São Paulo, Apóstolo

São Paulo, Apóstolo

Que devo fazer, Senhor?1, perguntou São Paulo no momento da sua conversão. Jesus respondeu-lhe: Levanta-te e entra em Damasco, e ali te será dito tudo o que deves fazer.

O perseguidor, transformado pela graça, receberá a instrução cristã e o batismo por meio de um homem – Ananias –, de acordo com os caminhos normais da Providência. E depois, tendo Cristo por eixo da sua vida, dedicar-se-á com todas as suas forças a espalhar a Boa Nova, sem se importar com os perigos, as tribulações, os sofrimentos e os aparentes fracassos. Sabe-se instrumento escolhido para levar o Evangelho a muitas gentes: Quando aprouve Àquele que me segregou desde o ventre de minha mãe, e me chamou pela sua graça, revelar em mim o seu Filho, para anunciá-lo aos gentios…2, lemos na segunda Leitura da Missa.

Santo Agostinho afirma que o zelo apaixonado de Paulo, anterior à sua conversão, era como uma selva impenetrável, mas, apesar de constituir um grande obstáculo, era ao mesmo tempo indício da fecundidade do solo. O Senhor semeou aí a semente do Evangelho, e os frutos foram inumeráveis3. O que aconteceu com Paulo pode acontecer com cada homem, mesmo que as suas faltas tenham sido muito graves. É a ação misteriosa da graça, que não muda a natureza, mas exerce sobre ela um poder curativo e purificador, e depois a eleva e aperfeiçoa.

São Paulo estava convencido de que Deus contava com ele desde o momento em que fora concebido, desde o ventre materno, conforme insiste em diversas ocasiões. A Sagrada Escritura mostra-nos como Deus escolhe os seus enviados mesmo antes de nascerem4, pondo assim de manifesto que a iniciativa é dEle e antecede qualquer mérito pessoal. O Apóstolo diz expressamente aos primeiros cristãos de Éfeso: Escolheu-nos antes da constituição do mundo5. E concretiza ainda mais na Epístola a Timóteo: Chamou-nos com vocação santa, não em virtude das nossas obras, mas em virtude do seu desígnio6.

A vocação é um dom que Deus preparou desde toda a eternidade. Por isso, quando o Senhor se manifestou em Damasco, Paulo não pediu conselho “nem à carne nem ao sangue”, não consultou nenhum homem, porque tinha a certeza de que fora chamado pelo próprio Deus. Não atendeu aos conselhos da prudência carnal, antes foi plenamente generoso com o Senhor. A sua entrega foi imediata, total, sem condições. E o mesmo aconteceu com os demais Apóstolos, quando ouviram o convite de Jesus: deixaram as redes imediatamente7 e, relictis omnibus, abandonando todas as coisas8, seguiram o Mestre. Saulo, antigo perseguidor dos cristãos, segue agora o Senhor com toda a prontidão.

Todos nós recebemos, de diversas maneiras, uma chamada concreta para servir o Senhor. E ao longo da vida chegam-nos novos convites para segui-lo, e temos de ser generosos com Ele em cada novo encontro. Temos de saber perguntar a Jesus na intimidade da oração, como São Paulo: Que devo fazer, Senhor?, que queres que eu deixe por Ti?, em que desejas que eu melhore? Neste momento da minha vida, que posso fazer por Ti?

II. SÃO PAULO FOI CHAMADO por meio de sinais extraordinários, mas o efeito que esses sinais produziram nele foi o mesmo que ocasiona a chamada específica que Deus faz a muitos para que o sigam no meio das suas tarefas diárias. O Senhor chama todos os cristãos à santidade; e é uma vocação exigente, muitas vezes heróica, pois Ele não quer seguidores tíbios, discípulos de segunda classe. E há os que são chamados a uma particular entrega para estenderem o seu reinado entre todos os homens, sem que por isso tenham que abandonar os seus afazeres no mundo. Em qualquer caso, cada um, respondendo à vocação específica a que foi chamado, se quiser ser discípulo do Mestre, deve imprimir um sentido apostólico à sua vida: um sentido que o levará a não deixar passar nenhuma oportunidade de aproximar os outros de Cristo, que é aproximá-los da fonte da alegria, da paz e da plenitude.

Para um cristão que quer fazer da sua vida uma imitação de Cristo, o apostolado torna-se, portanto, parte da sua vida, ou melhor, a sua própria vida, como o foi para São Paulo. O trabalho converte-se em ocasião de apostolado; e o mesmo acontece com a dor ou com o tempo de descanso… Esse cristão que participa da intimidade do Senhor experimenta a necessidade de comunicar o seu achado, “a necessidade de expandir-se, de fazer, de dar, de falar, de transmitir aos outros o seu tesouro, o seu fogo […]. O apostolado converte-se na expansão contínua de uma alma, na exuberância de uma personalidade possuída por Cristo e animada pelo seu Espírito. Sente-se a urgência de correr, de trabalhar, de promover de todas as maneiras possíveis a difusão do reino de Deus, a salvação dos outros, de todos”9.Ai de mim se não evangelizar!10, exclama o Apóstolo.

