Primeiro Domingo do Advento

Primeiro Domingo do Advento


Inicia-se o ano litúrgico, e o Intróito da Missa propõe-nos uma consideração
intimamente relacionada com o princípio da nossa vida cristã: a vocação que
recebemos. Vias tuas, Domine,demonstra mihi, et semitas tuas edoce me :
mostra-me, Senhor, os teus caminhos e indica-me as tuas veredas. Pedimos
ao Senhor que nos guie, que nos deixe ver seus passos, para que possamos
caminhar para a plenitude dos seus mandamentos, que é a caridade.

Acredito que vós e eu, ao pensarmos nas circunstâncias que acompanharam a
nossa decisão de nos esforçarmos por viver integramente a fé, daremos muitas
graças ao Senhor e teremos a convicção sincera – sem falsas humildades – de
que não houve nisso mérito algum da nossa parte. Em geral, aprendemos a
invocar Deus desde a infância, dos lábios de pais cristãos; mais adiante,
professores, companheiros e conhecidos nos ajudaram de mil maneiras a não
perder Jesus Cristo de vista.

Um dia – não quero generalizar; abre teu coração ao Senhor e conta-lhe a tua
história -, talvez um amigo, um simples cristão igual a ti, te fez descobrir um
panorama profundo e novo, e, ao mesmo tempo, antigo como o Evangelho.
Sugeriu-te a possibilidade de te empenhares seriamente em seguir Cristo, em
ser apóstolo de apóstolos. Talvez tenhas perdido então a tranqüilidade e não a
tenhas recuperado, convertida em paz, enquanto livremente, porque te
apeteceu – que é a razão mais sobrenatural -, não respondeste sim a Deus. E
veio a alegria, forte, constante, que só desaparece quando te afastas dEle.

Não me agrada falar de escolhidos nem de privilegiados. Mas é Cristo quem
fala, quem escolhe. É a linguagem da Escritura: Elegit nos in ipso ante mundi
constitutionem – diz São Paulo – ut essemus sancti. Escolheu-nos antes da
criação do mundo, para que sejamos santos. Eu sei que isto não te enche de
orgulho, nem te faz sentir-te superior aos outros homens. Essa escolha, raiz da
chamada, deve ser a base da tua humildade. Levanta-se por acaso um
monumento aos pincéis do grande pintor? Serviram para plasmar obras primas,
mas o mérito é do artista. Nós, cristãos, somos apenas instrumentos do Criador
do mundo, do Redentor de todos os homens.
Anima-me considerar um precedente narrado passo a passo nas páginas do
Evangelho: a vocação dos primeiros Doze. Vamos meditá-la devagar, pedindo
a essas santas testemunhas do Senhor que nos ensinem a seguir Cristo como
elas o fizeram.

Aqueles primeiros apóstolos – que me inspiram grande devoção e carinho –
eram bem pouca coisa, segundo os critérios humanos. Quanto à posição
social, com exceção de Mateus – que certamente ganhava bem a vida e que
deixou tudo quando Jesus lho pediu -, eram pescadores: viviam do dia a dia,
labutando até de noite para poderem conseguir o seu sustento.
Mas a posição social é o que menos importa. Não eram cultos, nem sequer
muito inteligentes, pelo menos no que se refere às realidades sobrenaturais.
Até os exemplos e as comparações mais simples eram para eles
incompreensíveis, e recorriam ao Mestre: Domine, edissere nobis parabolam ,
Senhor, explica-nos a parábola. Quando Jesus, servindo-se de uma imagem,

alude ao fermento dos fariseus, imaginam que os está recriminando por não
terem comprado pão.
Pobres, ignorantes. E nem sequer simples, abertos. Dentro das suas
limitações, eram ambiciosos. Discutem muitas vezes sobre qual deles será o
maior quando, segundo a sua mentalidade, Cristo instaurar na terra o reino
definitivo de Israel. Discutem e exaltam-se durante esse momento sublime em
que Jesus está prestes a imolar-se pela humanidade: na intimidade do
Cenáculo.

