Todos somos o filho pródigo | 2ª semana da Quaresma – Sábado

Todos somos o filho pródigo | 2ª semana da Quaresma – Sábado

O Senhor é clemente e compassivo, longânime e cheio de bondade; o Senhor é bom para com todos, e a sua misericórdia se estende a todas as suas obras1, rezamos na antífona de entrada da Missa. No Evangelho, narra São Lucas2 que, certo dia, tendo-se aproximado de Jesus muitos publicanos e pecadores, os fariseus começaram a murmurar porque Ele acolhia a todos. Então o Senhor lhes propôs esta parabóla: Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse a seu pai: Pai, dá-me a parte da herança que me cabe.

Todos somos filhos de Deus e, sendo filhos, somos também herdeiros3. A herança que nos cabe é um conjunto de bens incalculáveis e de felicidade sem limites, que só no Céu alcançará a sua plenitude e a sua segurança completa. Até esse momento, temos a possibilidade de fazer com essa herança o mesmo que o filho menor da parábola: Poucos dias depois, ajuntando tudo o que lhe pertencia, o filho mais novo partiu para um país muito distante e lá dissipou a sua fortuna vivendo dissolutamente. “Quantos homens ao longo dos séculos e quantos do nosso tempo podem encontrar nesta parábola as características principais da sua própria história pessoal!”4 Temos a possibilidade de abandonar a casa paterna e gastar os bens que recebemos de um modo indigno da nossa condição de filhos de Deus.

Quando o homem peca gravemente, perde-se para Deus, e também para si mesmo, pois o pecado tira-o do caminho que o conduz ao Céu; é a maior tragédia que pode acontecer a um cristão. A sua vida honrada, as esperanças que Deus tinha posto nele, a sua vocação para a santidade, o seu passado e o seu futuro desabam. Afasta-se radicalmente do princípio da vida, que é Deus, pela perda da graça santificante. Perde os méritos adquiridos ao longo de toda a vida e torna-se incapaz de adquirir outros, ficando sujeito de algum modo à escravidão do demônio. E quando peca venialmente, lembra-nos João Paulo II que, ainda que não lhe sobrevenha a morte da alma, esse homem detém-se e distancia-se do caminho que o leva ao conhecimento e amor de Deus, razão pela qual as faltas veniais não devem ser consideradas como coisa secundária nem como pecado de pouca importância5.

“O afastamento do Pai traz sempre consigo uma grande destruição em quem o leva a cabo, em quem quebranta a vontade divina e dissipa em si mesmo a herança: a dignidade da própria pessoa humana, a herança da graça”6. Aquele que um dia, ao sair de casa, pensou que encontraria a felicidade fora dos limites da sua propriedade, em breve começou a passar necessidade. A satisfação acaba rapidamente e o pecado não produz verdadeira felicidade, uma vez que o demônio não a possui. Vêm logo a solidão e “o drama da dignidade perdida, a consciência da filiação divina posta a perder”7: o filho da parábola teve que começar a cuidar de porcos, o ofício mais infamante que havia para um judeu. Ó céus, pasmai, tremei de espanto e horror, diz o Senhor. Porque o meu povo cometeu uma dupla perversidade: abandonou-me a mim, fonte de água viva, e cavou para si cisternas gretadas que não retêm a água8. Longe de Deus, é impossível a felicidade, mesmo que por algum tempo possa parecer o contrário.

II. LONGE DA CASA PATERNA, o filho sente fome. Então, caindo em si, decidiu iniciar o caminho de volta. Assim começa também toda a conversão, todo o arrependimento do homem: caindo em si, fazendo uma pausa, considerando aonde o levou a sua infeliz aventura; fazendo, em resumo, um exame de consciência, que vai desde o momento em que abandonou a casa paterna até a lamentável situação em que se encontra. “Não são suficientes […] as análises sociológicas para conseguir a justiça e a paz. A raiz do mal está no interior do homem. Por isso, o remédio também brota do coração”9.

Quando se justifica ou se ignora o pecado, tornam-se impossíveis o arrependimento e a conversão, que têm a sua origem no interior, no que há de mais profundo no ser humano. É necessário, pois, que nos coloquemos diante das nossas ações com valentia e sinceridade, sem tentar falsas justificações: “Aprendei a chamar branco ao branco e negro ao negro; mal ao mal e bem ao bem. Aprendei a chamar pecado ao pecado”10, pede-nos o Papa João Paulo II.

No exame de consciência, confrontamos a nossa vida com o que Deus esperava – e espera – dela. Muitos autores espirituais comparam a alma a um quarto fechado. Quando se abrem as janelas e se deixa entrar a luz, distinguem-se todas as imperfeições, a sujeira, tudo o que de feio e quebrado está ali acumulado. Mediante o exame de consciência, com a ajuda da luz da graça, conhecemo-nos como na realidade somos, quer dizer, como somos diante de Deus. Os santos sempre se reconheceram pecadores porque, pela sua correspondência à graça, abriram de par em par as janelas à luz de Deus, e puderam conhecer bem todo o local, a sua alma.