Identificado com Cristo – a suprema descoberta da sua vida –, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em redenção de muitos11, o Apóstolo faz-se servo de todos para conquistar todos os que puder. Com os judeus – diz aos de Corinto –, fiz-me judeu para ganhar os judeus… Com os fracos, fiz-me fraco para ganhar os fracos; fiz-me tudo para todos para salvar a todos12.

Pedimos hoje ao Apóstolo das gentes um coração grande como o seu, para sabermos passar por cima das pequenas humilhações ou dos aparentes fracassos que acompanham necessariamente a ação apostólica. E dizemos a Jesus que estamos dispostos a conviver com todos, a oferecer a todos a possibilidade de conhecê-lo e amá-lo, sem nos importarmos com os sacrifícios nem pretendermos êxitos imediatos.

III. SÃO PAULO EXORTAVA Timóteo a falar de Deus opportune et importune13, isto é, tivesse ou não ocasião de fazê-lo; também, portanto, quando as circunstâncias fossem adversas. Pois virá um tempo em que não suportarão a sã doutrina, antes se rodearão de mestres à medida das suas próprias paixões, levados pelo prurido de ouvir14. Era como se o Apóstolo estivesse presente nos nossos dias. Mas tu – adverte a Timóteo, e nele a cada cristão – sê circunspecto em tudo, sê valente no sofrimento, esforça-te na propagação do Evangelho, cumpre perfeitamente o teu ministério15.

Os sacerdotes levarão a cabo essa missão no exercício do seu munus: com a pregação da palavra de Deus, com o seu exemplo, com a sua caridade, com os conselhos no sacramento da Penitência. Os leigos – a imensa maioria do Povo de Deus –, por meio da amizade, com o conselho amável, com a conversa a sós com aquele amigo que parece afastar-se do Senhor ou com aquele outro que nunca quis saber dEle… E tudo isso à saída do trabalho, da Faculdade, no lugar em que se passam as férias…, os pais com os filhos…, aproveitando o melhor momento ou criando a ocasião.

João Paulo II animava os jovens – e todo o cristão que tem Cristo consigo é sempre jovem – a um apostolado vivo, direto e alegre. “Sede profundamente amigos de Jesus e levai à família, à escola, ao bairro, o exemplo da vossa vida cristã, limpa e alegre. Sede sempre jovens cristãos, verdadeiras testemunhas da doutrina de Cristo. Mais ainda: sede portadores de Cristo nesta sociedade perturbada, necessitada dEle hoje mais do que nunca. Anunciai a todos com a vossa vida que somente Cristo é a verdadeira salvação da humanidade”16.

Temos de pedir hoje a São Paulo que saibamos converter em oportuna qualquer situação que se nos apresente. Quando se chega a um trato verdadeiramente amistoso com uma pessoa, é absolutamente natural que mais cedo ou mais tarde lhe falemos de Deus, em clima de confidência. Não se deve temer nesse caso a inoportunidade. E, para nossa confusão, muitas vezes a reação será exatamente a contrária daquela que temíamos: “Como é que você não me falou antes disso?” E nesse ambiente de simplicidade, surgem sempre confidências íntimas de antigas frustrações, de carências atuais, de inquietações sobre o futuro… que desembocam na necessidade de uma vida de fé.

É surpreendente, ditosamente surpreendente, o infatigável trabalho apostólico de São Paulo. E quem verdadeiramente ama a Cristo sentirá a necessidade de o dar a conhecer, pois – como diz São Tomás de Aquino – aquilo que os homens muito admiram divulgam-no logo, porque da abundância do coração fala a boca17.

Peçamos a Nossa Senhora – Regina Apostolorum – a graça de compreendermos cada vez melhor que o apostolado é uma tarefa sacrificada mas alegre, porque é alimento e ao mesmo tempo fruto da intimidade com Cristo, de um amor irreprimível que não pode deixar de comunicar-se aos outros como uma feliz notícia.

(1) At 22, 10; (2) Gal 1, 15-16; (3) cfr. Santo Agostinho, Contra Fausto, 22, 70; (4) cfr. Jer 1, 5; Is 49, 1-5 etc.; (5) Ef 1, 4; (6) 2 Tim 1, 9; (7) Mt 4, 20-22; Mc 1, 18; (8) Lc 5, 11; (9) Paulo VI, Homilia, 14-X-1968; (10) cfr. 1 Cor 9, 16; (11) Mt 20, 28; (12) cfr. 1 Cor 9, 19-22; (13) 2 Tim 4, 2; (14) 2 Tim 4, 3-4; (15) 2 Tim 4, 5; (16) João Paulo II, Homilia, 3-XII-1978; (17) cfr. São Tomás, em Catena Aurea, vol. IV, pág. 37.