Fé, pouca. O próprio Jesus Cristo o diz. Viram-no ressuscitar mortos, curar
toda a espécie de doenças, multiplicar o pão e os peixes, acalmar
tempestades, expulsar demônios. E é São Pedro, escolhido como cabeça, o
único que sabe responder prontamente: Tu és o Cristo, o Filho de Deus
vivo. Mas é uma fé que ele interpreta à sua maneira, porque se atreve a
enfrentar Cristo Jesus, para que não se entregue em redenção pelos homens.
E Jesus tem que lhe responder: Retira-te de mim, Satanás, que me serves de
escândalo,porque não tens a sabedoria das coisas de Deus,mas das coisas
dos homens. Pedro raciocinava humanamente, comenta São João
Crisóstomo, e concluía que tudo aquilo – a Paixão e a Morte – era indigno de
Cristo, reprovável. Por isso Jesus repreende-o e diz-lhe: não,sofrer não é coisa
indigna de mim; tu pensas assim porque raciocinas com idéias
carnais, humanas.

Mas será que aqueles homens de pouca fé sobressaíam talvez pelo seu amor
a Cristo? Não há dúvida de que o amavam, pelo menos de palavra. Em certas
ocasiões, deixam-se arrebatar pelo entusiasmo: Vamos nós também e
morramos com Ele. Mas, na hora da verdade, todos fogem, exceto João, que
verdadeiramente amava com obras. Só este adolescente, o mais jovem dos
Apóstolos, permanece junto da Cruz. Os outros não sentiam esse amor tão
forte quanto a morte.
Estes eram os Discípulos escolhidos pelo Senhor; assim os escolhe Cristo;
assim se comportam antes de que, cheios do Espírito Santo, se convertam em
colunas da Igreja. São homens comuns, com defeitos, com fraquezas, com a
palavra mais fácil que as obras. E, entretanto, Jesus chama-os para fazer deles
pescadores de homens, co-redentores, administradores da graça de Deus.
Conosco aconteceu algo de semelhante. Sem grande dificuldade, poderíamos
encontrar na nossa família, entre os nossos amigos e companheiros – para não
me referir ao imenso panorama do mundo -, tantas outras pessoas mais dignas
que nós de receberem a chamada de Cristo. Mais simples, mais sábias, mais
influentes, mais importantes, mais agradecidas, mais generosas.
Eu, ao pensar nestes pontos, sinto-me envergonhado. Mas percebo também
que a nossa lógica humana não serve para explicar as realidades da graça.
Deus costuma procurar instrumentos fracos, para que se perceba claramente
que a obra é dEle. São Paulo evoca com estremecimento a sua vocação: E por
último,depois de todos, foi também visto por mim, como por um aborto. Porque
eu sou o mínimo dos Apóstolos, indigno de ser chamado Apóstolo porque
persegui a Igreja de Deus. Assim escreve Saulo de Tarso, homem de uma
personalidade e um vigor que a história nada mais fez do que agigantar.
Fomos chamados sem mérito algum da nossa parte, dizia: porque na base da
vocação encontra-se o conhecimento da nossa miséria, a consciência de que
as luzes que iluminam a alma – a fé -, o amor com que amamos – a caridade – e o desejo que nos sustém – a esperança -, são dons gratuitos de Deus. Por isso,
não crescer em humildade significa perder de vista o propósito da eleição
divina: ut essemus sancti, a santidade pessoal.

E agora, partindo dessa humildade, podemos compreender toda a maravilha da
chamada divina. A mão de Cristo colheu-nos de um trigal: o semeador aperta
em sua mão chagada o punhado de trigo. O sangue de Cristo banha a
semente, empapa-a. Depois, o Senhor lança ao ar esse trigo, para que,
morrendo, seja vida e, afundando-se na terra, seja capaz de multiplicar-se em
espigas de ouro.
A Epístola da Missa lembra-nos que temos que assumir esta responsabilidade
de apóstolos com um espírito novo, cheios de animo, despertos. Já é hora de
despertarmos do sono, pois estamos mais perto da nossa salvação do que
quando recebemos a fé. A noite avança e o dia aproxima-
se.Deixemos, pois, as obras das trevas, e revistamo-nos das armas da luz.
Dir-me-eis que não é fácil, e não vos faltará razão. Os inimigos do homem, que
são os inimigos da sua santidade, tentam impedir essa vida nova, esse
revestir-nos do espírito de Cristo. Não encontro melhor enumeração dos
obstáculos à fidelidade cristã do que a que estabelece São
João: concupiscentia carnis, concupiscentia oculorum et superbia vitae; tudo o
que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e
soberba da vida.

