Primeiro discurso como pároco da Bom Jesus do Vale

Primeiro discurso como pároco da Bom Jesus do Vale

No capítulo 18 de Gênesis, Abraão está assentado à entrada da tenda, no maior calor do dia. Ele recebe a visita de três homens e imediatamente se coloca de pé reconhecendo o Senhor – é Deus entrando no descanso de Abraão. A cena é de uma singeleza imensa e, ao mesmo tempo, exuberante. Uma das passagens marcantes deste patriarca, que não é apenas o pai espiritual de Israel, mas o pai de todos os que crêem. Os hóspedes inesperados são convidados a permanecer, Abraão se esforça na acolhida, prepara a mesa, o pão, a carne, a coalhada e o leite, e a visita acaba, entre outras coisas, na promessa de um filho para Sara.

Tenho me lembrado muito desta cena depois que vim para a Bom Jesus do Vale como Administrador de Área Pastoral. No maior calor do dia, ou seja, aqui é sempre o maior calor do dia, já está virando costume colocarmos as cadeiras do outro lado da calçada, à sombra das árvores, e conversarmos sobre tudo, desde assuntos pequenos e rápidos até decisões administrativas e pastorais. Há pessoas que pedem para se confessar ali. Parece que o Alto quer nos mostrar que aqui, com esta natureza, o sagrado não fica apenas no sacrário, mas se estende para as áreas externas, o templo está dentro e fora da sede. As pessoas falam baixo, mesmo estando lá fora.

A Bom Jesus sempre foi reconhecida pela acolhida. Embora instalada em um contêiner, nunca foi provisória, era repleta de futuro. Aqui tudo tinha pressa. Descobri o terreno e logo um grupo de empreendedores do bairro o adquiriu. Desde o princípio trabalhei com um forte e valoroso grupo de voluntários. A missão da BJV era clara: erguer uma casa para o Pai em um bairro onde não existe nenhuma igreja por perto. E enquanto crescia o número de fiéis, a igreja se dedicava a proclamar a palavra, catequizar e celebrar os sacramentos.

“Não negligencieis a hospitalidade, pois alguns, praticando-a, sem o saber acolheram anjos”, diz a Carta aos Hebreus, capítulo 13, versículo 2. Nesta nova fase, temos procurado exercer esta hospitalidade, e os anjos chegam fazendo doações significativas neste momento de reformas, organizando bazar para levantar fundos, aumentando o número de dizimistas. Hoje, ao invés de uma missa, temos cinco aos domingos, já estão em funcionamento várias pastorais, há 38 células familiares, a catequese vai dobrar o número de salas, os jovens ganharão um salão, o terço dos homens já se firmou como um encontro da devoção masculina, vai começar o Curso de Noivos e já funciona o Curso para Pais de Crismandos. Estamos nos esforçando para oferecer segurança e conforto ao número de fiéis que aumenta a cada semana.

Foram só quatro anos, e hoje a igreja Bom Jesus do Vale se transforma em paróquia. Paróquia Bom Jesus do Vale, através de decreto assinado por nosso arcebispo Dom Walmor Oliveira de Azevedo no dia 8 de dezembro, solenidade da Imaculada Conceição. Estamos com o coração em festa, é um domingo cheio de graça.

Agradeço a confiança de Dom Walmor em me nomear o primeiro pároco da Bom Jesus do Vale. Depois de 24 anos de sacerdócio, recebo a honrosa função com humildade e gratidão. É mais um chamado a caminhar na fé, e volto a me lembrar de Abraão, que pela fé saiu de sua cidade sem saber para onde iria. Pela fé também Noé levou a sério o que ainda não via e construiu a arca para enfrentar o dilúvio. Pela fé, Maria disse um sim a Deus que mudou a história da humanidade. O Bom Jesus, nosso padroeiro, haverá de nos levar além de onde nossos olhos não podem ver.

A Paróquia Bom Jesus do Vale é pequena e aconchegante. Estamos iniciando um novo caminho por este vale cercado pelo verde e o canto das cigarras. Ainda somos um barquinho de papel a navegar nas águas límpidas que correm na mata aqui atrás da sede, ainda somos uma embarcação para riacho. Com este rebanho, fé, determinação, a intercessão de Maria e as bênçãos de Deus um dia estaremos capacitados como embarcação para mar aberto. Que Deus nos abençoe.