XXVI Domingo do tempo comum

XXVI Domingo do tempo comum

I. A PRIMEIRA LEITURA da Missa1apresenta-nos o profeta Amós que chega do deserto à Samaria. Aí encontra os dirigentes do povo entregues a uma vida mole, que encobre todo o gênero de vícios e o completo esquecimento dos destinos do país, que caminha para a ruína. Ai daqueles que vivem comodamente em Sião! Dormem em leitos de marfim e entregam-se à moleza nos seus leitos; comem os melhores cordeiros do rebanho e os mais escolhidos novilhos da manada; perfumam-se com óleos preciosos, sem se compadecerem da aflição de José, recrimina-lhes o Profeta. E anuncia-lhes a sorte que os espera: Por isso irão para o desterro à cabeça dos cativos. Esta profecia viria a cumprir-se uns anos mais tarde.

Ao longo da liturgia deste domingo, põe-se de manifesto que a excessiva ânsia de conforto, de bens materiais, de comodidade e luxo, leva na prática ao esquecimento de Deus e dos outros, bem como à ruína espiritual e moral. O Evangelho2 descreve-nos um homem que não soube tirar proveito dos seus bens. Ao invés de ganhar com eles o Céu, perdeu-o para sempre. Tratava-se de um homem rico, que se vestia de púrpura e de linho, e que todos os dias se banqueteava esplendidamente. Entretanto, muito perto dele, à sua porta, estava deitado um mendigo chamado Lázaro, todo coberto de chagas, que desejava saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico. E até os cães lambiam as suas chagas.

A descrição que o Senhor nos faz nesta parábola tem fortes contrastes: grande abundância num, extrema necessidade no outro. Dos bens em si mesmos, nada se diz. O Senhor apenas sublinha o uso que deles se faz: roupas extraordinariamente luxuosas e banquetes diários. Ao mendigo Lázaro, nem sequer lhe chegam as sobras.

Os bens do rico não tinham sido adquiridos fraudulentamente, nem ele era culpado da pobreza de Lázaro, ao menos diretamente: não se aproveitava da sua miséria para explorá-lo. Tem, no entanto, um marcado sentido da vida e dos bens: “banqueteava-se”. Vive para si, como se Deus não existisse. Esqueceu uma coisa que o Senhor recorda com muita freqüência: não somos donos dos bens materiais, mas administradores.

Este homem rico vive como lhe apetece na abundância; não está contra Deus nem oprime o pobre. Apenas está cego para as necessidades alheias. Leva a melhor existência que pode. Seu pecado? Não ter visto Lázaro, a quem poderia ter feito feliz com um pouco menos de egoísmo e um pouco mais de despreocupação pelas suas próprias coisas. Não utilizou os bens conforme o querer de Deus. Não soube compartilhar. “Não foi a pobreza – comenta Santo Agostinho – que conduziu Lázaro ao céu, mas a sua humildade; nem foram as riquezas que impediram o rico de entrar no descanso eterno, mas o seu egoísmo e a sua infidelidade”3.

O egoísmo, que muitas vezes se concretiza na ânsia de usufruir sem medida dos bens materiais, leva a tratar as pessoas como coisas; como coisas sem valor. Pensemos hoje que todos temos ao nosso redor pessoas necessitadas, como Lázaro. E não esqueçamos que os bens que recebemos para administrar generosamente são também o afeto, a amizade, a compreensão, a cordialidade, as palavras de ânimo…

II. DO USO QUE FAÇAMOS dos bens que Deus depositou nas nossas mãos depende a vida eterna. Estamos num tempo de merecer. Por isso, não sem um profundo mistério, o Senhor dirá: É melhor dar do que receber4. Ganhamos mais dando do que recebendo: ganhamos o Céu. Sendo generosos, descobrindo nos outros filhos de Deus que necessitam de nós, somos felizes aqui na terra e mais tarde na vida eterna. A caridade é sempre realização do Reino dos Céus, e é a única bagagem que sobrenadará neste mundo que passa. E devemos estar atentos, pois Lázaro pode estar no nosso próprio lar, no escritório ou na oficina em que trabalhamos.