A concupiscência da carne não é apenas o impulso desordenado dos sentidos
em geral, nem o apetite sexual, que deve ser ordenado e em si não é mau,
porque é uma nobre realidade humana santificável. Por isso, nunca falo de
impureza, mas de pureza, já que a todos se dirigem as palavras de
Cristo: Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. Por
vocação divina, uns terão que viver essa pureza no matrimônio; outros,
renunciando aos amores humanos, para corresponderem única e
apaixonadamente ao amor de Deus. Mas nem uns nem outros escravos da
sensualidade, porém senhores do seu corpo e do seu coração, para poderem
dá-los sacrificadamente aos outros.
Ao tratar da virtude da pureza, costumo acrescentar o qualificativo de santa. A
pureza cristã, a santa pureza, não é o orgulho de nos sentirmos puros,não
contaminados. É saber que temos os pés de barro, ainda que a graça de Deus
nos livre dia a dia das ciladas do inimigo. Considero uma deformação do
cristianismo a insistência com que certas pessoas escrevem ou pregam quase
exclusivamente sobre esta matéria, esquecendo outras virtudes que são
capitais para o cristão e, em geral, para a convivência entre os homens.
A santa pureza não é a única nem a principal virtude cristã: é, entretanto,
indispensável para perseverarmos no esforço diário da nossa santificação; e
sem ela não é possível qualquer dedicação ao apostolado. A pureza é
conseqüência do amor com que entregamos ao Senhor a alma e o corpo, as
potências e os sentidos. Não é negação, é afirmação jubilosa.
Dizia que a concupiscência da carne não se reduz exclusivamente à desordem
da sensualidade: estende-se ao comodismo e à falta de vibração, que impelem
a procurar o mais fácil, o mais agradável, o caminho aparentemente mais curto,
mesmo à custa de concessões no caminho da fidelidade a Deus.
Comportar-se assim equivaleria a abandonar-se incondicionalmente ao império
de uma dessas leis, a do pecado, contra a qual nos previne São
Paulo: Encontro, pois, esta lei em mim: quando quero fazer o bem, o mal está junto de mim. Porque me deleito na lei de Deus segundo o homem interior,mas
vejo nos meus membros outra lei que se opõe à lei do meu espírito e me
subjuga à lei do pecado… Infelix ego homo!, infeliz de mim! Quem me livrará
deste corpo de morte? Ouçamos o que responde o próprio Apóstolo: a graça
de Deus, por Jesus Cristo Nosso Senhor. Podemos e devemos lutar contra a
concupiscência da carne, porque, se formos humildes, ser-nos-á concedida
sempre a graça do Senhor.
O outro inimigo, escreve São João, é a concupiscência dos olhos, uma avareza
de fundo que leva a apreciar apenas o que se pode tocar: os olhos que ficam
como que colados às coisas terrenas, mas também os olhos que, por isso
mesmo, não sabem descobrir as realidades sobrenaturais. Portanto, podemos
entender a expressão da Sagrada Escritura como uma referência à avareza
dos bens materiais e, além disso, a essa deformação que nos leva a observar o
que nos rodeia – os outros, as circunstâncias da nossa vida e do nosso tempo –
com visão exclusivamente humana.

Os olhos da alma embotam-se; a razão julga-se auto-suficiente e capaz de
entender todas as coisas prescindindo de Deus. É uma tentação sutil, que se
escuda na dignidade da inteligência; da inteligência que nosso Pai-Deus
outorgou ao homem para que o conheça e o ame livremente. Arrastada por
essa tentação, a inteligência humana considera-se o centro do universo,
entusiasma-se novamente com o sereis como deuses e, enchendo-se de amor
por si mesma, vira as costas ao amor de Deus.
Deste modo, a nossa existência pode entregar-se sem condições às mãos do
terceiro inimigo, a superbia vitae. Não se trata simplesmente de pensamentos
efêmeros de vaidade ou de amor próprio: é um endurecimento generalizado.
Não nos enganemos, porque tocamos o pior dos males, a raiz de todos os
extravios. A luta contra a soberba deve ser constante, porque, como já se disse
graficamente, essa paixão morre um dia depois de a pessoa morrer. É a altivez
do fariseu, a quem Deus reluta em justificar por encontrar nele uma barreira de
auto-suficiência. É a arrogância que leva a desprezar os demais homens, a
dominá-los, a maltratá-los: porque onde houver soberba, aí haverá também
ofensa e desonra.
Começa hoje o tempo do Advento e é bom que tenhamos considerado as
insídias destes inimigos da alma: a desordem da sensualidade e da fácil
leviandade; o desatino da razão que se opõe ao Senhor; a presunção altaneira,
que esteriliza o amor a Deus e às criaturas. Todos estes estados de ânimo são
obstáculos certos, e seu poder perturbador é grande. Por isso a liturgia nos faz
implorar a misericórdia divina: A Ti, Senhor, elevo minha alma; em Ti espero;
não seja eu confundido,nem se riam de mim os meus adversários, rezamos no
Intróito. E na antífona do Ofertório repetiremos: Espero em Ti, não seja eu
confundido!

