Tempo da Quaresma: A Cruz de cada dia – 5º feira depois das cinzas

Tempo da Quaresma: A Cruz de cada dia – 5º feira depois das cinzas

Ontem começou a Quaresma e hoje o Evangelho da Missa nos lembra que, para seguirmos o Senhor, temos de carregar a nossa própria cruz: Também dizia a todos: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz de cada dia e siga-me1.

O Senhor dirige-se a todos e fala da cruz de cada dia. Estas palavras de Cristo conservam hoje o seu pleno valor. São palavras ditas a todos os homens que queiram segui-lo, pois não existe um cristianismo sem cruz, para cristãos fracos e moles, sem sentido do sacrifício. As palavras do Senhor expressam uma condição imprescindível: Quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo2. “Um cristianismo do qual se pretendesse arrancar a cruz da mortificação voluntária e da penitência, sob o pretexto de que essas práticas seriam hoje resíduos obscurantistas, medievalismos impróprios de uma época humanista, esse cristianismo desvirtuado, de cristianismo teria apenas o nome; não conservaria a doutrina do Evangelho nem serviria para dirigir os passos dos homens em seguimento de Cristo”3. Seria um cristianismo esvaziado de sentido, sem Redenção, sem Salvação.

Um dos sintomas mais claros de que a tibieza entrou numa alma é precisamente o abandono da cruz, da pequena mortificação, de tudo aquilo que de alguma maneira exige sacrifício e abnegação.

Por outro lado, fugir da cruz é afastar-se da santidade e da alegria, pois um dos frutos da alma mortificada é precisamente a capacidade de relacionar-se com Deus e com os outros, e também uma profunda paz, mesmo no meio da tribulação e das dificuldades externas. A pessoa que abandona a mortificação fica presa aos sentidos e torna-se incapaz de um pensamento sobrenatural.

Sem espírito de sacrifício e de mortificação, não há progresso na vida interior. São João da Cruz diz que, se são poucos os que chegam a um alto estado de união com Deus, é porque muitos não querem submeter-se “a um maior desconsolo e mortificação”4. E continua em outro lugar: “E se alguém deseja chegar a possuir Cristo, nunca o procure sem a cruz”5.

Não esqueçamos, portanto, que a mortificação abre as portas ao relacionamento com Cristo, ao trato íntimo com Ele, e que, quando o coração se purifica, torna-se mais humilde e, por conseguinte, mais alegre. “Este é o grande paradoxo que acompanha a mortificação cristã. Aparentemente, o fato de os cristãos aceitarem e até procurarem o sofrimento deveria torná-los, na prática, as criaturas mais tristes do mundo, os homens mais infelizes. A realidade é bem diferente. A mortificação só produz tristeza onde sobra egoísmo e faltam generosidade e amor de Deus. O sacrifício sempre traz consigo a alegria no meio da dor, a felicidade de cumprir a vontade de Deus, de amá-lo com esforço. Os bons cristãos vivem quasi tristes, semper autem gaudentes (1 Cor 8, 10), como se estivessem tristes, mas na realidade sempre alegres”6.

II. “A CRUZ, CADA DIA. Nulla dies sine cruce!, nenhum dia sem cruz: nenhum dia em que não carreguemos a cruz do Senhor, em que não aceitemos o seu jugo […]. O caminho da nossa santificação pessoal passa diariamente pela Cruz; e não é um caminho infeliz, porque o próprio Cristo vem em nossa ajuda, e com Ele não há lugar para a tristeza. In laetitia, nulla dies sine cruce!, gosto de repetir; com a alma trespassada de alegria, nenhum dia sem Cruz”7.

A cruz do Senhor, que temos que carregar todos os dias, não é, certamente, a que produzem os nossos egoísmos, invejas, preguiças, etc; não são os conflitos causados pelo “homem velho” e pelo nosso amor desordenado. Isso não é do Senhor e, portanto, não santifica.

De vez em quando, encontraremos a cruz numa grande dificuldade, numa doença grave e dolorosa, num desastre econômico, na morte de um ser querido, no ataque injusto à nossa honra: “Não esqueçamos que estar com Jesus é, certamente, topar com a sua Cruz. Quando nos abandonamos nas mãos de Deus, é freqüente que Ele nos permita saborear a dor, a solidão, as contrariedades, as calúnias, as difamações, os escárnios, por dentro e por fora: porque quer moldar-nos à sua imagem e semelhança, e tolera também que nos chamem loucos e que nos tomem por néscios. É a altura de amar a mortificação passiva, que vem – oculta ou descarada e insolente – quando não a esperamos”8. O Senhor nos dará então as forças necessárias para levarmos com garbo essa cruz, e nos cumulará de graça e de frutos inimagináveis. Compreenderemos que Deus abençoa de muitas formas e, freqüentemente, aos que queremos ser seus amigos, fazendo-nos participar da sua Cruz e tornando-nos corredentores com Ele.