Na segunda Leitura5, São Paulo, depois de recordar a Timóteo que a raiz de todos os males é o amor ao dinheiroe que muitos perderam a fé por causa disso6, escreve: Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas e busca a justiça, a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado…

Nós, cristãos, homens e mulheres de Deus, somos eleitos para ser fermento que transforma e santifica as realidades terrenas. Devemos preservar da morte todos os que estão ao nosso redor, como fizeram os primeiros cristãos nos lugares em que lhes coube viver. E ao vermos a ânsia com que muitos se embrenham nas coisas materiais, temos de compreender que, para sermos fermento no meio do mundo, devemos viver desprendidos daquilo que possuímos. Pouco ou nada poderíamos fazer à nossa volta se não puséssemos esforço e empenho em não ter coisas supérfluas, em reduzir os gastos, em levar uma vida sóbria, em praticar com magnanimidade as obras de misericórdia. Mostraremos, em primeiro lugar com o exemplo, que a salvação do mundo e a sua felicidade não estão nos meios materiais, por mais importantes que possam parecer, mas em ordenar a vida conforme o querer de Deus.

A sobriedade, a temperança, o desprendimento hão de levar-nos ao mesmo tempo a ser generosos: ajudando os mais necessitados, levando adiante – com o nosso tempo, com os talentos que recebemos de Deus, com os bens materiais na medida das nossas possibilidades – obras boas, que elevem o nível de formação, de cultura, de atendimento aos doentes… Esta generosidade ensinar-nos-á a livrar-nos do egoísmo, do apego desordenado aos bens materiais. E assim “estaremos em condições de fazer-nos solidários com os que sofrem, com os pobres e doentes, com os marginalizados e oprimidos. A nossa sensibilidade crescerá, e não nos custará ver no próximo necessitado de ajuda o próprio Jesus Cristo. É Ele quem nos disse e agora nos recorda: Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes (Mt 25, 40). No dia do Juízo, estas serão as nossas credenciais. E então compreenderemos também que de nada nos terá servido ganhar todo o mundo, se no final não tivermos amado com obras e de verdade os nossos irmãos”7.

III. NÃO VOS CONFORMEIS com este mundo…8, exortava São Paulo aos primeiros cristãos de Roma. Quando se vive com o coração posto nos bens materiais, as necessidades dos outros escapam-nos; é como se não existissem. O rico da parábola “foi condenado porque […] nem sequer percebeu a presença de Lázaro, da pessoa que se sentava à sua porta e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da sua mesa”9. Não adiantou que o visse tantas vezes.

Nós, cristãos, não podemos deixar-nos cegar por esse sentido da vida que só vê o aspecto rentável de cada circunstância, negócio ou lugar de trabalho. “A solidariedade é uma exigência direta da fraternidade humana e sobrenatural”10, que nos levará, em primeiro lugar, a viver pessoalmente a pobreza que Jesus declarou bem-aventurada, aquela que “está feita de desprendimento, de confiança em Deus, de sobriedade e de disposição de partilhar com os outros, de sentido de justiça, de fome do reino dos céus, de disponibilidade para escutar a palavra de Deus e guardá-la no coração (cfr. Libertatis conscientia, 66)”11.

Ao mesmo tempo, devemos examinar se o nosso desprendimento é real, se tem conseqüências práticas, se a nossa vida é exemplar pela temperança no uso dos bens, e sobretudo – e como uma conseqüência efetiva desse desprendimento – se temos o coração posto no tesouro que não passa, que resiste ao tempo, à ferrugem e à traça12.

Teremos Cristo conosco por toda uma eternidade sem fim. Quando tivermos de deixar todas as coisas desta terra, não nos custará muito passar por esse transe se tivemos o coração posto nEle. “Senhor! Como foi doce ver-me subitamente privado da doçura daquelas coisas que são nada! – exclamava Santo Agostinho recordando a sua conversão –.

Quanto mais temia perdê-las antes, tanto mais me rejubilava agora por tê-las deixado; Deus, minha grande e verdadeira doçura, expulsara-as de mim. Arrancara-as de mim, e em seu lugar entrava Ele, mais doce do que toda a doçura, mas não para a carne; mais luminoso e mais claro do que a própria luz, e ao mesmo tempo mais oculto do que qualquer segredo; mais sublime do que todas as honrarias”13. Que pena se, alguma vez, não soubéssemos apreciá-lo!

(1) Am 6, 1; 4-7; (2) Lc 16, 19-31; (3) Santo Agostinho, Sermão 24, 3; (4) At 20, 25; (5) 1 Tim 6, 11-16; (6) 1 Tim 6, 10; (7) A. Fuentes, El sentido cristiano de la riqueza, Rialp, Madrid, 1988, pág. 176; (8) Rom 12, 2; (9) João Paulo II, Homilia no Yankee Stadium de New York, 2.10.79; (10) Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução Libertatis conscientia, 22.03.86, 89; (11) João Paulo II, Homilia, México, 7.05.90; (12) cfr. Lc 12, 33; (13) Santo Agostinho, Confissões, 9, 1, 1.