Agora que se aproxima o tempo da salvação, é consolador ouvir dos lábios de
São Paulo: Depois que Deus Nosso Salvador manifestou sua benignidade e
amor aos homens, livrou-nos não pelas obras de justiça que tivéssemos
feito, mas por sua misericórdia.
Se percorrermos as Santas Escrituras, descobriremos constantemente a
presença da misericórdia de Deus: enche a terra, estende-se a todos os seus
filhos, super omnem carnem; rodeia-nos, antecede-nos, multiplica-se para nos
ajudar, e foi continuamente confirmada. Ao ocupar-se de nós como Pai

amoroso, Deus nos tem presentes em sua misericórdia: uma
misericórdia suave, agradável como a nuvem que se desfaz em tempo de seca.
Jesus Cristo resume e compendia toda a história da misericórdia divina: Bem-
aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. E em outra
ocasião: Sede misericordiosos, como vosso Pai celestial é misericordioso.
Ficaram também muito gravadas em nós, entre tantas outras cenas do
Evangelho, a clemência com a mulher adúltera, as parábolas do filho pródigo,
da ovelha perdida e do devedor perdoado, a ressurreição do filho da viúva de
Naim. Quantas razões de justiça para explicar este grande prodígio! Morreu o
filho único daquela pobre viúva, aquele que dava sentido à sua vida e podia
ajudá-la na sua velhice. Mas Cristo não faz o milagre por justiça; Ele o faz por
compaixão, porque se comove interiormente perante a dor humana.
Que segurança nos deve produzir a comiseração do Senhor! Clamará por mim
e eu o ouvirei, porque sou misericordioso. É um convite, uma promessa que
não deixará de cumprir. Aproximemo-nos,pois,confiadamente do trono da
graça, a fim de alcançarmos misericórdia e auxílio da graça no tempo oportuno.
Os inimigos da nossa santificação nada conseguirão, porque essa misericórdia
de Deus nos protege por antecipado; e se por nossa culpa e fraqueza caímos,
o Senhor nos socorre e nos levanta. Tinhas aprendido a evitar a negligência, a
afastar de ti a arrogância, a adquirir piedade, a não ser prisioneiro das
questões mundanas, a não preferir o caduco ao eterno. Mas,como a debilidade
humana não pode manter um passo decidido num mundo resvaladiço, o bom
Médico te indicou também remédios contra a desorientação, e o Juiz
misericordioso não te negou a esperança do perdão.

A existência do cristão desenvolve-se neste clima da misericórdia divina. Esse
é o âmbito do esforço com que procura comportar-se como filho do Pai. E quais
os principais meios para conseguirmos que a vocação se fortaleça? Hoje te
indicarei dois, que são quais eixos vivos da conduta cristã: a vida interior e a
formação doutrinal, o conhecimento profundo da nossa fé.
Vida interior, em primeiro lugar. Como são poucos ainda os que a entendem!
Ao ouvirem,falar de vida interior, pensam na escuridão do templo, quando não
no ambiente rarefeito de certas sacristias. Há mais de um quarto de século
venho dizendo que não é isso. O que descrevo é a vida interior de um simples
cristão, que habitualmente se encontra em plena rua, ao ar livre; e que na rua,
no trabalho, na família e nos momentos de lazer permanece atento a Jesus o
dia todo. E o que é isso senão vida de oração contínua? Não é verdade que
compreendeste a necessidade de ser alma de oração, com uma relação de
amizade com Deus que te leve a endeusar-te? Essa é a fé cristã e assim o
compreenderam sempre as almas de oração. Escreve Clemente de
Alexandria: Torna-se Deus o homem que quer o mesmo que Deus quer.
A princípio custa; é preciso esforçar-se por dirigir o olhar para o Senhor, por
agradecer a sua piedade paternal e concreta para conosco. Pouco a pouco, o
amor de Deus – embora não seja coisa de sentimentos – torna-se tão palpável
como uma flechada na alma. É Cristo que nos persegue amorosamente: Eis
que estou à tua porta e bato.Como vai a tua vida de oração? Não sentes às
vezes, durante o dia, desejos de conversar mais com Ele? Não lhe dizes: mais
tarde te contarei isto, mais tarde conversarei sobre isto contigo?
Nos momentos expressamente dedicados a esse colóquio com o Senhor, o
coração se expande, a vontade se fortalece, a inteligência – ajudada pela graça
– embebe em realidades sobrenaturais as realidades humanas. E, como fruto, surgem sempre propósitos claros, práticos, de melhorar a conduta, de tratar delicadamente, com caridade, todos os homens, de nos empenharmos a fundo
– com o empenho dos bons esportistas – nesta luta cristã de amor e de paz.
A oração se torna contínua, como o palpitar do coração, como o pulso. Sem
essa presença de Deus, não há vida contemplativa; e, sem vida contemplativa,
de pouco vale trabalhar por Cristo, porque, se Deus não edifica a casa, em vão
trabalham os que a constroem.