Não obstante, normalmente encontraremos a cruz de cada dia nas pequenas contrariedades que surgem no decorrer do trabalho e na convivência. Devemos recebê-las com espírito aberto, oferecendo-as ao Senhor com desejos de reparação, sem nos queixarmos, pois a queixa mostra freqüentemente que rejeitamos a Cruz. Estas mortificações, que chegam quando não as esperamos, podem ajudar-nos, se as recebemos bem, a crescer no espírito de penitência de que tanto necessitamos, bem como na virtude da paciência, na caridade, na compreensão: quer dizer, na santidade. E se as recebemos mal, podem ser ocasião de rebeldia, de impaciência ou de desalento.

Muitos cristãos perdem a alegria no fim do dia, não por terem deparado com grandes contrariedades, mas por não terem sabido santificar o cansaço inerente ao trabalho, nem as pequenas dificuldades que foram surgindo ao longo da jornada. A cruz – pequena ou grande –, quando é acolhida de bom grado, produz paz e alegria no meio da dor e está repleta de méritos para a vida eterna. “Carregar a cruz é coisa grande, grande… Significa enfrentar a vida com coragem, sem molícies nem vilezas; significa transformar em energia moral as dificuldades que nunca faltarão na nossa existência; significa compreender a dor humana, e, por último, saber amar verdadeiramente”9. O cristão que caminha pela vida fugindo sistematicamente do sacrifício não encontrará a Deus, não encontrará a santidade. Fugirá, em última análise, da felicidade a que Deus o chamou.

III. SE ALGUÉM QUISER vir após mim, negue-se a si mesmo… Além de aceitarmos a cruz – grande ou pequena – que vem ao nosso encontro, muitas vezes inesperadamente, devemos procurar outros pequenos sacrifícios para mantermos vivo o espírito de penitência que o Senhor nos pede. Para progredir na vida interior, é muito útil determinar várias pequenas ocasiões de sacrifício, previstas de antemão, para vivê-las todos os dias.

Estas mortificações habituais, procuradas por amor de Deus, serão valiosíssimas para vencermos a preguiça, o egoísmo que aflora a cada instante, o orgulho, etc. Umas hão de facilitar-nos o trabalho, ajudando-nos a ter em conta os detalhes, a pontualidade, a ordem, a intensidade e o cuidado com os instrumentos que utilizamos; outras levar-nos-ão a viver melhor a caridade, sobretudo com as pessoas com quem convivemos e trabalhamos: saberemos sorrir ainda que nos custe, teremos detalhes de apreço com os que nos rodeiam, facilitar-lhes-emos o cumprimento das suas tarefas, procuraremos atendê-los amavelmente, servi-los nas pequenas coisas do dia-a-dia, e jamais derramaremos sobre eles, se o temos, o nosso mau humor; outras terão em vista vencer o comodismo, guardar os sentidos internos e externos, dominar a curiosidade; serão mortificações concretas na comida, na apresentação pessoal, etc. Não é necessário que sejam coisas muito grandes; o que importa é que se adquira o hábito de praticá-las com constância e por amor de Deus.

Como a tendência geral da natureza humana é a de fugir do que exige esforço, devemos concretizar muito bem esses pequenos atos de sacrifício, para não ficarmos só nos bons desejos. E pode até ser muito útil anotá-los, para verificá-los no exame de consciência antes de nos deitarmos ou em outros momentos do dia, e não deixar que caiam no esquecimento.

Digamos a Jesus, ao acabarmos este diálogo com Ele, que estamos dispostos a segui-lo carregando a Cruz, hoje e todos os dias.

(1) Lc 9, 23; (2) Lc 14, 27; (3) J. Orlandis, As oito Bem-aventuranças, Prumo, Lisboa, 1988, pág. 72; (4) São João da Cruz, Chama de amor viva, II, 7; (5) idem,Carta ao pe. Juan de Santa Ana, 23; (6) R. M. de Balbín, Sacrificio y alegria, 2ª ed., Rialp, Madrid, 1975, pág. 23; (7) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 176; (8) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, 2ª ed., Quadrante, São Paulo, 1978, n. 301; (9) Paulo VI, Alocução, 24-III-1967.