V Domingo da Páscoa

V Domingo da Páscoa

A PALAVRA DO SENHOR é reta e todas as suas obras são leais. Ele ama a justiça e o direito; a terra está cheia da bondade do Senhor1.

A justiça é a virtude cardeal que permite uma convivência reta e límpida entre os homens. Sem esta virtude, a convivência torna-se impossível; a sociedade, a família, a empresa deixam de ser humanas e convertem-se em lugares onde o homem atropela o homem. A justiça regula a convivência da sociedade humana enquanto humana, quer dizer, enquanto baseada no respeito aos direitos pessoais; é “princípio da existência e da coexistência dos homens, como também das comunidades humanas, das sociedades e dos povos”2.

Num dos seus aspectos, esta virtude diz respeito às relações com os vizinhos, com os colegas, com os amigos e, em geral, com todas as pessoas: regula as relações dos homens entre si, dando a cada um o que lhe é devido. Sob outro aspecto, refere-se aos deveres da sociedade para com cada indivíduo, naquilo que este deve receber dela. Por último, regula aquilo que cada indivíduo concreto deve à comunidade a que pertence, ao todo de que faz parte.

Numa sociedade, a justiça procede daqueles que a compõem. São as pessoas que projetam na sociedade a sua justiça ou a sua injustiça, sobretudo quando nela detêm maior responsabilidade. E isto é válido na família, na empresa, na nação ou no conjunto de nações que compõem o mundo. Se verdadeiramente queremos que a justiça impere numa sociedade – quer se trate de uma aldeia ou de uma nação –, tornemos justos os homens que a compõem; que cada um de nós comece por ser justo nesse tríplice plano: com aqueles com quem nos relacionamos todos os dias, com aqueles que dependem de nós e, por último, com a sociedade de que fazemos parte, dando-lhe o que devemos. A primeira obrigação moral da justiça é, pois, que sejamos justos em todos os aspectos da nossa vida.

A luta por uma maior justiça na sociedade é fruto assim de uma série de decisões pessoais, que vão modelando a alma da pessoa que pratica essa virtude. Com atos concretos de justiça, o homem passa a reger-se com uma facilidade cada vez maior por “uma vontade constante e inalterável de dar a cada um o que é seu”3, pois é nisso que consiste a essência desta virtude.

II. “DEUS CHAMA-NOS através das vicissitudes da vida diária, no sofrimento e na alegria das pessoas com quem convivemos, nas aspirações humanas dos nossos companheiros, nos pequenos acontecimentos da vida familiar. Chama-nos também através dos grandes problemas, conflitos e tarefas que definem cada época histórica e que atraem o esforço e os ideais de grande parte da humanidade”4.

A fé leva-nos a estar presentes, a intervir muito diretamente em todos os anseios nobres, quer se apresentem “nos pequenos acontecimentos da vida familiar” ou “nos conflitos e tarefas que definem cada época histórica”, a fim de que nos santifiquemos e santifiquemos essas realidades – tornando-as mais humanas, mais justas –, e as levemos a Deus. “Compreende-se muito bem a impaciência, a angústia e os anseios inquietos daqueles que, com alma naturalmente cristã (cfr. Tertuliano, Apologeticum, 17), não se resignam perante as situações de injustiça pessoal e social que o coração humano é capaz de criar. Tantos séculos de convivência entre os homens, e ainda tanto ódio, tanta destruição, tanto fanatismo acumulado em olhos que não querem ver e em corações que não querem amar”5.

A fé pede-nos que nos apressemos, porque é grande a necessidade de justiça que existe no mundo. “Os bens da terra, repartidos entre poucos; os bens da cultura, encerrados em cenáculos. E, lá fora, fome de pão e de sabedoria; vidas humanas – que são santas, porque vêm de Deus – tratadas como simples coisas, como números de uma estatística. Compreendo e partilho dessa impaciência, levantando os olhos para Cristo, que continua a convidar-nos a pôr em prática o mandamento novo do amor”6.