Para se santificar, o simples cristão – que não é um religioso, que não se
separa do mundo, porque o mundo é o lugar do seu encontro com Cristo – não
precisa de hábito externo nem de sinais distintivos. Seus sinais são internos: a
presença de Deus constante e o espírito de mortificação. Na realidade, uma
coisa só, porque a mortificação nada mais é que a oração dos sentidos.
A vocação cristã é vocação de sacrifício, de penitência, de expiação. Temos
que reparar por nossos pecados – quantas vezes não teremos virado a cara
para não vermos Deus! – e por todos os pecados dos homens. Temos que
seguir de perto os passos de Cristo: trazendo sempre em nosso corpo a
mortificação, a abnegação de Cristo, seu abatimento na Cruz, para que
também em nossos corpos se manifeste a vida de Jesus. O nosso caminho é
de imolação, e essa renúncia nos trará o gaudium cum pace, a alegria e a paz.
Não contemplamos o mundo com gesto triste. Têm prestado um fraco serviço à
catequese, talvez involuntariamente, esses biógrafos de santos que queriam
descobrir a todo o custo coisas extraordinárias nos servos de Deus, já desde
os primeiros vagidos. E contam de alguns deles que em sua infância não
choravam, e às sextas-feiras não mamavam, por mortificação… Vós e eu
nascemos chorando, como Deus manda; e nos prendíamos ao peito de nossa
mãe sem nos preocuparmos com Quaresmas nem com Têmporas.
Agora, com o auxílio de Deus, aprendemos a descobrir ao longo dos dias –
aparentemente sempre iguais – spatium verae poenitentiae, um tempo de
verdadeira penitência; e nesses instantes fazemos propósitos de emendatio
vitae, de melhorar a nossa vida. Este é o caminho para sabermos acolher a
graça e as inspirações do Espírito Santo na alma. E com essa graça – repito –
vem o gaudium cum pace, a alegria, a paz e a perseverança no caminho.
A mortificação é o sal da nossa vida. E a melhor mortificação é a que combate –
em pequenos detalhes, durante o dia todo – a concupiscência da carne, a
concupiscência dos olhos e a soberba da vida. Mortificações que não
mortifiquem os outros, que nos tornem mais delicados, mais compreensivos,
mais abertos a todos. Não seremos mortificados se formos suscetíveis, se
estivermos preocupados apenas com os nossos egoísmos, se esmagarmos os
outros, se não nos soubermos privar do supérfluo e, às vezes, do necessário;
se nos entristecermos quando as coisas não correm como tínhamos previsto.
Pelo contrário, seremos mortificados se nos soubermos fazer tudo para
todos, para salvar a todos.