Mediante o exame, descobrimos também as omissões no cumprimento do nosso compromisso de amor para com Deus e para com os homens, e nos perguntamos: a que se devem tantos descuidos? Quando não encontramos nada de que arrepender-nos, não costuma ser por não termos faltas e pecados, mas por rejeitarmos essa luz de Deus que nos indica a todo o momento a verdadeira situação da nossa alma. Se fechamos a janela, o quarto fica às escuras e deixamos de ver o pó, a cadeira mal colocada, o quadro torto e outras imperfeições e descuidos…, talvez graves.

Não esqueçamos, por último, que a soberba também tentará impedir que nos vejamos tal como somos:Taparam os ouvidos e fecharam os olhos para não ver11. Os fariseus, a quem Jesus aplica estas palavras, tornaram-se voluntariamente surdos e cegos, porque no fundo não estavam dispostos a mudar.

III. LEVANTOU-SE, pois, e foi ter com seu pai.

Desfazer o que se fez. Voltar. O homem continua saudoso do calor do seu lar, do semblante de seu pai, do carinho que o rodeava. A dor torna-se mais nobre, e mais sincera a frase que preparou: Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como a um dos teus jornaleiros.

Todos nós, chamados à santidade, somos também o filho pródigo. “De certo modo, a vida humana é um constante retorno à casa do nosso Pai. Retorno mediante a contrição, mediante a conversão do coração, que se traduz no desejo de mudar, na decisão firme de melhorar de vida, e que, portanto, se manifesta em obras de sacrifício e de doação. Retorno à casa do Pai por meio desse sacramento do perdão em que, ao confessarmos os nossos pecados, nos revestimos de Cristo e nos tornamos assim seus irmãos, membros da família de Deus”12.

Aproximamo-nos deste sacramento com o desejo de confessar a nossa falta, sem desfigurá-la, sem justificações: Pequei contra o céu e contra ti. Com humildade e simplicidade, sem circunlóquios. É pela sinceridade que se manifesta o arrependimento das faltas cometidas.

O filho chega faminto, sujo e esfarrapado. Estava ainda longe, quando seu pai o viu e, movido de compaixão, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos.

Correu-lhe ao encontro… Enquanto o arrependimento costuma formar-se lentamente, a misericórdia do nosso Pai-Deus corre para nós logo que percebe de longe o nosso menor desejo de voltar. Por isso a Confissão está impregnada de alegria e de esperança. “É a alegria do perdão de Deus, mediante os seus sacerdotes, quando por desgraça ofendemos o seu infinito amor e, arrependidos, voltamos para os seus braços de Pai”13.

As palavras de Deus, que recuperou o seu filho perdido e aviltado, também transbordam de alegria. Trazei-me depressa a túnica mais rica e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei também um novilho gordo e matai-o; comamos e façamos uma festa, pois este meu filho estava morto e reviveu; tinha-se perdido e foi achado. E puseram-se a celebrar a festa.

A túnica mais rica converte-o em hóspede de honra; o anel devolve-lhe o poder de selar, isto é, a autoridade, todos os direitos; e as sandálias declaram-no homem livre. “É no Sacramento da Penitência que tu e eu nos revestimos de Jesus Cristo e dos seus merecimentos”14.

Na Confissão, o Senhor devolve-nos o que tínhamos perdido por culpa própria: a graça e a dignidade de filhos de Deus. Ele estabeleceu este sacramento da sua misericórdia para que pudéssemos voltar sempre ao lar paterno. E o retorno acaba sempre numa festa cheia de alegria. Digo-vos que haverá júbilo entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrependa15.

Depois de receber a absolvição e cumprir a penitência imposta pelo confessor, “o penitente, esquecendo-se do que fica para trás16, integra-se novamente no mistério da salvação e encaminha-se para os bens futuros”17.

(1) Sl 144, 8-9;Antífona de entrada da Missa do sábado da segunda semana da Quaresma; (2) Lc 15, 1-3; 11-32; (3) Rom 8, 17; (4) João Paulo II, Homilia, 16-III-1980; (5) cfr. João Paulo II, Exort. Apost. Reconciliatio et paenitentia, 17; (6) Conc. Vat. II, op. cit.; (7) João Paulo II, Enc.Dives in misericordia, 5; (8) Jer 2, 12-13; (9) João Paulo II, Disc. a UNIV em Roma, 11-IV-1979; (10) João Paulo II, Hom. para universitários em Roma, 26-III-1981; (11) Mt 13, 15; (12) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 64; (13) João Paulo II, Alocução a peregrinos napolitanos, Roma, 24-III-1979; (14) Josemaría Escrivá, Caminho, n. 310; (15) Lc 15, 10; (16) Fil 3, 13; (17) Ritual da Penitência.