V Domingo do tempo comum

V Domingo do tempo comum

JESUS LEVANTOU-SE DE MADRUGADA, como em muitas outras ocasiões, e retirou-se para um lugar fora da cidade a fim de orar. Os Apóstolos encontraram-no ali e disseram-lhe: Todos andam à tua procura. E o Senhor respondeu-lhes: Vamos a outra parte, às aldeias próximas, para ali pregar, pois para isso vim1.

A missão de Cristo é evangelizar, levar a Boa Nova até o último recanto da terra, através dos Apóstolos2 e dos cristãos de todos os tempos. Esta é a missão da Igreja, que assim cumpre o que o Senhor lhe preceituou: Ide e pregai a todos os povos…, ensinando-os a observar tudo quanto vos mandei3. Os Atos dos Apóstolos narram muitos pormenores daquela primeira evangelização; no próprio dia de Pentecostes, São Pedro prega a divindade de Jesus Cristo, a sua Morte redentora e a sua Ressurreição gloriosa4. São Paulo, citando o profeta Isaías, exclama com entusiasmo: Como são formosos os pés dos que anunciam a Boa Nova!5 E a segunda Leitura da Missa fala-nos da responsabilidade deste anúncio alegre da verdade salvadora: Porque evangelizar não é glória para mim, mas necessidade. Ai de mim se não evangelizar!6

Com essas mesmas palavras de São Paulo, a Igreja tem recordado com freqüência aos fiéis a chamada que o Senhor lhes dirige para levarem a doutrina de Cristo a todos os cantos do mundo, aproveitando qualquer ocasião7.

São João Crisóstomo vai ao encontro das possíveis desculpas perante esta gratíssima obrigação: “Não há nada mais frio do que um cristão que não se preocupa pela salvação dos outros […]. Não digas: não posso ajudá-los, porque, se és cristão de verdade, é impossível que não o possas fazer. Não há maneira de negar as propriedades das coisas naturais; o mesmo acontece com isto que agora afirmamos, pois está na natureza do cristão agir dessa forma […]. É mais fácil o sol deixar de iluminar ou de aquecer do que um cristão deixar de dar luz; mais fácil do que isso seria que a luz fosse trevas. Não digas que é impossível; impossível é o contrário […]. Se orientarmos bem a nossa conduta, o resto sairá como conseqüência natural. Não se pode ocultar a luz dos cristãos, não se pode ocultar uma lâmpada que brilha tanto”8.

Perguntemo-nos se no nosso ambiente, no lugar onde vivemos e onde trabalhamos, somos verdadeiros transmissores da fé, se levamos os nossos amigos a uma maior freqüência de sacramentos. Examinemos se encaramos a ação apostólica como algourgente, como exigência da nossa vocação, se sentimos a mesma responsabilidade daqueles primeiros, pois a necessidade hoje não é menor… Ai de mim se não evangelizar!

II. A DEDICAÇÃO À TAREFA apostólica nasce da convicção de se possuir a Verdade e o Amor, a verdade salvadora e o único amor que preenche as ânsias do coração.

Quando se perde essa certeza, não se encontra sentido na difusão da fé. Chega-se a pensar, por exemplo, mesmo em ambientes cristãos, que não se pode fazer nada para que os não-cristãos apóiem uma lei reta, de acordo com o querer divino. Deixa também de ter sentido levar a doutrina de Cristo a regiões onde ela ainda não chegou ou onde a fé não está profundamente arraigada; quando muito, a missão apostólica converte-se numa mera ação social em favor da promoção desses povos, esquecendo o maior tesouro que se lhes pode dar: a fé em Jesus Cristo, a vida da graça… A fé debilitou-se nesses cristãos e eles esqueceram que a verdade é única, que a verdade torna mais humanos os homens e os povos, que abre o caminho do Céu.

É importante que a fé leve a empreender ações sociais, mas “o mundo não pode conformar-se apenas com reformadores sociais. Precisa de santos. A santidade não é um privilégio de poucos; é um dom oferecido a todos… Duvidar disso significa não entender completamente as intenções de Cristo”9, omitir a essência da sua mensagem.

A fé é a verdade, e ilumina a nossa inteligência, preserva-a de erros, cura as feridas e a inclinação para o mal que o pecado original semeou em nós. Provém daí a segurança do cristão, não só no que se refere estritamente à fé, mas a todas as questões que lhe são conexas: a origem do mundo e da vida, a dignidade intocável da pessoa humana, a importância da família…

Isto nos leva – como ensina Paulo VI – a ter “uma atitude dogmática, sim, que significa que não está fundamentada numa ciência própria, mas na Palavra de Deus […]. Atitude que não nos ensoberbece, como possuidores afortunados e exclusivos da verdade, mas nos torna fortes e corajosos para defendê-la, amorosos para difundi-la. Santo Agostinho no-lo recorda: Sine superbia, de veritate praesumite, sem soberba, estai orgulhosos da verdade”10.

