XIV DOMINGO – Tempo comum

XIV DOMINGO – Tempo comum

 LITURGIA DESTE DOMINGO centra‑se de modo particular nesse grande bem para a alma e para a sociedade que é a paz. Na primeira Leitura1, o profeta Isaías anuncia que a era do Messias se caracterizará pela abundância desse bem divino; será como um rio de paz, como uma torrente transbordante, resumo de todos os bens: o gozo, a alegria, a consolação, a prosperidade prometida por Deus à Jerusalém restaurada depois do desterro da Babilônia. Como uma criança que a mãe consola, assim eu vos consolarei. Isaías refere‑se ao Messias, portador dessa paz que é, ao mesmo tempo, graça e salvação eterna para cada um e para todo o Povo de Deus. A nova Jerusalém é imagem da Igreja e de todos nós.

O Evangelho da Missa2 relata a partida dos discípulos para anunciarem a chegada do Reino de Deus. À sua passagem, multiplicam‑se os milagres: cegos que recuperam a vista, leprosos que ficam limpos, pecadores que decidem fazer penitência. E vão levando por toda a parte a paz de Cristo. O próprio Senhor os encarregara disso, antes de deixá‑los partir para essa missão apostólica: Em toda a casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa! Se ali houver algum homem de paz, repousará sobre ele a vossa paz… Esta mensagem será repetida pela Igreja até o fim dos tempos.

Depois de tantos anos, vemos, não obstante, que o mundo não está em paz; anseia e clama por ela, mas não a encontra. Poucas vezes como no nosso tempo se mencionou tanto a palavra paz, e talvez poucas vezes como no nosso tempo a paz esteja tão longe do mundo. Mesmo “dentro de cada país, e em não poucas nações, a situação geral pouco tem a ver com a paz. Não é que exista guerra, o que geralmente se entende por guerra, mas, sem dúvida, falta paz. É a luta de raças, a luta de classes, a luta entre ideologias, a luta de partidos. Terrorismo, guerrilhas, seqüestros, atentados, insegurança, motins, conflitos, violência, ódios, ressentimentos, acusações, recriminações”3. Paz, paz, paz, dizem. E não há paz4. Não há paz na sociedade, nem nas famílias, nem nas almas. O que acontece para que não haja paz? Por que tanta crispação e tanta violência, por que tanta inquietação e tristeza nas almas, se todos desejam a paz?

Talvez o mundo esteja buscando a paz onde não a pode encontrar; talvez a confunda com a tranqüilidade; talvez a faça depender de circunstâncias externas e alheias ao próprio homem. A paz vem de Deus e é um dom divino que sobrepuja todo o entendimento5, e que se concede somente aos homens de boa vontade6, aos que procuram com todas as suas forças conformar a sua vida com o querer divino.

“A paz, que traz consigo a alegria, o mundo não a pode dar.

“– Os homens sempre estão fazendo pazes, e andam sempre enredados em guerras, porque esqueceram o conselho de lutar por dentro, de recorrer ao auxílio de Deus, para que Ele vença, e assim consigam a paz no seu próprio eu, no seu próprio lar, na sociedade e no mundo.

“– Se nos comportarmos deste modo, a alegria será tua e minha, porque é propriedade dos que vencem. E com a graça de Deus – que não perde batalhas – chamar‑nos‑emos vencedores, se formos humildes”7.

Então seremos portadores da paz verdadeira, e levá‑la‑emos como um tesouro inestimável aos lugares onde estivermos: à família, ao local de trabalho, aos amigos…, ao mundo inteiro.

II. NO PRINCÍPIO, antes de que se cometesse o pecado original, tudo estava ordenado para dar glória a Deus e para proporcionar felicidade ao homem. Não existiam as guerras, os ódios, os rancores, a incompreensão, as injustiças… Por esse primeiro pecado, ao qual se acrescentaram depois os pecados pessoais, o homem converteu‑se num ser egoísta, soberbo, mesquinho, avaro… É aí que devemos procurar a causa de todos os desequilíbrios que vemos ao nosso redor.

“A violência e a injustiça – frisa João Paulo II – têm raízes profundas no coração de cada indivíduo, de cada um de nós”8. Do coração procedem “todas as desordens que os homens são capazes de cometer contra Deus, contra os irmãos e contra eles próprios, provocando no mais íntimo das suas consciências uma ferida, uma profunda amargura, uma falta de paz que necessariamente se reflete no entrançado da vida social. Mas é também do coração humano, da sua imensa capacidade de amar, da sua generosidade para o sacrifício, que podem surgir – fecundados pela graça de Cristo – sentimentos de fraternidade e obras de serviço aos homens que, como um rio de paz (Is 66, 12), cooperem para a construção de um mundo mais justo, onde a paz tenha foro de cidadania e impregne todas as estruturas da sociedade”9. A paz é conseqüência da graça santificante, como a violência, em qualquer das suas manifestações, é conseqüência do pecado.