A vida de oração e de penitência, e a consideração da nossa filiação divina,
nos transformam em cristãos profundamente piedosos, como crianças diante
de Deus. A piedade é a virtude dos filhos, e, para que o filho possa confiar-se
aos braços de seu pai, deve ser e sentir-se pequeno, necessitado. Tenho
meditado com frequência nessa vida de infância espiritual, que não se opõe à
fortaleza porque exige uma vontade enérgica, uma maturidade temperada, um
caráter firme e aberto.
Piedosos, pois, como meninos; mas não ignorantes, por que cada um deve esforçar-se, na medida de suas possibilidades, por estudar a fé com seriedade
e espírito científico; e tudo isso é teologia. Piedade de meninos, portanto, mas
doutrina segura de teólogos.
O empenho em adquirir esta ciência teológica – a boa e firme doutrina crista –
deve-se em primeiro lugar ao desejo de conhecer e amar a Deus. Ao mesmo
tempo, é consequência da preocupação geral da alma fiel por descobrir o
significado mais profundo deste mundo, que é obra do Criador. Com periódica
monotonia, há quem procure ressuscitar uma suposta incompatibilidade entre a
fé e a ciência, entre a inteligência humana e a Revelação divina. Essa
incompatibilidade apenas pode surgir, e só aparentemente, quando não se
entendem os dados reais do problema.

Se o mundo saiu das mãos de Deus, se Ele criou o homem à sua imagem e
semelhança e lhe deu uma chispa da sua luz, o trabalho da inteligência –
mesmo que seja um trabalho duro – deve desentranhar o sentido divino que já
naturalmente têm todas as coisas; e à luz da fé, percebemos também o seu
sentido sobrenatural, que procede da nossa elevação a ordem da graça. Não
podemos admitir o medo à ciência, porque qualquer trabalho, se for
verdadeiramente científico, conduz à verdade. E Cristo disse: Ego sum
veritas, Eu sou a verdade.
O cristão deve ter fome de saber. Desde o cultivo dos saberes mais abstratos
até às habilidades do artesão, tudo pode e deve levar a Deus. Porque não há
tarefa humana que não seja santificável, que não seja motivo para a nossa
própria santificação e oportunidade para colaborarmos com Deus na
santificação dos que nos rodeiam. A luz dos seguidores de Jesus Cristo não
deve permanecer no fundo do vale, mas no cume da montanha, para
que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus.
Trabalhar assim é oração. Estudar assim é oração. Investigar assim é oração.
Não saímos nunca do mesmo: tudo é oração, tudo pode e deve levar-nos a
Deus, alimentar esse convívio contínuo com Ele, da manhã até à noite. Todo o
trabalho honrado pode ser oração; e todo o trabalho que for oração, é
apostolado. Desse modo, a alma se enrijece numa unidade de vida simples e
forte.
Nada mais vos queria dizer neste primeiro Domingo do Advento, em que já
começamos a contar os dias que nos faltam para o Natal do Salvador. Vimos a
realidade da vocação cristã, como o Senhor confiou em nós para levar almas à
santidade, para aproximá-las dEle, para uni-las à Igreja e estender o reino de
Deus a todos os corações. O Senhor nos quer entregues, fiéis, delicados. Ele
nos quer santos, muito seus.
Por um lado, a soberba, a sensualidade e o tédio, o egoísmo; por outro, o
amor, a dedicação, a misericórdia, a humildade, o sacrifício, a alegria. Temos
que escolher. Fomos chamados a uma vida de fé, de esperança e de caridade.
Não podemos cruzar os braços e deixar-nos ficar num medíocre isolamento.
Certa vez, vi uma águia encerrada numa gaiola de ferro. Estava suja, meio
depenada; tinha entre as garras um pedaço de carne podre. Ocorreu-me
pensar no que seria de mim se abandonasse a vocação recebida de Deus.
Fiquei com pena daquele animal solitário, enjaulado, que tinha nascido para
voar muito alto e olhar o sol de frente. Podemos remontar até às humildes
alturas do amor de Deus, do serviço a todos os homens. Mas para isso é
preciso que não haja recantos escondidos na alma, onde não possa entrar o
sol de Jesus Cristo. Temos que jogar fora todas as preocupações que nos afastem dEle; e assim Cristo em tua inteligência, Cristo em teus lábios, Cristo
em teu coração, Cristo em tuas obras. Toda a vida, o coração e as obras, a
inteligência e as palavras, saturadas de Deus.
Olhai e levantai a cabeça, porque está próxima a vossa redenção, lemos no
Evangelho. O tempo de Advento é tempo de esperança. Todo o panorama da
nossa vocação cristã, essa unidade de vida que tem como nervo a presença de
Deus, nosso Pai, pode e deve ser uma realidade diária.
Pede-a comigo a Nossa Senhora, imaginando como Ela passaria aqueles
meses à espera do Filho que ia nascer. E Nossa Senhora, Santa Maria, fará
com que sejas alter Christus, ipse Christus, outro Cristo, o próprio Cristo!

(Homilia de São José Maria Escrivá)