São Marcos Evangelista

São Marcos Evangelista

Marcos, ainda que de nome romano, era judeu de nascimento e conhecido também pelo nome de João. É muito provável que tenha conhecido o Senhor, ainda que não tenha sido um dos doze Apóstolos. Muitos autores eclesiásticos vêem no episódio do rapaz que largou o lençol, a única roupa com que estava coberto, e fugiu na hora da prisão de Jesus no Getsêmani (Mc 14, 51-52), uma espécie de assinatura velada do próprio Marcos no seu Evangelho, pois somente ele o relata. Este dado é corroborado pelo fato de que Marcos era filho de Maria, segundo parece uma viúva de posição econômica desafogada, em cuja casa se reuniam os primeiros cristãos de Jerusalém. Uma antiga tradição afirma que foi nessa casa que Jesus celebrou a Última Ceia e instituiu a Sagrada Eucaristia.

Era primo de São Barnabé. Acompanhou São Paulo na primeira viagem apostólica e esteve ao seu lado na hora da morte. Em Roma, foi também discípulo de São Pedro e, inspirado pelo Espírito Santo, expôs fielmente no seu Evangelho os ensinamentos do Príncipe dos Apóstolos. Segundo uma antiga tradição referida por São Jerônimo, São Marcos – depois do martírio de São Pedro e de São Paulo, sob o imperador Nero – dirigiu-se para Alexandria, cuja Igreja o reconhece como seu evangelizador e primeiro bispo. De Alexandria, no ano de 825, as suas relíquias foram trasladadas para Veneza, onde é venerado como Padroeiro.

I. DESDE MUITO NOVO, São Marcos foi um daqueles primeiros cristãos de Jerusalém que viveram ao lado da Virgem e dos Apóstolos. Conheceu-os intimamente: sua mãe foi uma das primeiras mulheres que auxiliaram Jesus e os Doze, sustentando-os com os seus bens. Era, além disso, primo de Barnabé, uma das grandes figuras daquela primeira hora, que o iniciou na tarefa de propagar o Evangelho. Acompanhou Paulo e Barnabé na primeira viagem apostólica1, ainda que, ao chegarem a Chipre, talvez por não se sentir com forças para seguir adiante, os tivesse abandonado e regressado a Jerusalém2. Esta falta de constância aborreceu São Paulo, a tal ponto que, ao planejarem a segunda viagem, e tendo Barnabé querido levar novamente Marcos, encontrou a oposição de Paulo. A dificuldade foi de tal ordem que, por causa de Marcos, a expedição se dividiu. Paulo e Barnabé separaram-se e empreenderam viagens diferentes.

Dez anos mais tarde, vemo-lo em Roma, desta vez ajudando São Pedro, que o chamameu filho3 e dá assim a entender que era antiga e íntima a relação que os unia. Marcos encontra-se ao lado do Príncipe dos Apóstolos na qualidade de seu intérprete, circunstância excepcional que se refletirá no seu Evangelho escrito anos mais tarde. Ainda que não refira alguns dos grandes discursos do Mestre, deixou-nos, como que em compensação, descrições muito vivas dos episódios da vida de Jesus com os seus discípulos.

Pelos seus relatos, podemos aproximar-nos das pequenas cidades ribeirinhas do lago de Genesaré, sentir o bulício das multidões que seguem Jesus, quase conversar com alguns dos circunstantes, contemplar os gestos admiráveis do Senhor, a espontaneidade do seu relacionamento com os Doze…; numa palavra, assistir à história evangélica como se fôssemos um dos protagonistas dos diversos episódios.

Com esses relatos tão vivos, o Evangelista consegue deixar na nossa alma o atrativo – avassalador e sereno ao mesmo tempo – da figura de Jesus Cristo, um pouco daquilo que os próprios Apóstolos sentiam ao conviverem com o Mestre. E a razão está em que Marcos nos transmite o que São Pedro explicava emocionadamente aos seus ouvintes, com uma emoção que não passa com os anos, antes se torna cada vez mais profunda e consciente, mais aguda e entranhada. Pode-se afirmar que a mensagem de Marcos é o espelho vivo da pregação de São Pedro4.

Diz-nos São Jerônimo que “Marcos, discípulo e intérprete de Pedro, passou a escrito o seu Evangelho a pedido dos irmãos que viviam em Roma, conforme o que tinha ouvido pregar ao Apóstolo. E o próprio Pedro, tendo-o escutado, aprovou-o com a sua autoridade para que fosse lido na Igreja”5. Foi sem dúvida a principal missão da vida de Marcos: transmitir fielmente os ensinamentos de São Pedro. Quanto bem não fez ao longo dos séculos! Como devemos agradecer hoje o amor com que levou a cabo o seu trabalho e a correspondência fiel com que se deixou conduzir pelo Espírito Santo!

A festa que hoje celebramos é, pois, uma ocasião para examinarmos com que pontualidade, atenção e amor temos lido diariamente um trecho do Santo Evangelho, que é a Palavra de Deus dirigida expressamente a cada um de nós. Se não nos tem faltado essa atenção amorosa, esse protagonizar as cenas evangélicas ao lermos o texto sagrado, quantas vezes não nos teremos sentido no lugar do filho pródigo, ou não nos teremos servido da oração do cego Bartimeu –Domine, ut videam!; Senhor, que eu veja! – ou da do leproso – Domine, si vis, potes me mundare!; Senhor se queres, podes limpar-me…! – Quantas vezes não teremos sentido no fundo da alma que Cristo olhava para nós e nos convidava a segui-lo mais de perto, a romper com um hábito que nos afastava dEle, a viver melhor a caridade, como verdadeiros discípulos seus!