É um dom imenso termos recebido a fé verdadeira, mas é ao mesmo tempo uma grande responsabilidade. A vibração apostólica de todo o cristão consciente do tesouro que recebeu não é fanatismo: é amor à verdade, manifestação de fé viva, coerência entre o pensamento e a vida. Proselitismo, no sentido nobre e verdadeiro do termo, não é de forma alguma atrair as almas com enganos ou violências, mas o esforço apostólico por dar a conhecer Cristo e a sua chamada a todos os homens, querer que as almas conheçam a riqueza que Deus revelou e se salvem, que recebam a vocação para uma entrega plena a Deus, se for essa a vontade divina. É uma tarefa das mais nobres que o Senhor nos confiou.

III. O EMPENHO POR DIFUNDIR A FÉ, sempre com respeito e apreço pelas pessoas, não se concilia com a pusilanimidade de transmitir meias verdades por receio de que a plenitude da verdade e as exigências de uma autêntica vida cristã possam entrar em choque com o pensamento em voga e com o aburguesamento de muitos. A verdade não conhece meios termos e o amor sacrificado não admite descontos nem pode ser objeto de compromissos. Uma das condições de toda a ação apostólica é a fidelidade à doutrina, ainda que em alguns casos esta se mostre difícil de cumprir e chegue até a exigir um comportamento heróico ou, pelo menos, cheio de fortaleza.

Não se podem omitir temas tais como o da generosidade em ter uma família numerosa, o das exigências da justiça social, o da entrega plena a Deus quando Ele chama… Não se pode querer agradar a todos reduzindo de acordo com as conveniências humanas as exigências do Evangelho: Falamos – escrevia São Paulo –, não como quem procura agradar aos homens, mas somente a Deus11.

Não é bom caminho pretender tornar fácil o Evangelho, silenciando ou rebaixando os mistérios que devem ser cridos e as normas de conduta que devem ser vividas. Ninguém pregou nem pregará o Evangelho com maior credibilidade, energia e atrativo que Jesus Cristo, e houve quem não o seguisse fielmente. Não podemos esquecer-nos de que pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios, mas poder de Deus para os escolhidos, quer judeus, quer gregos12.

E esse anúncio significa que devemos insistir com os nossos colegas e amigos, um por um, na necessidade de mudarem de vida, de fazerem penitência, de renunciarem a si próprios, de estarem desprendidos dos bens materiais, de serem castos, de buscarem com humildade o perdão divino, de corresponderem ao que Ele quer de nós desde a eternidade. O que não quer dizer, no entanto, que não devamos esforçar-nos por adaptar-nos sempre à capacidade e às circunstâncias daqueles que pretendemos levar ao Senhor, tal como Ele próprio fez ao longo do Evangelho, tornando-o acessível a todos.

A caridade de Cristo urge-nos!13 Este foi o motor da incansável atividade apostólica de São Paulo e este há de ser também o aguilhão que nos incite. O amor a Deus há de levar-nos a sentir a urgência da tarefa apostólica e a não desperdiçar nenhuma oportunidade de exercê-la; mais ainda, em muitas ocasiões, há de levar-nos a provocar essas oportunidades, que de outra forma nunca nos chegariam.

Todos andam à tua procura… O mundo tem fome e sede de Deus. Por isso, além da caridade, devemos cultivar a esperança; os nossos amigos e conhecidos, mesmo os mais afastados de Deus, também têm necessidade e desejos dEle, ainda que muitas vezes não o manifestem. E, sobretudo, o Senhor procura-os.

Peçamos à Santíssima Virgem o ímpeto apostólico que caracterizou a vida dos Apóstolos e dos primeiros cristãos.

(1) Mc 1, 29-39; (2) Mc 3, 14; (3) cfr. Mt 28, 19-20; (4) cfr. At 2, 38; (5) Rom 10, 15; Is 52, 7; (6) 1 Cor 9, 16; (7) cfr. Conc. Vat. II, Decr. Apostolicam actuositatem, 6; (8) São João Crisóstomo, Homilias sobre os Atos dos Apóstolos, 20; (9) João Paulo II, Discurso aos educadores apostólicos, 12-IX-1987; (10) Paulo VI,Alocução, 4-VIII-1965; (11) 1 Tess 2, 3-4; (12) 1 Cor 1, 23-24; (13) 2 Cor 5, 14.

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