanos, tanto para sustentarmos a nossa família como
para levarmos avante as tarefas apostólicas que o Senhor quer que
promovamos ou auxiliemos de algum modo. Os bens econômicos são
isso: bens; convertem-se em males quando não servem para fazer o
bem, quando sentimos por eles um apego desordenado que nos
impede de ver os bens sobrenaturais. São Leão Magno ensina que
Deus não nos deixou apenas os bens espirituais, mas também os
corporais8, para que os orientemos para o bem humano e
sobrenatural dos outros.
O próprio Jesus ensinou aos Apóstolos a necessidade de empregar
meios humanos. Na primeira missão apostólica, indicou-lhes
expressamente: Não leveis bolsa nem alforje… Deixa-os sem apoio
material algum, para que vejam que é Ele, Jesus, quem dá a eficácia.
Compreenderam então que as curas, as conversões, os milagres não
eram devidos às suas qualidades humanas, mas ao poder de Deus.
No entanto, quando estiver prestes a partir, completará aquele primeiro ensinamento: Mas agora quem tem bolsa, tome-a, e também alforje. Ainda que os meios sobrenaturais sejam os principais em
todo o apostolado, o Senhor quer que utilizemos todos os meios
humanos ao nosso alcance, como se não existisse nenhum meio
sobrenatural; os econômicos também.
O próprio Jesus, para realizar a sua missão divina, quis servir-se
frequentemente de meios terrenos: de uns pães e peixes, de um
pouco de barro, da ajuda material de umas piedosas mulheres que o
seguiam…

Quando nos virmos sem recursos ou com recursos insuficientes na
família, nas obras apostólicas com as quais colaboramos, etc., não
duvidemos em recorrer ao Senhor. Não podemos esquecer que o seu
primeiro milagre, por intercessão de Nossa Senhora, foi realizado para
tirar uns recém-casados de uma situação constrangedora, que aliás
não era de importância vital. Ele não deixará de atender-nos. Mas não
nos devemos esquecer também de fazer tudo o que estiver ao nosso
alcance, como os servos das bodas de Caná, que encheram as
vasilhas de água até à borda.
Algumas vezes, em situações econômicas difíceis, a meditação
desse episódio evangélico pode trazer paz às nossas almas:
“Encontro-me numa situação econômica tão apertada como nunca.
Não perco a paz. Tenho absoluta certeza de que Deus, meu Pai,
resolverá todo este assunto de uma vez.

“Quero, Senhor, abandonar o cuidado de todas as minhas coisas
nas tuas mãos generosas. A nossa Mãe – a tua Mãe! –, a estas horas,
como em Caná, já fez soar aos teus ouvidos: – Não têm!… Eu creio
em Ti, espero em Ti, amo-Te, Jesus: para mim, nada; para eles”11.
III. PODE HAVER OCASIÕES na nossa vida em que o Senhor nos
anime a ser generosos, contribuindo com os nossos meios
econômicos para a sustentação da Igreja ou de instituições que
promovam obras de educação ou de assistência aos mais
desamparados. Também é possível que, além disso, assumamos a
responsabilidade de arrecadar fundos para essas obras. Muitas
páginas do Novo Testamento nos mostram o empenho com que os
discípulos de Cristo e os primeiros cristãos se esforçaram por
encontrar meios para expandir o Evangelho. Vemos, por exemplo,
como Mateus, que tinha uma boa posição econômica, é generoso com
Cristo. E aquele grupo de mulheres que segue Jesus e o assiste
com os seus bens. E esses outros discípulos – pessoas abastadas
–, como José de Arimatéia, que cede o seu sepulcro ao Mestre e
custeia o seu sudário, ou Nicodemos, que compra uma grande
quantidade de mirra e aloés para embalsamar o corpo do Senhor. E o heróico comportamento dos primeiros cristãos: Todos os que possuíam campos ou casas, vendendo-os, traziam o preço do que vendiam e depunham-no aos pés dos Apóstolos.
São Paulo organizará coletas – em Antioquia, na Galácia, na
Macedônia, na Grécia – para socorrer os fiéis de Jerusalém,
provocando a emulação de uns e outros. Quando escreve aos
cristãos de Corinto, agradece-lhes a generosidade com que levaram a
cabo a coleta, anima-os nos seus propósitos e diz-lhes: Isto é útil para
vós. E São Tomás, comentando essas palavras, ressalta o proveito
que se tira do desprendimento dos bens em favor dos outros: “O bem
da piedade é mais útil para quem o exerce do que para quem o
recebe. Porque quem o exerce tira dali um proveito espiritual, ao
passo que quem o recebe obtém apenas um bem temporal”. A
esmola que damos é um dos principais remédios para curar as feridas
da nossa alma, que são os pecados20, e nunca deixa de atrair a
misericórdia divina.
A par, portanto, da nossa generosidade pessoal, devemos fomentar
nos nossos amigos essa mesma disposição de alma, que alcançará
do Senhor tantas bênçãos para eles e para as suas famílias. “Eis uma
tarefa urgente: sacudir a consciência dos que crêem – fazer uma leva
de homens de boa vontade –, com o fim de que cooperem e
proporcionem os instrumentos materiais necessários para trabalhar
com as almas”. Para terminarmos, pode servir-nos esta frase que
nos anima ao esforço, à generosidade e ao desprendimento: “Pensai:
quanto vos custa – também economicamente – ser cristãos?”
São Nicolau será nosso aliado no Céu no esforço por sermos
generosos com Deus e com os nossos irmãos, e por procurarmos
obter esses meios econômicos necessários na terra. Recorramos a
ele. Está perto de Deus e continua a ser generoso com os que o
invocam.

(1) Cfr. Gên 18, 24-32; (2) Êx 32, 13; (3) 2 Mac 15, 14; (4) cfr. Lc 7, 1-
10; (5) Rom 15, 30; (6) São Jerônimo, Contra Vigilantium, 1, 6; (7) cfr.
A. Vázquez de Prada, O Fundador do Opus Dei, Quadrante, págs.
155, 161, 256, 270; (8) São Leão Magno, Homilias, 10, 1; (9) Lc 22,
36; (10) Jo 2, 7; (11) cfr. Josemaría Escrivá, Forja, n. 807; (12) Mt 9, 9-
10; (13) Lc 8, 3; (14) Mt 15, 46; (15) Jo 19, 39; (16) At 4, 34-35; (17) 2
Cor 8, 8; (18) 2 Cor 8, 10; (19) São Tomás, Comentário à Segunda
Carta aos Coríntios; (20) cfr. Catecismo Romano, IV, 14, 23; (21)
Josemaría Escrivá, Sulco, n. 24; (22) Josemaría Escrivá, Amigos de
Deus, n. 126.

“Falar com Deus” – festas litúrgicas e santos