II. MARCOS PERMANECEU vários anos em Roma. Além de estar a serviço de São Pedro, vemo-lo como colaborador de São Paulo no seu ministério6. Aquele que o Apóstolo, magoado por ter sido abandonado em Chipre por ocasião da primeira viagem apostólica, impedira de acompanhá-lo na segunda, serve-lhe agora de profundo consolo7, sendo-lhe muito fiel. O incidente de Chipre, que teve tanta ressonância naqueles primeiros momentos, está já completamente esquecido. Mais ainda: Paulo e Marcos são amigos e colaboradores naquilo que é verdadeiramente importante: a difusão do reino de Cristo. Por volta do ano 66, o Apóstolo pede a Timóteo que venha ter com ele trazendo Marcos, pois este lhe será muito útil para o Evangelho8. Que exemplo para que nunca formemos juízos definitivos sobre as pessoas! Que ensinamento para sabermos, se for preciso, reconstruir uma amizade que parecia rompida para sempre!

A Igreja propõe-nos hoje a figura de Marcos como modelo. E pode ser um grande consolo e um bom motivo de esperança para muitos de nós contemplarmos a vida deste santo Evangelista, pois, apesar das nossas fraquezas, podemos, como ele, confiar na graça divina e na solicitude de que a nossa Mãe a Igreja nos rodeia. As derrotas, as covardias, pequenas ou grandes, devem servir-nos para sermos mais humildes, para nos unirmos mais a Cristo e obtermos dele a fortaleza que não temos.

As nossas imperfeições não nos devem afastar nunca de Deus e da nossa missão apostólica, mesmo que num ou noutro momento vejamos que não correspondemos totalmente às graças do Senhor, ou que fraquejamos, talvez quando os outros esperavam de nós maior firmeza… Nessa e em outras circunstâncias, se vierem a acontecer, não deveremos nunca surpreender-nos, “pois não tem nada de estranho que a enfermidade seja enferma, a debilidade débil e a miséria mesquinha. No entanto – aconselha São Francisco de Sales –, detesta com todas as tuas forças a ofensa que fizeste a Deus e, com valor e confiança na sua misericórdia, prossegue no caminho da virtude que tinhas abandonado”9.

As derrotas e as covardias têm a sua importância, e por isso recorremos ao Senhor e lhe pedimos perdão e ajuda. Mas, precisamente porque Deus confia em nós, devemos recomeçar quanto antes e dispor-nos a ser mais fiéis, porque contamos com uma nova graça. E junto do Senhor aprenderemos a tirar fruto das nossas fraquezas precisamente quando o inimigo, que nunca descansa, pretendia desalentar-nos e, com o desânimo, fazer-nos abandonar a luta. Jesus nos quer muito seus, seja qual for a história anterior das nossas debilidades.

III. IDE PELO MUNDO INTEIRO e pregai o Evangelho a toda a criatura10, lemos hoje na Antífona de entrada. É o mandato apostólico transmitido por São Marcos. E nas últimas linhas do seu relato, o Evangelista, movido pelo Espírito Santo, dá testemunho de que esse mandato de Cristo já se estava cumprindo no momento em que escrevia o seu Evangelho: os Apóstolos, partindo dali, pregaram por toda a parte, e o Senhor cooperava com eles e confirmava-lhes a pregação com os milagres que a acompanhavam11. São as palavras finais do Evangelho de Marcos.

São Marcos foi fiel ao mandato apostólico que tantas vezes teria ouvido de Pedro: Ide pelo mundo inteiro… Ele mesmo, pessoalmente e através do seu Evangelho, foi fermento eficaz no seu tempo, como nós o devemos ser. Se após a sua primeira derrota não tivesse reagido com humildade e firmeza, talvez não tivéssemos hoje o tesouro das palavras e ações de Jesus que nos transmitiu e que tantas vezes meditamos, com o acento particular que nele descobrimos.

A missão de Marcos – como a dos Apóstolos e a dos evangelizadores de todos os tempos, bem como a do cristão que é conseqüente com a sua vocação – não deve ter sido fácil, como o prova o seu martírio. Deve ter estado repleta de alegrias, mas também de incompreensões, fadigas e perigos, em seguimento das pegadas do Senhor.

Graças a Deus, e também a essa geração que viveu junto dos Apóstolos, chegaram até nós a força e a alegria superabundantes de Cristo. Mas cada geração de cristãos, cada homem, deve receber esse pregação do Evangelho e transmiti-lo por sua vez. A graça do Senhor não nos faltará nunca: Non est abbreviata manus Domini12, o poder de Deus não diminuiu. “O cristão sabe que Deus faz milagres: que o fez há séculos, que continuou a fazê-los depois e que continua a fazê-los agora”13. Nós – cada cristão –, com a ajuda do Senhor, faremos esses milagres nas almas dos nossos parentes, amigos e conhecidos, se permanecermos unidos a Cristo pela humildade fiel, pelos recomeços generosos, pelo espírito de serviço sob a ação do Espírito Santo.

(1) cfr. At 13, 5-13; (2) cfr. At 13, 13; (3) 1 Pe 5, 13; (4) cfr. Sagrada Bíblia, Santos Evangelhos, págs. 468-469; (5) São Jerônimo, De script. eccl.; (6) cfr. Fil 24; (7) Col 4, 10-11; (8) 2 Tim 4, 9; (9) São Francisco de Sales, Introdução à vida devota, 3, 9; (10) Mc 16, 15; Antífona de entrada da Missa de 25 de abril; (11) Mc 16, 20; (12) Is 59, 1; (13) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 50.