Justo, no sentido pleno da palavra, é aquele que vai semeando à sua passagem amor e alegria, e que não transige com a injustiça onde quer que a encontre, geralmente no âmbito em que a sua vida se desenvolve: na família, na sua empresa, na cidade em que mora… Se nos examinarmos seriamente, é possível que descubramos na nossa vida injustiças que teremos de remediar: juízos precipitados contra pessoas e instituições, pouco rendimento no trabalho, injustiça no modo de tratar ou de remunerar os outros…

III. A GRANDE FORÇA que move o homem justo é o seu amor a Cristo; quanto mais fiéis formos ao Senhor, mais justos seremos, mais comprometidos estaremos com a verdadeira justiça. Um cristão sabe que o próximo é Cristo presente nos outros, de modo especial nos mais necessitados. “Somente a partir da fé é que se compreende o que realmente está em jogo com a justiça ou a injustiça dos nossos atos: se acolhemos ou rejeitamos Jesus Cristo”7. É uma verdade que somente os cristãos, mediante a fé, podem ver: Cristo nos espera nos nossos irmãos. Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede… Omissões: Todas as vezes que o deixastes de fazer a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer8.

“Temos que reconhecer Cristo que nos sai ao encontro nos nossos irmãos, os homens”9. Bastaria examinarmos o nosso espírito de atenção, de respeito, de amor à justiça, enriquecido pela caridade, para saber qual o grau de fidelidade com que seguimos o Senhor. E, vice-versa, se o nosso relacionamento com Cristo e o amor por Ele forem profundos e verdadeiros, esse relacionamento e esse amor transbordarão de modo irreprimível em direção aos outros.

“São grandes as exigências espirituais e materiais do serviço cristão: estendem-se à vontade, ao sentimento, aos atos. Em face delas, com a ajuda da graça divina, o cristão não se acovarda nem se atordoa entregando-se a um nervoso frenesi de “gestos” surpreendentes. Mas também não fica “tranqüilo”: Caritas enim Christi urget nos: insta-nos o amor de Cristo (2 Cor 5, 14)”10, que nos leva a ultrapassar a mera justiça, depois, evidentemente, de termos satisfeito os seus ditames. “Para que o exercício da caridade esteja acima de qualquer crítica e se apresente como tal – ensina o Concílio Vaticano II –, é necessário […] que se satisfaçam em primeiro lugar as exigências da justiça, para que não se dê como caridade aquilo que já é devido a título de justiça”11.

A prática da justiça leva-nos a um constante encontro com Cristo. Em última análise, “praticar a justiça com um homem é reconhecer a presença de Deus nele”12. É por isso também que não pode haver no cristão verdadeira justiça se não estiver impregnada de caridade13; de outro modo, não faríamos mais do que amesquinhá-la. Cristo, nas nossas relações com o próximo, quer muito mais de nós. Temos que pedir-lhe “que nos conceda um coração bom, capaz de se compadecer das penas das criaturas, capaz de compreender que, para remediar os tormentos que acompanham e não poucas vezes angustiam as almas neste mundo, o verdadeiro bálsamo é o amor, a caridade”14.

(1) Sl 33, 4-5; Salmo responsorial da Missa do quinto domingo do Tempo Pascal; (2) João Paulo II, Audiência geral, 8-XI-1978; (3) São Tomás, Suma Teológica, 2-2, q. 58, a. 1; (4) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 110; (5) ib., n. 111; (6) ib.; (7) P. Rodriguez, Fe y vida de fe, EUNSA, Pamplona, 1974, pág. 215; (8) cfr. Mt 25, 45; (9) Josemaría Escrivá, op. cit., n. 111; (10) F. Ocáriz, Amor a Dios, amor a los hombres, 3ª ed., Palabra, Madrid, 1973, pág. 109; (11) Conc. Vat. II, Decr. Apostolicam actuositatem, 8; (12) P. Rodriguez, op. cit., pág. 217; (13) cfr. São Tomás, Suma Teológica, 2-2, q. 4, a. 7; (14) Josemaría Escrivá, op. cit., n. 167.