O futuro da paz está nos nossos corações10, pois o pecado não foi tão poderoso que pudesse apagar completamente a imagem de Deus no homem, mas apenas “sujá‑la, deformá‑la, debilitá‑la; pôde ferir a alma, mas não aniquilá‑la; obscurecer a inteligência, mas não destruí‑la; dar lugar ao ódio, mas não eliminar a capacidade de amar; desviar a vontade, mas sem chegar ao ponto de tornar impossível a retificação”11.

Por isso, ainda que o homem tenda para o mal quando se deixa levar pela sua natureza caída, pode não obstante, com a ajuda da graça, vencer essas paixões desordenadas, e possuir e comunicar a paz que Cristo nos conquistou. A vida do cristão converte‑se então numa luta alegre por rejeitar o mal e alcançar Cristo. Nessa luta, encontra uma segurança cheia de otimismo, mas quando pactua com o pecado e os seus erros, acaba por perdê‑la, e converte‑se numa fonte de mal‑estar ou de violência para si próprio e para os outros.

Como uma criança que a mãe consola, assim eu vos consolarei. Unicamente em Cristo encontraremos a paz de que tanto necessitamos para nós mesmos e para os que estão mais perto. Recorramos a Ele quando as contrariedades da vida pretenderem tirar‑nos a serenidade da alma. Recorramos ao sacramento da Penitência e à direção espiritual se, por não termos lutado suficientemente, a inquietação e o desassossego entrarem no nosso coração.

III. A PRESENÇA DE CRISTO no coração dos seus discípulos é a origem da verdadeira paz, que é riqueza e plenitude, e não simples tranqüilidade ou ausência de dificuldades e de luta. São Paulo afirma que o próprio Cristo é a nossa paz12; possuí‑lo e amá‑lo é a origem de toda a serenidade verdadeira.

Este fluir de paz no nosso coração, como uma torrente que transborda, começa pelo reconhecimento dos nossos pecados, das faltas, negligências e erros. É então que, se somos humildes e olhamos para Cristo, descobrimos a sua grande misericórdia, “como se Ele estivesse aí detrás, como que escondido, para nos dizer: essas são as misérias que tomei para Mim, para te mostrar pessoalmente, nesta solidão e nesta dor, qual é o amor do Pai, o único capaz de livrar‑te delas, de virá‑las de certo modo pelo avesso e utilizá‑las para a tua salvação. Então poderá ressoar no ouvido do nosso coração a palavra: a tua fé te salvou e Eu te curei. Vai em paz!”13 Não há paz sem contrição.

Com este sossego interior, que encontraremos recomeçando muitas vezes e não pactuando jamais com os nossos defeitos e erros, poderemos sair para o mundo, para esse espaço em que se desenvolve a nossa tarefa diária, a fim de sermos promotores de paz, dessa paz que o mundo não tem e que, portanto, não pode dar.

Quando entrardes numa casa, dizei primeiro: Paz a esta casa… Não se trata de uma simples saudação; é a paz de Cristo, que os seus discípulos devem levar a todos os caminhos. Diremos a todos que a verdadeira paz “se baseia na justiça, no sentido da inviolável dignidade do homem, no reconhecimento de uma igualdade indelével e desejável entre os homens, no princípio básico da fraternidade humana, quer dizer, no respeito e no amor devidos a cada homem”14.

Dir‑lhes‑emos que nunca serão semeadores de paz se não se souberem filhos de Deus e não tratarem os outros como filhos de Deus: todos irmãos por terem um Pai comum, que é um laço sobrenatural infinitamente mais forte que os laços do sangue, o único que pode superar em bases permanentes os conflitos de interesses, sejam pessoais, de família, de classe ou internacionais. Bem‑aventurados os artífices da paz, porque serão chamados filhos de Deus15. Na expressão do Senhor, as duas expressões se equivalem.

O cristão que vive de fé, consciente da sua estirpe divina, é o homem de paz que contagia serenidade; passa‑se bem ao seu lado, e todos procurarão a sua companhia. Peçamos a Nossa Senhora, ao terminarmos este tempo de oração, que saibamos recorrer com humildade às fontes da paz – o Sacrário, a Confissão, a direção espiritual –, se virmos que o desassossego, o temor, a tristeza ou o rancor querem penetrar no nosso coração e comprometer a nossa missão de paz.

Rainha da paz, rogai por nós…, rogai por mim.

(1) Is 66, 10‑14; (2) Lc 10, 1‑12; 17‑20; (3) F. Suárez, La paz os dejo, Rialp, Madrid, 1973, pág. 47; (4) cfr. Jer 6, 14; (5) Fil 4, 7; (6) cfr. Lc 2, 14; (7) Josemaría Escrivá, Forja, n. 102; (8) João Paulo II, Mensagem para a jornada da Paz, 8‑XII‑1984, n. 1; (9) A. del Portillo, Homilia aos participantes do Ano Internacional da Juventude, 30‑III‑1985; (10) cfr. João Paulo II, op. cit., n. 3; (11) F. Suárez, op. cit., pág. 63; (12) Ef 2, 14; (13) S. Pinchaers, En busca de la felicidad, Palabra, Madrid, 1981, pág. 157; (14) Paulo VI, Mensagem para a jornada mundial da Paz de 1971; (15) Mt 5, 9.